Crítica / “Ford vs Ferrari”

Crítica / “Ford Vs Ferrari”
[tempo de leitura: 4 minutos]

Há algo de extremamente especial em cinebiografias ou dramas históricos que, gostando ou não, é inegável: somente este subgênero é capaz de encapsular o passado a fim de mantê-lo sob o fluxo constante do tempo-presente que o cinema proporciona. É esta capacidade de transformar o que o passado teimou em apagar (ou não) em algo novo e relevante que define as cinebiografias mais grandiosas.

Em Ford vs Ferrari, o diretor James Mangold (Logan, Johnny & June), que embarca pela segunda vez neste subgênero, não só reconta um momento icônico da história corporativa norte-americana, mas também nos introduz, com eficiência e detalhes, a dois personagens que protagonizaram este momento. O uso de ambos nesta contação realça o contexto por trás deste embate histórico e também amplia quaisquer perspectivas sobre quem foram Ken Miles e Carroll Shelby.

 

Em meados da década de 60, a notória fabricante de automóveis Ford, à beira de decretar falência, encontra uma oportunidade de promover a marca para um público mais jovem a partir do automobilismo. Após receber a negativa da Ferrari e gerar um clima de animosidade entre as empresas, o executivo da Ford, Lee Iacocca (Jon Bernthal), decide recorrer ao ex-piloto e agora designer de automóveis Carroll Shelby (Matt Damon) para desenvolver um carro capaz de vencer o circuito das 24 horas de Le Mans, na França.

Apesar de toda a situação que acompanhamos no primeiro ato, Mangold e os roteiristas compreendem pontualmente que a alma do filme sempre vai estar na sensação de disputa e adrenalina que uma corrida de verdade proporciona. Por isso, é fundamental que o núcleo central do filme acompanhe, em paralelo, o processo de criação do carro e as duas figuras centrais por trás desta tarefa. Deste modo, o filme consegue canalizar com excelência tais sensações.

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Shelby, então, convida o amigo e piloto anglo-americano Ken Miles (Christian Bale) para ajudá-lo a testar as versões do carro e, posteriormente, competir em Le Mans. Seguimos observando os bastidores do que veio a se transformar no GT40 da Ford, mas o que realmente vale cada momento aqui é a dinâmica espetacular entre Damon e Bale e quem eles são de fato.

Shelby, como piloto, havia vencido muitas competições, incluindo as 24 horas de Le Mans anos atrás, e curtia sua aposentadoria, forçada por questões de saúde, projetando carros. É ao conhecermos o personagem a fundo, seus medos e motivações, que ele passa a servir, de fato, como a grande força motora que mantém o filme em movimento constante.

Miles, por outro lado, é apresentado como um mecânico prepotente e com trejeitos de um britânico veterano de guerra com toques egocêntricos. A paixão e carinho por sua esposa Mollie (Caitriona Balfe) e seu filho Peter (Noah Jupe) é o que o recoloca nos trilhos quando necessário.

Ao dar vida a Ken Miles, piloto da qual, confesso, não sabia da existência, Bale confere com autenticidade e naturalidade traços que transmitem muito bem o que o personagem realmente é. A expressão facial e corporal, muito particulares, o destoam, sem caricaturas ou estereótipos, dos demais personagens e isso só reforça sua postura contestadora e de pavio curto que não agradava muito os executivos engomados da Ford.

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Miles e Shelby sustentam uma amizade certamente intensa que dialoga perfeitamente com a missão de criar o veículo para superar os imbatíveis carros da Ferrari. Como isso funciona em simetria, é possível notar que, mesmo com alguns excessos de roteiro, o filme tem o ritmo que precisa ter.

Gosto muito que Mangold soube aproveitar a temática de corrida para, naturalmente, incluir sequências primorosas de corridas durante todo o filme. O diretor não usa as corridas como um recurso de intermissão, mas sim para criar, pontualmente, expectativa ao que está por vir. Ganhando, assim, a atenção do espectador sem perder o foco no desenvolvimento dos personagens e da história.

Visualmente, toda estética empregada, apesar de beirar a neutralidade em alguns momentos, serve bem os propósitos da narrativa principalmente nas cenas de ação do filme. A câmera parece estar sempre no lugar mais adequado e jamais perdemos a noção do que acontece em cena durante as corridas ou do que, subjetivamente, nos é comunicado a respeito de cada personagem envolvido nessas sequências. A lógica do “mostrar e não contar” prevalece.

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Apesar de algumas pontas permanecerem soltas em relação a um ou dois arcos, fica claro ao longo do filme que a história da rivalidade entre a Ford e a Ferrari é, na realidade, mais um recorte de como dois homens e uma equipe contribuíram para este embate do que sobre o embate em si. O que torna o filme muito mais humano e um pouco menos corporativista.

A narrativa começa com um monólogo, na voz de Damon, enquanto acompanhamos uma memória vitoriosa de Carroll, e que nos lembra que, mesmo em grandes velocidades, tudo desaparece e o que resta é um corpo em movimento através do espaço e do tempo. Afinal, independente da escala colossal, que envolve a disputa entre duas gigantes do automobilismo ou as árduas 24 horas de Le Mans a mais de 220km/h, Ford vs Ferrari é sobretudo, uma história sobre pessoas.

Rafael Bonanno

rafael bonanno

com 25, é um Jornalista em formação, com o Cinema como grande paixão. seus interesses também se estendem por produção de conteúdo relevante, storytelling, experiências interativas, narrativas transmídia, Fotografia e produção audiovisual.

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