A visceralidade imersiva da sala de cinema

A Visceralidade Imersiva Da Sala De Cinema
[tempo de leitura: 5 minutos]

“O Farol” convida o espectador a uma experiência visceral na sala de cinema, contruída por um trabalho impecável de direção e atuação.


QQue deleite é a experiência de assistir O Farol! Em seu novo filme, o diretor Robert Eggers reafirma o que já demonstrava em A Bruxa (2015): que seus filmes não se apegam a um destino, mas sim a uma jornada. O Farol não é só um filme sobre dois homens à beira de um colapso de insanidade, mas sim um convite para uma experiência imersiva em todo este processo, sustentado por uma perfeição na execução e por atuações sublimes.

De tudo que se tem para dizer sobre O Farol, é preciso ressaltar a coragem e a consciência criativa de Eggers nas escolhas que toma para construir o filme e sustentar sua proposta. Desde a tela com razão de aspecto em 1.19:1 (evocando os melhores filmes do Expressionismo Alemão dos anos 20 e 30) à fotografia estilizada com a tonalidade intensa do preto e branco, tem-se imediatamente uma claustrofóbica e enervante sensação de ameaça que permeia toda a projeção. Assim, logo nos primeiros momentos, somos capturados por um forte magnetismo com o que se revela ao nosso olhar, intensificando a jornada dos protagonistas e, porque não, expandindo-a para quem a acompanha.

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Pôster nacional

No centro desta experiência, estão dois homens muito diferentes isolados na inospitalidade de uma ilha. Ephraim Winslow (Robert Pattinson) é o recém-chegado zelador que em seu silêncio e introspecção esconde segredos de um passado, por vezes revelados em breves surtos de emoção. Seu chefe, o já velho e moribundo Thomas Wake (Willem Dafoe) é o marinheiro cheio de histórias para contar, crenças no misticismo dos mares e uma forma asquerosa de tratar seu novo companheiro, sempre o provocando e levando-o para a beira do surto – em uma clara tentativa de quebrar, também, o duro semblante inicial que Winslow tenta manter.

Deste relacionamento conturbado, a temática do isolamento surge como fio central de uma espiral crescente de acontecimentos perturbadores, sejam eles causados pelas fortes tempestades e ondas que assombram a ilha, por acontecimentos sobrenaturais ou seres místicos sugeridos. Essa temática, trabalhada minuciosamente pelo diretor e co-roteirista, junto a seu irmão Max Eggers, é transposta para todos os aspectos visuais do filme.

Não só a escolha pela fotografia em preto e branco, mas todo o design de produção de O Farol cria uma ambientação mórbida e enclausurada nos pequenos e retorcidos cômodos em que Winslow e Wake se limitam a viver, além de apresentar uma ilha verdadeiramente suja, aterradora e mórbida. Os elementos sonoros, por sua vez, complementam a imersão e intensificam a escalada à loucura dos protagonistas com sons de tempestades que elevam os fenômenos naturais à verdadeiras forças da natureza, ao passo que também criam ruídos marcantes para as construções velhas e já enfraquecidas em que se abrigam.

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Robert Pattinson como o zelador Ephraim Winslow

Uma vez atentos e apreendidos pelo magnetismo da tela, o espectador acompanha o passar das quatro semanas que Winslow servirá como zelador na ilha, acompanhando um estudo de personagem de ambos os homens lidando com o isolamento de maneiras diferentes. Inclusive, a passagem de tempo não muito clara contribui para a desconfiança do espectador na medida em que o jovem vai gradativamente cedendo ao mártir presente na dureza e no desgaste físico das atividades que realiza repetidamente, além de aguentar o sofrimento psicológico e emocional proveniente da relação com o velho faroleiro, que constantemente o humilha e provoca. Neste ponto, Wake já se porta como um sobrevivente de longa e sofrida jornada degradação vivida no farol, assumindo a detenção de um conhecimento proibido ao seu capataz e mantendo uma subordinação para o jovem que apenas intensifica o desconforto da dinâmica dos dois.

Na medida em que a trama prolonga, o roteiro manipula o espectador – no melhor sentido da palavra – a não encontrar certezas quanto ao que acontece naquela ilha remota, tanto na possibilidade de uma presença sobrenatural ou mística, quanto nas verdades dos dois homens. Assim, a chegada de uma tempestade e um possível confronto entre os protagonistas torna, no fim das contas, O Farol em um estudo de personagem que se propõe a desconstruir uma decadente masculinidade primitiva, em essência violenta e sofrida.

É desta problemática que se desenvolve uma profunda relação entre corpos, seja nessas erupções nojentas de peidos, gritos e urros de violência, ou nas constantes e cada vez mais frequentes sequências de tensão sexual e expurgo do desejo como algo igualmente primitivo. Daí, tem-se a importância do forte barulho do vento, das incômodas gaivotas, do mar revolto e do espantoso som da buzina e dos maquinários pesados que movem o farol – resultado de um trabalho primoroso de mixagem de som. Cria-se um ambiente visceral para que tudo isso aconteça e Eggers em momento algum economiza nos efeitos que quer causar.

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Willem Dafoe como o marinheiro Thomas Wake

No meio de tanto arrojo visual, temático e narrativo, tem-se duas das melhores atuações do ano. Robert Pattinson, em mais um trabalho esplendoroso, trabalha a desconstrução de uma imagem montada (a timidez, o silêncio e a calmaria) que são despidas pela insanidade que consume o seu Winston. As erupções raivosas e as nuances de maldade que apresenta em seu olhar aprofundam o personagem e o tornam cada vez mais interessante para o espectador, que é obrigado a se questionar ao longo de todo filme. Do outro lado, William Dafoe reafirma porque é um dos atores mais elogiados de sua geração ao viver um personagem pitoresco, que beira o caricato, e funciona de forma iconográfica com a relação com o farol e com os efeitos insanos de tudo o que se vive na ilha.

Dentre todas as escolhas de Robert Eggers em evocar iconografias e mitologias, existe uma abstração quanto à o quê, de fato, o farol representa. Seja uma proposta mais simples de uma construção que ilumina e mostra o caminho correto em meio a imensa escuridão ou em uma possível analogia ao conhecimento que Wake renega à Winston (assim como os deuses do Olimpo fizeram aos homens na história de Prometeu), fica uma sensação forte de deleite com a maestria do diretor em trabalhar os questionamentos e o thriller psicológico que se propõe.

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Robert Pattinson e Willem Dafoe em cena do filme

É justamente a abstração e o desfecho sem esclarecimentos do que verdadeiramente acontece naquela ilha que tornam o filme uma obra tão interessante. Na falta de uma conclusão objetiva, Robert Eggers recompensa o espectador com uma das melhores sensações que se pode ter em uma sala de cinema: a da inquietação. Um sentimento que O Farol se apropria para imergir quem se permitir em uma experiência visceral na sala de cinema.

João Dicker

joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas. é o Editor de Conteúdo da ZINT, um apaixonado por Cinema, Futebol e Gastronomia. trabalha como assessor de imprensa na A Dupla Informação, especializada em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade.

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