A fantasia que respeita a inteligência do fã

A Fantasia Que Respeita A Inteligência Do Fã
[tempo de leitura: 6 minutos]

“The Witcher” agrada antigos fãs dos livros e games, além de conquistar novos entusiastas com um rico universo de fantasia.


OO ano é 2019. Depois de quase 10 anos de sucesso, a série de fantasia de maior sucesso na história da TV acaba de maneira polarizadora, para dizer o mínimo. A missão dos outros canais e estúdios é clara: preencher o vácuo deixado pela enorme presença de Game of Thrones. No caso da Netflix a resposta a esse mandato parece ser uma série de fantasia que puxa tanto de livros quanto de games: The Witcher.

Apesar de muito conveniente, essa narrativa talvez não faça tanto sentido assim. Afinal, a showrunner Lauren Hissrich fez o pitch do seriado para a Netflix no início de 2017, momento em que GoT ainda nem havia lançado sua penúltima temporada.

Essa foi uma das minhas maiores surpresas na coletiva de imprensa de The Witcher que participei na CCXP19, em que pude fazer uma pergunta para Lauren e para Henry Cavill, o ator que vive Geralt, protagonista da série. A minha sensação em geral ao sair do evento é que, acima de tudo, os dois são grandes fãs do mundo de The Witcher, o que me deixou com expectativas altas para o seriado, que estrearia em todo o globo em menos de duas semanas após o evento.

Entre as questões que anotei, havia uma nota dizendo que eu deveria ficar de olho para uma adaptação do primeiro volume da série de Andrzej Sapkowski, O Último Desejo. Em outra nota, que o relacionamento de Geralt com os outros personagens seria, de longe, o ponto mais importante da série.

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Henry Cavill como o witcher Geralt da Rívia

Mas afinal, a série The Witcher conseguiu superar às expectativas de um crítico que passou mais de 150 horas jogando Witcher 3 e que agora tinha certeza que o Henry Cavill é um dos melhores seres humanos da terra? Vamos descobrir.

 

UMA AULA DE ESTRUTURA E RITMO

Pra você que ainda não sabe, The Witcher acompanha a história de Geralt da Rivia, um witcher. Tanto um título quanto uma espécie mágica, esses bruxos são seres humanos que passaram por mutações, sendo, nas palavras de Henry Cavill: “Super soldados sem afiliações políticas, com o único objetivo de caçar os monstros que habitam o continente”. Ao longo de suas aventuras, Geralt conhece figuras enigmáticas e poderosas, como é o caso da feiticeira Yennefer de Vendenberg (Anya Chalotra) e da princesa Cirilla de Cintra (Freya Allan), que parece ter uma ligação ao destino do nosso bruxão.

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A feiticeira Yennefer de Vendenberg, o witcher Geralt e a princesa Cirilla de Cintra, respectivamente

Começando pela direção, The Witcher me chamou atenção inicialmente pelo seu polimento. O universo é construído de forma bastante detalhista, com as tomadas abertas de câmera revelando os diversos e vastos cenários que constituem o mundo apresentado. Temos também um cuidado na revelação dos diversos monstros que ali habitam, com planos detalhe e outros truques retirados diretamente do cinema de terror.

Na ação, observamos coreografias graciosamente brutais, que parecem integrar piruetas e decapitações na mesma frequência. Tudo realizado nos primeiros episódios é feito para demonstrar ao máximo as habilidades de Geralt, de forma que quando surge alguém (ou algo) que lhe causa maiores dificuldades, a tensão é imediatamente elevada.

Aqui tenho apenas duas reclamações: os efeitos visuais e pequenas quebras de lógica interna. No primeiro ponto, a atual resolução de câmeras e monitores não permitem que uma computação gráfica mediana passe despercebida. Isso afeta especialmente a imersão dentro da história, algo importantíssimo em qualquer propriedade que convida o espectador a habitar em um novo mundo. O segundo ponto talvez seja fruto da escolha de um sistema de magia que adota pontos do que chamamos de “soft magic system” ao mesmo tempo que traz regras um pouco mais rígidas.

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Basicamente, um sistema de mágica “soft magic” é um sistema sem tanta preocupação com consistência e níveis de poder, como podemos observar em Senhor dos Anéis – afinal, não conseguimos delimitar exatamente quais são os poderes do Anel de Poder, já que eles variam radicalmente dependendo do portador. Assim sendo, quando a série introduz características rígidas ao seu sistema (mais notoriamente a necessidade de algum sacrifício para que magias sejam utilizadas) e não às segue à risca a todo o tempo, temos uma nova quebra de imersão.

