A melancolia do amadurecimento desamparado

A Melancolia Do Amadurecimento Desamparado
[tempo de leitura: 4 minutos]

Em um belíssimo exercício de gênero, “Tempo de Caça” trabalha a melancolia de amadurecer em meio a uma sociedade desamparada.


AA maioria dos filmes que trabalham com a temática de distopias futuristas projetam, de alguma forma, as mazelas e questões essências da vida contemporânea como problemáticas para o contexto vindouro. Tempo de Caça, filme sul-coreano resgatado pela Netflix após o Festival de Berlim deste ano, abraça essa proposta das distopias para tratar do desamparo, seja econômico, emocional ou social, como catalisador de um amadurecimento duro e melancólico.

É um exercício de gênero muito inspirado por parte do diretor, que além de evocar traços de ficções científicas futuristas, também se apropria de elementos de filmes de assalto, perseguição, e, até mesmo, slashers. A grande virtude do cineasta Sung-hyun Yoon reside na maneira interessante que articula os elementos desses gêneros em prol de uma jornada de amadurecimento na base do desamparo, que não só leva os jovens à caminhos nebulosos e à uma melancolia forte (tanto para os personagens, quanto para o espectador), mas também expande o desamparo para um comentário social a respeito de sua nação.

A trama acompanha Jun Seok (Lee Jehoon) que, ao retornar de seis meses na prisão, reencontra seus dois melhores amigos Jang Ho (Jae-hong Ahn) e Ki Hoon (Woo-Sik Choi), para passar a viver em uma sociedade coreana em colapso, com o won (moeda local) absurdamente desvalorizado, greves trabalhistas, repressão policial e o crescimento de atividades ilegais. Com a dificuldade financeira, Jun Seok convence seus amigos à assaltarem uma casa de apostas ilegais para juntar dinheiro para fugir em direção ao sonho tropical paradisíaco nas ilhas do Taiwan, um desejo que se torna cada vez mais distante quando Han (Hae-soo Park), um assassino mercenário, passa a persegui-los.

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Existe uma conexão proposta entre a encenação e o emocional dos personagens que é trabalhada com esmero por Sung-hyun Yoon. Toda a parte inicial de Tempo de Caça, até a sequência do assalto à casa de apostas, tem um ritmo dinâmico graças a uma montagem ágil e uma trilha sonora pautada no hip hop, que junto da fotografia com tons neons e cores quentes cria uma ambientação jovial de sonhadores que procuram um escape do contexto mórbido. Por outro lado, o diretor de fotografia Won Geun Lin captura de forma crua e suja o cenário criado em uma Seul abandonada de vida, prosperidade e futuro, assegurando a atmosfera de uma sociedade futurista mergulhada em uma distopia.

Cria-se, então, uma ambiguidade nessa relação de almejar uma chance de nova vida que é dificultada pela dureza do contexto que estão inseridos. O que parece prosperar, então, é o submundo de uma sociedade que sucumbiu e se torna a válvula de escape para esses jovens que buscam se encontrar no mundo e si situar emocionalmente. Nessa jornada de realização e amadurecimento por caminhos tortos, o diretor, que também assina o roteiro, opta por trabalhar o drama no emocional dos personagens e articula com maestria este impacto em sua encenação.

Ainda nos primeiros minutos, quando os amigos partem para o assalto, fica evidente a inquietação e o amadorismo que têm, amplificando o clima de tensão se o roubo dará certo ou não. Na medida em que escapam e aparentam estar seguros, a narrativa caminha organicamente para uma atmosfera de terror, que abraça os tons sombrios na fotografia, as ambientações noturnas, os espaços fechados e locações labirínticas.

Não é à toa que as sequências mais iluminadas de Tempo de Caça são, justamente, quando os jovens passam pela casa dos pais de Ki Hoon e presenciam o afeto e o elo familiar estável que o levam a, posteriormente, voltar para sua família justamente quando tem sinais de que eles estão correndo riscos e vulneráveis, evidenciando a sensação de desamparo mais forte possível para ele: a da perda de sua base emocional, mesmo que distante.

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O mais prazeroso é perceber a sutileza com que o diretor usa de planos abertos lentos que trabalham o vazio e o fora de campo como um potencializador da sensação de desamparo que, agora, não só é sentida pelo contexto social, mas também pelo medo de ser alcançado por Han e do despreparo para enfrenta-lo.

Em certa medida, o cineasta emula situações dos filmes slasher ao trabalhar o assassino como um inescrupuloso e impecável caçador, que sem motivações bem resolvidas soa como a representação do impedimento à empreitada jovem radical, a imposição que a falta de perspectiva de todo o contexto social impõe. É um recado violento e sádico de que sem o amparo das instituições oficiais e a recorrente busca por dinheiro a qualquer custo, o sistema ao qual inseridos cobrará, em algum momento, aqueles que o enfrentam.

Jun Seok se torna o personagem símbolo desse processo e a atuação intensa de Lee Jehoon eleva a variação de sensações de seu personagem, fluindo com naturalidade e peso da alegria pueril jovial, passando pela insegurança do amadorismo, o medo de machucar seus amigos por erros próprios e a raiva reacionária que cresce na medida que sua jornada de sobrevivência se desenrola.

Enquanto acompanhamos a sobrevivência nessa caçada, o medo que tanto evidencia a vulnerabilidade do trio fica ainda mais potente – e em certo sentido, torna ainda mais pungente a temática do desamparo –  devido ao vínculo cada vez mais forte construído pelos protagonistas.

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E se o objetivo inicial era a fuga para o sonho tropical do Taiwan, torna-se claro que o verdadeiro sentido é alcança-lo com a companhia dos amigos e os bons sentimentos da relação, que uma vez ameaçada pela presença de Han cria a forte tensão pela possibilidade dessa perda. Nesse jogo de fuga e enfrentamento, Tempo de Caça se consagra como um excelente exercício de gênero repleto de personalidade, que propõe um olhar sob como o desamparo na sociedade contemporânea leva a um amadurecimento melancólico e doloroso.

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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