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O Método KonMari

O método KonMari

“Ordem na Casa com Marie Kondo” desperda em seus participantes e telespectadores a necessidade em manter um espaço bem organizado – e uma alma alegra.


Quem nunca prometeu ser mais organizado como resolução de ano novo que atire a primeira pedra! Com a nova série da NetflixOrdem na Casa com Marie Kondo, que estreou dia 1º de janeiro no serviço de streaming, talvez você se inspire a arrumar sua casa. A japonesa de 30 anos, que sabe apenas um pouco de inglês e adora uma bagunça, é uma “guru da arrumação”, tendo publicado o livro A Mágica da Arrumação, com mais de duas milhões de cópias vendidas no mundo todo. Assim, a série retrata Marie Kondo ajudando casais ou famílias a organizarem não só suas casas, mas seus respectivos estilos de vida.

Considerada uma das 100 Pessoas Mais Influentes do Mundo, segundo a revista norte-americana TimeMarie desenvolveu um novo método de organização, separando as etapas por categorias, e não cômodos. Com suas dicas de dobras roupas, usar caixas e desapegar de objetos, ela auxilia, ao longo de oito episódios, diversas famílias a se organizarem através do “método KonMari“.

Um dos diferenciais de Kondo é sua relação com a casa e com os objetivos. Todos sabemos que manter a casa organizada é um objetivo e desejo de muitos, mas, ao fazermos essa tarefa, não pensamos em como criamos laços com nossos pertences e com nosso lar. Marie ensina algo interessante para seus alunos durante o show: o “sentir a alegria”, ou em inglês “Spark Joy”. Durante o processo de desapego precisamos nos questionar se aquele item é útil e válido para ocupar espaço em nossas vidas (e casa), mas para a especialista em organização, essa escolha precisa ser mais íntima – e podemos interpretar até como energética. Ao escolher o que fica e o que será doado, os moradores são ensinados a pegar os objetos (principalmente as roupas) e sentir se elas trazem alegria.

Ao entrar nas casas, Kondo faz um cumprimento ao lugar, como se conversasse com os cômodos para cooperarem com o objetivo de organização. Como, para algumas pessoas, desapegar de algo acaba acarretando em um processo sentimental ou de culpa, a guru instrui as pessoas a agradecerem as roupas, decorações, papeis e livros pelo seu serviço prestado à eles. Assim, cria um sentimento de positividade e harmonia para as decisões de desapego.

Durante os episódios de Ordem na Casa com Marie Kondo, o método proporciona uma leveza no ambiente, com os moradores percebendo que até as dicas de Kondo, no momento de dobrar e posicionar os itens, se tornar algo maior do que uma simples organização: traz conforto, paz e, como já esperado, alegria. Os residentes aprendem como as casas e o estado de espírito estão ligados e se influenciam diretamente, conseguindo até interferir nas relações. Quanto mais desarrumado o ambiente, mais estresse, mais conflitos, logo, mais discussões. Assim, os participantes contam como suas relações, humor e vida mudam – e para melhor.

Algo prático e simples que a especialista ensina é a posicionar itens de cozinha, roupas, bolsas e até fotos de maneira que, segundo ela, desperte alegria no ambiente. Muitas vezes, Marie diz que, numa gaveta de roupas, o essencial é dobrá-las e deixá-las na vertical, para assim, melhorar a visualização na hora de procurar algo. Separar itens de cozinha a partir da frequência de utilização, colocando os menos usados nas prateleiras mais altas e os mais, nas mais baixas. As bolsas, a guru ensina que deixar uma dentro da outra ocupa menos espaço; e com as alças levantadas, ajuda na percepção de qual está dentro de qual. Além disso, ela ensina a dobrar qualquer tipo de roupa de maneira que ocupe menos espaço, as enrolando.

O método KonMari, como mostrado em Ordem na Casa com Marie Kondo, é dividido em quatro categorias: na hora do processo, as pessoas não buscam um cômodo por vez para pôr em ordem – elas arrumam por objetos. Primeiro, as roupas. E então os livros e os papéis. Em terceiro, o KOMODO (ou itens variados da cozinha, banheiro e garagem). Por fim, os artigos de valor sentimental. Mas o método não se trata apenas de organizar, e sim de perceber o acúmulo, o consumismo e o apego.

No começo da missão de organizar, Marie começa pela categoria roupas e orienta seus alunos a fazer uma pilha de roupas na cama para, assim, as pessoas notem o volume e quantidade de tudo que tem, e se isso é realmente necessário. E isso acontece com vários outros itens. Colocá-los juntos em apenas um espaço faz muitas pessoas se assustarem com a quantidade de roupas, sapatos, decoração e itens de cozinha, que muitas vezes apenas ocupam espaço e não são usados por seus compradores. Durante o descarte, Kondo faz perguntas para ajudar as famílias: “Você vê isso no seu futuro? Isso te desperta alegria?”.

