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Crítica: “Máquinas Mortais”

Crítica: “Máquinas Mortais”

  • Crítica

“Máquinas Mortais” trabalha com muitos efeitos especiais e comentários de viés políticos, mas nunca consegue elaborar algo para se sobressair.


Em uma determinada cena de Máquinas Mortais, o personagem Tom (Robert Sheehan) aponta aleatoriamente para o sul, afirmando confiar em seu “instinto de direção” que poderá salvar tanto ele quanto a sua companheira Hester das ameaças emergentes. Não percebemos confiança em seu semblante, mas há uma determinação inocente, típica de quem cultiva resquícios de esperanças em busca da sorte de principiante. Ao longo de sua duração, Máquinas Mortais consolida uma experiência que, embora simpática e comprometida com o seu universo imaginativo, se materializa na alma de Tom: sem saber que rumo seguir.

Ambientado num cenário distópico, lotado de referências ao steampunk, Máquinas Mortais é uma combinação de ficção científica e fantasia que acompanha a jornada da protagonista Hester Shaw (Hera Hilmar) para vingar a morte de sua mãe (Caren Pistorius) pelas mãos de Valentine (Hugo Weaving). Aqui, as cidades são móveis – que nem o castelo de Howl – e submetidas a um “darwinismo municipal”, ou seja, aquelas mais resistentes e adaptadas são selecionadas, não deixando espaço para cidades menores, mais frágeis e tecnologicamente defasadas. A oportunidade de Hester surge quando a Londres ambulante, onde Valentine reside e busca tomar o poder, adentra o território continental europeu na intenção de expandir seu inventário de artefatos e aumentar sua densidade populacional.

As premissas são acompanhadas de muitos comentários (raramente sutis) sobre as tensões sociais e políticas do mundo contemporâneo. Podemos, por exemplo, encontrar menções indiretas ao Brexit (ou a qualquer estratégia atual de cunho protecionista) quando percebemos uma Londres que se limita, se protege belicamente e se “alimenta” de cidades vizinhas, sem deixar brecha para a diplomacia. Igualmente peculiares são as menções à política migratória de Trump, com uma citação óbvia – “é possível que crianças fiquem separadas de seus pais” – durante o processo de triagem que a população de uma cidade menor deve passar ao ser assimilada por uma cidade maior. Por outro lado, a narrativa desperdiça boas intenções ao desenvolver mal seus personagens e não investir em uma fundamentação diegética. As motivações surgem burocráticas e, apesar de um prólogo sucinto, ainda ficamos à deriva em relação aos acontecimentos pretéritos daquele mundo.

A jornada de vingança de Hester acidentalmente acolhe a figura de Tom, um jovem curioso e entusiasta da aviação que vive em Londres e é traído por Valentine – que é também o pai de sua melhor amiga Katherine (Leila George). Apelidado de “City Boy”, o garoto muitas vezes rouba para si o protagonismo quando somos apresentados ao seu passado solitário, ou quando ficamos a par de suas aspirações mal sucedidas. Acompanhamos um arco razoável para o seu papel na história, culminando em uma aventura final isolada que alguns se lembrarão de Lando Calrissian na Estrela da Morte em O Retorno de Jedi. A dupla é interessante o suficiente para nos fazer viajar por lugares variados, como as trincheiras formadas pelo rastro das cidades ambulantes, uma cidade-aeroporto flutuante e as cordilheiras do leste que abrigam as civilizações minoritárias (e são o alvo do vilão em sua busca por hegemonia política). Infelizmente, o crescimento de ambos é prejudicado por elementos de pouca significância narrativa, como a libertação de uma figura macabra do passado de Hester ou as reviravoltas cansativas promovidas pelos episódios de digressão da protagonista.

Adaptado a partir de um livro de Philip Reeve e dirigido pelo estreante Christian Rivers, figura ligada à empresa de efeitos visuais neozelandesa Weta Digital (cujo proprietário é ninguém menos que Peter Jackson, contribuinte também do roteiro), Máquinas Mortais se revela uma interessante experiência de iniciante. É um filme que dá passos maiores que as pernas, se empolga diante das próprias tentativas de imersão e se perde em devaneios estilísticos. Dentre os esforços mais infelizes do filme, percebo sua tentativa de construir tensão a partir de paralelismos – uma ferramenta usada à exaustão ao longo da carreira de Jackson. Acontece que os paralelismos funcionam quando ambos os arcos narrados são conectados por um personagem ou uma situação unificadora, o que não é o exemplo encontrado no filme. Creio que funcionaria melhor se houvessem sequências isoladas relatando, por exemplo, a chegada de Hester e Tom ao leste e outra relatando a tomada de poder por parte de Valentine e a ascensão de sua máquina quântica de destruição, batizada de Medusa.

Também fica a desejar o uso inapropriado de alguns recursos como a câmera lenta e os constantes planos oblíquos – que em vez de exaltar a tensão dos personagens, causam desconforto e impaciência. Há uma importante figura (interpretada por Anna Fang) que aparece num dado momento para salvar a dupla principal sem a construção de pistas narrativas que levem a isso (compare por exemplo com a apresentação de Aragorn em A Sociedade do Anel). Por outro lado, temos um design sonoro imersivo, que se destaca muito no clímax ao projetar explosões de modo similar aos seismic charges lançados por Jango Fett em O Ataque dos Clones. Os cenários e os figurinos são inspirados, ainda que muito carregados (há uma referência bizarra e deslocada aos… Minions?) e de pouca contribuição para a carga dramática do filme. Finalmente, temos uma trilha excessiva, composta por Tom Holkenborg (conhecido também como Junkie XL, o mesmo de Mad Max: Estrada da Fúria e Batman vs. Superman), dedicada a antecipar – e aniquilar – muitos ápices de emoção que o roteiro prepara gradativamente.

É possível entender a obra como um exercício de efeitos visuais a serviço de esforços narrativos que, mesmo mal sucedidos, te conduzem a uma resolução satisfatória. Os comentários políticos podem ser percebidos e assimilados com força variável, dependendo do espectador. O que impede Máquinas Mortais de sobressair são pequenas impurezas advindas de pretensões levianas, obstruindo o estabelecimento de um universo fictício que valha a pena mergulhar. Background, motivações, desenvolvimento. É visível a necessidade de amadurecimento no que tange ao domínio narrativo. Na carência disso tudo, o que Christian Rivers faz é confiar em seu “instinto de direção”, assim como Tom fez. Decisão que caracteriza essa encruzilhada de sentimentos chamada de filme.

giulio bonanno

eterno aprendiz no mundo que o cerca. fã de Cinema, Música e Artes em geral, está sempre à procura de novas apreciações. cruzeirense desde criança, nerd desde berço e mineiro desde sempre.

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