Dito tudo isso, o ponto que mais me impressiona na área da direção se aproxima mais da edição e do roteiro, que é a estrutura narrativa de The Witcher. A obra é conduzida de uma forma verdadeiramente serializada, com uma série de pequenas histórias que são contadas em diferentes pontos de uma mesma linha do tempo, envolvendo os três personagens principais. As histórias de YenneferGeralt e Ciri são ao mesmo tempo independentes e inerentemente ligadas pelo arco narrativo principal, que trata sobre destino e amor.

O que eu mais gostei foi que a série não deixa isso explícito e mastigado para o espectador, que deve deduzir por conta própria que nem todos os eventos retratados na série ocorrem na mesma temporalidade. Essa estrutura pouco convencional deixou a série muito mais engajante aos meus olhos, dando um ritmo retrô ao seriado. Uma pena que todos os episódios foram lançados de uma só vez, pois essa série não é um filme de oito horas, mas sim um clássico conto serializado (assim como O Mandaloriano, por exemplo).

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Acredito que essa tenha sido a melhor maneira de adaptar O Último Desejo, um livro que basicamente é composto por uma série de contos interligados.

 

OS ATORES E O UNIVERSO

Nas atuações, Henry Cavill e Freya Allan merecem um grande destaque. Apesar de não se parecer muito fisicamente com o Geralt que acompanhamos nos jogos de videogame, Henry consegue trazer à tona todos os trejeitos e humor ácido do protagonista de The Witcher.

Geralt é um cara que tenta fazer o bem e se enxerga, nas palavras de Cavill“como um cavaleiro branco, mesmo que sua profissão não permita isso”. Esse conflito interno é perfeitamente retratado por Henry, que caminha muito bem a linha entre inexpressividade e mistério.

Também gostei bastante de Freya Allan no papel de Ciri, na medida que a atriz convincentemente consegue retratar a jornada da personagem, que primeiramente lida com o autodescobrimento e com a busca de um destino. Utilizando muito bem da sua corporalidade, Ciri aos poucos deixa de ser uma garota fugindo de um exército para ser uma poderosa princesa em busca de um objetivo.

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A única atuação que não me convenceu plenamente foi a de Anya Chalotra, que interpreta Yennefer. Não sei se isso advém do fato da atriz me parecer jovem demais para interpretar a Yennefer que conheci em The Witcher 3, mas em geral achei o tom da sua atuação cartunesco em alguns pontos. De qualquer forma, não chega a atrapalhar muito a jornada da personagem, que ainda assim é bastante interessante.

Em geral, os atores se esforçam tremendamente para verdadeiramente habitar o universo apresentado, buscando sempre uma verossimilhança com a lógica interna apresentada.

 

UM PRÓLOGO SOMENTE OU UMA HISTÓRIA COMPLETA?

Curiosamente, a minha grande crítica a The Witcher é que a série acaba. Os oito episódios da primeira temporada não são suficientes para, aos meus olhos, trazer uma história completa. Toda a primeira temporada parece servir como uma espécie de prólogo, um grande set up para aquilo que está por vir. Talvez uma temporada com 10 ou 13 episódios fosse melhor para conseguirmos ter uma história cheia.

Isso é particularmente perceptível pois os arcos dramáticos dos personagens parecem todos se encerrarem na sua primeira grande virada. Ou seja, os protagonistas tiveram sua primeira grande mudança após o incidente incitante da história, mas ainda não tiveram suas novas convicções testadas por nenhum conflito dramático.

Essa existência de cerca de um ato dramático e meio me irritou um pouco, de forma que muito provavelmente a segunda temporada será apenas a conclusão da primeira, que acabará por atuar somente como uma introdução. Isso significa que não gostei da série? Claro que não; minha maior crítica foi que a primeira temporada acabou. Ainda é cedo para determinarmos se The Witcher ocupará um local na cultura pop remotamente similar à Game of Thrones, mas a primeira temporada é um passo na direção correta.

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Geralt e seu cavalo Płotka

Trazendo um vasto universo de fantasia, momentos cômicos, violentos e dramáticos em igual medida, a série deve agradar profundamente aos fãs dos livros que a deram origem e ao mesmo tempo trazer novos fãs até a propriedade. Siga respeitando a inteligência dos fãs, Lauren, que os resultados de The Witcher serão excelentes.

Pedro Sant’anna

pedro sant’anna

Advogado, Empresário e mais importantemente Crítico de Cinema, Pedro Sant'Anna é o mineiro responsável pelo canal Abaixo da Crítica, que hoje conta com mais de 42.000 inscritos no Youtube. Apaixonado por cinema desde sempre, se tornou crítico em 2015, colaborando desde então com grandes figuras da área, como PH Santos e Lucas Maia.

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