Os oito episódios nos aproxima desde pessoas que possuem problemas em acumular ou comprar muitas coisas, que acabam ficando entulhadas por anos, desde casais novos que procuram um ambiente mais maduro ou organizado após uma recente mudanças. Há, ao decorrer da série, uma sensação estranha de satisfação, ao vermos outras pessoas vivendo num nível de bagunça mais intenso e estressante que o nosso. Por fim, Ordem na Casa com Marie Kondo consegue despertar uma motivação – afinal, se até aquela família que vivia num caos consegue mudar, nós também conseguimos. Assim, é normal, após ver alguns episódios, se encantar com o avanço e sensação boa que um local organizado e limpo agrega, levando-nos a aventura de organizar nossos próprios espaços.

 

Os Livros, as Famílias e a Diversidade

Como uma boa guru da arrumação, Marie Kondo procura evitar, ao máximo, o acúmulo, sendo levado para todos os tipos de itens de uma casa. Contudo, algumas pessoas se viram em meio a críticas e questionamentos, tanto os leitores quanto os telespectadores e os participantes, como os livros se encaixam nesse processo.

Para muitos leitores, o apego e carinho pelos livros, contraposto ao argumento sobre o acúmulo de livros ser algo positivo e não negativo, proporcionou uma visão negativa sobre o “método KonMari“. Marie instruí os participantes a colocarem os livros em uma pilha, toca neles para que eles “acordem”, para ajudar durante a sentir a alegria ao tocarem.

Contudo, algumas pessoas criticam o desapego aos livros, insinuando que não é algo necessário durante o processo de organização e que aglomerar livros é algo muito mais positivo do que se desapegar deles. Uma participante até comenta sobre a dificuldade que teve ao pensar que eles são um trabalho valioso de alguém. Mas Kondo mantém o método e afirma que o acúmulo de livros, revistas ou jornais pode sim causar bagunça.

Uma outra crítica, mais bem fundamentada em Ordem na Casa com Marie Kondo, é o estilo e padrão que a maioria das famílias que aparecem apresentam. Basta assistir alguns episódios para ver apropagação, mesmo que sem intenção, de valores machistas. Muitas vezes, as família auxiliadas por Kondo são formadas por mulheres/mães exaustas física e mentalmente, acumulando tarefas e sendo as únicas responsáveis pela organização do lar.

Porém, o machismo consegue ser ainda mais profundo. Além desse papel de gênero reforçado, as mulheres confessam uma culpa por não serem capazes de manter uma organização e os homens, e toda a família, insinuam que estão num processo para tentar ajudar as mães durante a organização, um conceito muito enraizado em nossa sociedade. Estamos acostumado a tornar responsável pelos trabalhos domésticos apenas as mulheres, enquanto filhos e pais apenas “ajudam” – invés de, por exemplo, assumirem esses papéis.

Tarefas domésticas e a participação na organização da casa deveria ser um dever ou obrigação de cada indivíduo que ali reside. Alguém que “ajuda” o outro está apenas prestando um favor ou um serviço/suporte provisório ou temporário para alguém. Essa interpretação de ajuda e não de dever credibiliza o papel do gênero feminino e, com isso, reverbera percepções e valores machistas. Isso se repete em várias famílias, e por mais que Marie diga que todos os moradores devem cuidar de um cômodo, os participantes e o show ainda continuam a propagar a ideia de ajuda, e não de dever.

Por outro lado, algo tanto positivo quanto negativo é a representatividade que aparece no programa. Em cada episódio, Ordem na Casa com Marie Kondo busca trazer cada vez mais diversidade para as telas, com famílias homossexuais e de outras etnias que residem nos Estados Unidos. Essa insistência em diversificação pode acabar gerando questionamento para a Netflix: será que ela realmente está tentando combater o preconceito, normalizando (com toda razão) essas realidades, ou apenas suprindo um pedido do público em busca de alcançar o maior número de público possível (mas sem se tornar uma aliada)?

Ordem na Casa com Marie Kondo não retrata apenas como devemos nos organizar ou evitar as bagunças particulares com nossos hábitos de desorganização, mas também mostra o processo de descobrir e perceber como e porquê temos hábitos de acúmulo ou de bagunça, além dos sentimentos de apego e até felicidade por alguns objetos. A série consegue inspirar, através do método tanto teórico quanto prático, os telespectadores a se organizarem e entenderem a organização da casa como algo íntimo, particular e trabalhoso mas que, no final, desperta completa alegria.


giovana silvestri

tem 18 anos. escorpiana viciada café e amante de gatos. estuda jornalismo na Unesp e escreve muito desde que se entende por gente. tem um jeito doce mas gosta de boteco e de cerveja de garrafa. escuta mais MPB e pagode do que a voz da razão.

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