Crítica: “John Wick 3: Parabellum”

Crítica: “John Wick 3: Parabellum”
[tempo de leitura: 5 minutos]

Para bellum. Guerra. John Wick (Keanu Reeves) está de volta e precisa arcar com as consequênicas de suas ações. Após quebrar uma das regras mais valiosas do mundo que o cerca, matando seu inimigo dentro das paredes do sagrado Hotel Continental de Nova Iorque, Wick é ex-comungado, precisando sobreviver a todos que cruzam o seu caminho para conseguir aquilo que tanto sonha.

Neste terceiro capítulo da história que começou com o assassinato de um cachorro e o roubo de um carro, John Wick 3: Parabellum vai contra a maré e prova que não só é capaz de produzir um segundo filme melhor que seu primeiro, mas que pode fazer um terceiro capítulo ainda maior e melhor. Dirigido por Chad Stahelski, responsável pelos dois anteriores, a película tem total noção do passo em que está e de quem o seu público é, não perdendo tempo com introduções desnecessárias ou transições tediosas.

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Continuando minutos depois do ponto que terminou o segundo capítulo, com Wick tendo uma hora até o Contrato por sua cabeça tomar efeito, mergulhamos um pouco mais no fascinante mundo underground em que o personagem está inserido. Vemos, por exemplo, as preparações que acontecem dentro da “Central de Operações/Administração” para colocar em vigor a recompensa contra o famoso assassino, e como (a maioria d)as pessoas inseridas nessa realidade seguem as regras de forma religiosa.

É durante a fuga de Wick que o filme mostra novos territórios e até mesmo sai da cidade de Nova York. Vemos a máfia russa, chefiada pela Diretora (Anjelica Huston), como uma aliada à Alta Cúpula, mas servindo abaixo da mesma. Visitamos outro Continental e podemos conhecer o local em que as Moedas de Ouro e as Promissórias são feitas.

Parabellum, no entanto, não entrega todas as suas cartas e a Alta Cúpula continua invisível, embora onipresente, sendo colocada quase como uma instituição divina, com suas regras rígidas, inflexíveis e indiscutíveis. Ela é a Igreja deste universo apresentado, desconhecido pelo mundo comum, mas presente em todo ele – desde os moradores de ruas, taxistas e policiais, até as pessoas da alta sociedade. Mas se a Cúpula não aparece, ela se prontifica a enviar a Juíza (Asia Kate Dillon), uma personificação das regras frias e inflexíveis dessa institução que é responsável por reenforçar as leis que sustenta seu alicerce. E não importa se os réus são Winston (Ian McShane), o dono do Continental, ou Bowery Kng (Laurence Fishburne), auto-intitulado Rei das Informações: nada nem ninguém está acima desta organização.

John Wick 3: Parabellum faz um excelente trabalho na expansão de sua mitologia, dando pequenas e estimulantes doses que deixam o seu público cada vez mais atiçado por conhecer um pouco mais desse mundo que eles começaram a construir mais integralmente em seu segundo capítulo. É interessante ver como a franquia John Wick constrói seu personagem título, deixando ainda mais claro que, se a Cúpula é uma espécie de Deus neste mundo, John Wick é o seu filho mais prodígio. Ele não é intocável e não está fora das regras, mas é uma figura reconhecida por todos (o Baba Yaga) e extremamente temida por aqueles que cruzam seu caminho – mas idolatrado pelos mesmos. Reeves volta a entregar uma sólida performance como o assassino antes conhecido como Baba Yaga, que está claramente em menor número e mais cansado do que o normal. As cenas de lutas são ilustrações perfeitas disso: embora em algumas ele esteja em melhor forma e não tenha tanto problema de derrotar seu inimigo, em muitas delas John demora para pegar o ritmo e o resultado final está no limite de ter sido diferente.

O terceiro capítulo, inclusive, não descansa quando o assunto é combate mão-a-mão. Entre um e outro há apenas um pequeno espaço de fôlego para o público e para Wick, fazendo com que o filme seja um extenso campo de batalha preparatório para a guerra que ainda está por vir. É nesse campo que, em um determinado momento, Reeves conta com a extraordinária presença de Halle Berry. Sua personagem, Sofia, é tão badass quanto se pode esperar, com o longa dedicando a ela toda uma sequência de ação que muito se assemelha a um jogo de video-game de tiro – e que não coloca ela à mercê da proteção de John, subvergindo a ideia da “donzela em perigo”. Wick e Sofia estão pé a pé, no mesmo nível de habilidade, com Sofia ganhando alguns pontos a mais por estar em melhor forma e mais descansada que o seu breve parceiro.

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É inegável o fato de que John Wick 3: Parabellum é muito bem dirigido. Os dois filmes anteriores já haviam provado isso, com coreografias de luta muito bem trabalhadas e muito bem filmadas. Não só pelo fato de que Reeves participa efetivamente das cenas, sem utilizar de dublês, como os diretores da franquia são dois dos maiores dublês e coreógrafos de luta de Hollywood. É a mistura desses dois fatores que torna a película única e tão refrescante.

E em um filme que é claramente construído para alimentar a ideia da epítome do que é ser homem, John Wick 3: Parabellum mostra-se bastante empenhado em entregar algo de qualidade para o público feminino. Seja este algo Anjelica Huston como a imponente Diretora, Asia Kate Dillon como a inabalável Juíza, ou Halle Berry como Sofia. Todas essas personagens ganham um espaço para brilhar em tela e entregar tudo aquilo que suas personagens foram construídas para atingir. E embora duas delas temam a força da Cúpula, como foram instruídas a fazer neste mundo, cada uma mostra uma certa resistência em acatar ordens de outros e mostram completa lealdade às regras que tangem a sua existência, como os acordos feitos pelas Promissórias.

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Sem perder o compasso, John Wick 3: Parabellum gere muito bem as duas horas de sua exibição, fazendo um bom uso de todos os personagens que propõe a trazer de volta ou apresentar. Imerso em uma construção de mundo maravilhosa, uma fotografia que auxilia a entregar a ideia de “mundo das sombras” e coreografias de luta de encher os olhos, Parabellum é uma adição perfeita ao mundo de John Wick, elevando ainda mais a franquia e abrindo espaço para o que pode vir a ser um universo (cinematográfico) único e complexo.

Vics

vics

tem 24 anos e é formado em Jornalismo pela PUC Minas, com um MBA em Comunicação e Marketing. é o Diretor de Arte da revista, sendo o responsável pela criação da identidade visual da zine. ainda, escreve matérias sempre que tem uma boa pauta.

ao todo, já assistiu o correspondente a 13 meses em Séries, três meses em Filmes e em 2017 foram dois meses em reprodução de Música.

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