Aromas, mistério e assassinato: a fórmula de “O Perfume”

Aromas, Mistério E Assassinato: A Fórmula De “O Perfume”
[tempo de leitura: 3 minutos]

“O Perfume” trabalha bem seus aspetos técnicos, entregando uma série visualmente bela, mas peca profundamente na hora de fazer críticas socioculturais.


Dirigida por Philipp Kadelbach, a série alemã O Perfume se inspira no best-seller de Patrick Süskind, que rendeu a bem-sucedida adaptação cinematográfica Perfume: A História de Um Assassino (2006), com Dustin Hoffman e Alan Rickman.

A trama da produção disponível na Netflix é centrada no violento assassinato da cantora local Katharina Läufer (Siri Nase). Os detetives Nadja Simon (Friederike Becht) e Matthias Köhler (Jürgen Maurer) são encarregados do caso e descobrem uma proximidade da vítima com outros cinco amigos da época do colégio. O grupo tem uma relação especial com os cheiros: eles se dedicam a estudar e criar novos aromas. Ao longo dos seis episódios, conhecemos a trajetória e os segredos de cada um deles, que se tornam, todos,  suspeitos em potencial.

 

Desfile de Misoginia

É perceptível que as três principais personagens femininas da série são significativamente afetadas pelo machismo. A própria vítima, Katharina, sempre foi julgada pela sua vida sexual ativa. Os comentários maldosos partiam, inclusive, de homens que mantinham relações com a cantora. Elena (Natalia Belitski), que integra o grupo principal de amigos, não só sofreu violência sexual na adolescência, como se casou com um dos agressores e continua lidando com uma série de abusos – físicos e psicológicos. A detetive Nadja é praticamente a única mulher da equipe e se depara constantemente com piadinhas e comentários sexistas.

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A discussão sobre esse tema, no entanto, poderia ter sido mais bem aproveitada. Muitas falas e atitudes machistas não são problematizadas e, consequentemente, acabam sendo tratadas com certa naturalidade. Corpos femininos (em sua maioria, padronizados e filmados a partir de ângulos impecáveis) são mostrados com frequência, ao passo que a nudez masculina é praticamente inexistente. A própria construção de Katharina como uma mulher muito atraente que seduz “indefesos homens de família” é problemática. Não conseguimos saber nada sobre a personalidade da personagem, mesmo com sua presença constante em flashbacks. Ela praticamente não tem falas – por outro lado, seu corpo (perfeito) é mostrado incontáveis vezes.

É inegável que a produção alemã apresenta muitas nuances do relacionamento abusivo de Elena, mas a “resolução” que a série apresenta para o caso é extremamente insatisfatória. No final das contas, O Perfume é quase um desfile de comportamentos misóginos, com pouquíssima reflexão e crítica sobre os mesmos.

 

Resolução Surpreendente

Um ponto positivo de O Perfume é, sem dúvidas, a direção de fotografia. Para retratar os momentos presentes, são utilizados filtros esverdeados, que dialogam com os figurinos de tons sóbrios. Quando são mostradas cenas do passado, os cenários apresentam cores mais abertas e um efeito granulado. Junte-se a isso as estonteantes paisagens alemãs e tem-se como resultado uma estética impecável.

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Outro acerto é o diálogo da produção com a obra de Patrick Süskind. Os detetives responsáveis pelo caso descobrem que o grupo de amigos investigados tinha uma relação especial com a história original, centrada no perfumista Jean-Baptiste Grenouille, que assassinava mulheres para “capturar” seus odores, a fim de criar um perfume capaz de incitar desejo. Em uma cena de interrogatório, cada personagem da série narra a sua interpretação do livro de Süskind.

Alguns espectadores descreveram o ritmo da produção alemã como “lento”, mas, em geral, a narrativa consegue envolver e prender a atenção, devido principalmente às reviravoltas presentes nos últimos episódios, que trazem fôlego para a narrativa. No decorrer da temporada, não há praticamente nenhuma pista em relação à identidade do assassino, o que nos leva, consequentemente, à uma resolução surpreende.

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Ao final, O Perfume definitivamente se mostra como uma produção incômoda, seja pela violência explícita ou pelas ações problemáticas e pouco problematizadas das suas personagens. No entanto, cumpre seu papel como uma série policial densa, complexa e repleta de surpresas.


Carolina Cassese

carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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