Retomada / “O Roubo da Taça”

Retomada / “O Roubo Da Taça”
[tempo de leitura: 4 minutos]

O Roubo da Taça narra uma trama baseada em fatos reais, ou como o próprio filme diz: “uma boa parte que realmente aconteceu”. A produção dirigida por Caíto Ortiz é uma comédia de erros e traz situações absurdamente divertidas e tomadas por saudosismo.

O filme produzido pela Netflix se passa no Rio de Janeiro, logo após a frustrante eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 1982. O imaginário social seguia de ressaca com a conquista de 1970, insistentemente propagada pelo governo militar com o intuito de mascarar os anos de chumbo, quando os sequestros, torturas e homicídios eram frequentes.

Assim, somos apresentados a dois personagens na iminência de um furto: Peralta (Paulo Tiefenthaler) e Borracha (Danilo Grangheia) que pretendem subtrair a taça do tricampeonato, a Jules Rimet. O troféu era dado ao campeão da Copa Mundo, mas era repassado a cada 4 anos para o novo vencedor. O único meio de ter o troféu definitivamente era vencendo a Copa 3 vezes, feito alcançado pela seleção brasileira após o tricampeonato de 1970.

Paralelamente à captura da taça, o filme traz uma narrativa em flashback, remetendo às circunstâncias que os levaram até aquela decisão. Peralta é o bom malandro carioca, casado com Dolores (Taís Araújo), que trabalha de manicure para sustentar a preguiça e as trambicagens do marido.

O beberrão Peralta é o típico vagabundo, do tipo que utiliza da doação de sangue como obstáculo para trabalhar, preferindo métodos não convencionais para ganhar dinheiro, como as “infalíveis” pirâmides ou nas apostas, justificando as dívidas que o fazem recorrer para o crime homônimo ao título do filme.

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O Roubo da Taça aposta em uma direção de fotografia intimista, de modo que a câmera acompanha os personagens, captando a anarquia visual da época. O uso de elementos artísticos, como telefones de discar, máquina de escrever, automóveis antigos etc contribuíram na ambientação oitentista fluminense. Os contextos saturados e os ambientes externos escurecidos nas vielas cariocas contribuem para a estética da ambientação boêmia.

A comédia alude ao gênero cinematográfico nacional mais presente da época: a pornochanchada brasileira. O filme capta as essências visuais coloridas, a construção estereotipada dos arquétipos, mas poupa o público do exploitation de baixo calão e dos excessos vulgares. Como nas melhores pornochanchadas, O Roubo da Taça dribla as chagas do país de forma dissimulada, vencendo a censura com sua falsa displicência. A Verborragia utópica do filme é o que revela a graça em rir de si mesmo, atitude autenticamente reivindicada pelos brasileiros.

 

Após o roubo consumado, o principal conflito do filme é a dificuldade que a dupla criminosa tem de vender a taça. O impasse acaba por fazer sentido, pois afinal, como vender um dos símbolos mais carregados de patriotismo brasileiro? A solução é intuitiva, basta vender para alguém que não nasceu no Brasil, no caso, um argentino. Peralta consegue um bom dinheiro vendendo o troféu ao hermano, valor mais que suficiente para quitar suas dívidas com seu maior credor, Bispo (Hamilton Vaz Pereira), uma espécie de Dom Corleone carioca, que passa o filme todo fazendo constantes ameaças ao picareta, exigindo seu dinheiro. Mesmo com o montante em mãos, Peralta cede ao vício e acaba perdendo o dinheiro com compras supérfluas e em mesas de aposta.

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Com a subtração da Taça Jules Rimet, é natural que houvesse uma preocupação nacional e, por conseguinte, o episódio virasse caso de polícia. O investigador Cortez (Milhem Cortaz) foi escalado como principal responsável pela resolução do caso. Na apresentação do personagem, conhecemos um policial de voz firme e que aparentemente não titubeia quando precisa usar a violência em um interrogatório.

A estrutura narrativa do filme se acelera na parte final, fazendo com que a habilidade escapista de Peralta seja diminuída em detrimento de interações terceiras, como o inusitado envolvimento do argentino com Dolores, revelando a avareza pré construída da personagem, indiciada em momentos em que ela usa da sensualidade para pechinchar verduras ou na escolha da calcinha amarela para o réveillon, com o fim de atrair riquezas – no fim das contas ela realmente atraiu, já que ao se levantar da cama do argentino, Dolores encontra o esconderijo da taça e de milhões de cruzeiros.

Paralelamente, uma aparição pontual de Mr. Catra, como Albino, é construída de modo que ele seria o delator dos criminosos, levando o investigador Cortez e seu parceiro a prenderem Peralta e Borracha.

O Roubo da Taça narra um episódio verídico com sarcasmo e fantasias tragicômicas. O filme enriquece a narrativa com uma estética passadista, fazendo menção a elementos historicamente presentes na memória brasileira, como a extinta Loja Mesbla, as fitas BASK e TDK, ao Bandido da Luz Vermelha, ao tratamento de Paolo Rossi como inimigo etc.

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Recheado de brasilidades, O Roubo da Taça filme sintetiza com elegância uma mácula nacional que é transversal à nossa identidade: o jeitinho brasileiro é mais do que uma infâmia egoísta, mas um impulso pela sobrevivência.

Matheus Moura

matheus moura

Cineasta e amante das brasilidades. Com uma artéria arteira e cheio de opiniões sobre qualquer coisa.

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