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O Rei de Staten Island

[tempo de leitura: 3 minutos]

“A Arte de Ser Adulto” sofre com a falta de traquejo de Judd Apatow para trabalhar o drama das situações cômicas.


ÉÉ um pouco trágico que A Arte de Ser Adulto, novo filme de Judd Apatow, sofra do mesmo problema que seu protagonista. É curioso que Apatow tenta propor um drama por baixo da roupagem de comédia, mas falta arrojo e inspiração para tornar aquilo de fato impactante – assim como o protagonista vivido por Pete Davidson não consegue assumir suas responsabilidades e maturidade, vivendo e uma constante zona de conforto que é sustentada por um trauma passado.

Assim, o roteiro assinado por Apatow e Davidson propõe na primeira metade do filme uma construção atmosférica e de personagens que sustentam uma verdade interessante, sustentada pelas personalidades falhas e pela caracterização dos tipos desconjuntados e esquisitos que combinam com a apresentação de Staten Island, talvez o principal personagem de A Arte de Ser Adulto.

É curioso que Scott destoa totalmente da proposta de um realismo empático proposto, uma vez que ele simboliza o cidadão de Staten Island, distrito menos conhecido e celebrado de Nova York e que nutre em sua vida em comunidade um certo senso comum de que não é tão interessante quanto Manhattan, Brooklyn, Queens e Bronx. Ademais, o personagem vívido por Pete Davidson é também uma espécie de arquétipo geracional de inúmeros jovens que protelam ao máximo a entrada em uma vida adulta independente e própria, se mantendo sob as asas dos pais e estendendo a adolescência ao máximo em comportamentos juvenis.

O problema é que o diretor de A Arte de Ser Adulto não consegue dar estofo visual a obra, desperdiçando uma sugestão de um drama mais incisivo por baixo da comédia autorreferente com estes tipos estranhos. Afinal, Davidson empresta seu contexto de vida à trama: o comediante é nascido e criado em Staten Island e perdeu seu pai, ex-bombeiro, durante os resgates do atentado ao 11 de Setembro – assim como Scott, o protagonista do longa.

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Por mais que se aproxime de uma abordagem intimista, não há nenhuma preocupação com uma estética naturalista. Pelo contrário, a fotografia demarca um tom acinzentado de uma penumbra que paira sobre a ambientação e evidencia um complexo de vira-lata inerente aos habitantes. O tom de desilusão levantado é bem sustentado e aproveitado na primeira parte da trama que, por sua vez, é interessante porque o diretor consegue capturar sutilezas do dia-a-dia das figuras imersas nesse convívio.

Nessa primeira hora do longa, Apatow se mostra mais inspirado, apresentando o mundo que cerca Scott e situando o espectador em sua vida, assim como de todas aquelas pessoas que carregam um senso de pertencimento ao distrito. Neste sentido, há uma sugestão de um determinismo social que não é aprofundado em momento algum, o que exaure a boa construção da própria cidade como uma personagem onipresente no filme.

É triste, também, que tudo que circunda Claire (Maude Apatow) – a irmã do protagonista que consegue sair de Staten Island para fazer faculdade e simboliza um certo arquétipo social das pessoas talentosas que crescem ali para sair mais tarde em busca de uma vida mais complexa – seja esquecido completamente. Junto disso, Davidson não é dos mais talentosos atores e não carrega o drama que seu personagem sugere, mesmo que fisicamente ele seja um certo estereótipo do que Scott é na trama.

O que torna A Arte de Ser Adulto interessante em alguns momentos é a dinâmica entre as personagens que circundam o protagonista e seus papéis como figuras capazes de demonstrar algum tipo de aprendizado e amadurecimento à Scott. Assim, Apatow tem a ajuda de Marisa Tomei (vivendo Marjorie, a mãe de Scott) e Bill Burr (interpretando o bombeiro que começa a namora-la). Apesar de Burr surpreender, quem se destaca mesmo é Tomei é ao ser carismática e sútil no papel, extremamente confortável em mostrar como sua personagem é privada de sua própria liberdade pela presença do filho problemático em seu porão, ao mesmo tempo que vive em conflito com o sentimento da perda de seu ex-marido e da dificuldade de ter sustentado seu núcleo familiar sozinha e da melhor forma possível.

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Em certa medida, quando o protagonista faz a travessia para Manhattan já no encerramento da trama após concluir sua jornada de auto resolução e superação de seus dramas internos, Apatow evidencia essa possibilidade de um recomeço para Scott quando ele se vê em uma Nova York ensolarada e de arranha-céus imponentes. Um desfecho iluminado e otimista para um filme que, sem um trabalho de direção mais arrojado capaz de dar força ao drama sugerido, torna A Arte de Ser Adulto uma comédia rasa presa a zona de conforto de seu realizador.

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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