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“Isso não vai acabar bem”

[tempo de leitura: 3 minutos]

“Os Mortos Não Morrem” peca pelo roteiro bagunçado com personagens sem personalidades e pelo cinismo com que Jim Jarmusch trabalha os zumbis.


QQuando Os Mortos Não Morrem, novo filme de Jim Jarmusch, foi anunciado, criou-se uma expectativa interessante para com o diretor, conhecido pela sua assinatura hipster e cult. Curiosamente, a repetida frase “Isso não vai acabar bem”, fala de um dos protagonistas do longa, acaba traduzindo toda a experiência de assistir ao filme.

Assistir a qualquer filme com alguma expectativa é sempre problemático, mas no que cabia à Os Mortos Não Morrem era a curiosidade quanto a maneira com que Jarmusch trabalharia sua identidade como cineasta dentro da temática já desgastada dos zumbis. Aqui, o diretor entrega seu projeto mais cínico e autorreferente, mas não com a inteligência ou sutileza corriqueira dos seus excelentes Patterson (2016) e Amantes Eternos (2013).

Este cinismo, assim como todos os problemas do longa, resulta do roteiro fraco, bagunçado e preocupado em propor uma metalinguagem vazia. Repleto de personagens sem personalidade que interagem por meio de falas cadenciadas em diálogos desinteressantes, o enredo é situado na pequena cidade de Centerville, onde acompanhamos algumas figuras marcantes da cidade sobrevivendo a um apocalipse zumbi iniciado após fenômenos estranhos.

Focado principalmente na dinâmica do xerife Cliff Robertson (Bill Murray) e seu assistente Ronnie Peterson (Adam Driver), o roteiro não foca na boa química entre os atores e dispersa a atenção do espectador com um inchaço de personagens. Por mais que alguns deles rendam bons momentos cômicos, como a agente funerária vivida por Tilda Swinton – que funciona muito mais como uma piada interna à própria atriz e suas esquisitices –, Os Mortos Não Morrem não consegue se afirmar como uma comédia, ao passo que também não abraça o terror, natural do gênero dos zumbis.

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Adam Driver, Chloë Sevigny e Bill Murray

A falta de personalidade nos personagens e o pouco interesse em qualquer um deles os torna meros corpos à espera da morte. E se o humor autoconsciente poderia funcionar, seria em cenas engraçadas de mortes estilizadas e irônicas; mas a própria representação dos zumbis como seres cheios de poeira, cinzas e podridão, tira qualquer grafismo estético das possibilidades.

O que Os Mortos Não Morrem tenta fazer é trazer um discurso social, algo consagrado por George A. Romero em Despertar dos Mortos – mas a falta de uma atualização temática na analogia é gritante. O consumismo desenfreado já foi consagrado por Romero e bem utilizado por outros cineastas, e a ideia de trazer os mortos-vivos como seres ignorantes que emulam os comportamentos viciantes que tinham antes de morrer (como a dependência de smartphones e o consumo excessivo de café) é bem-humorada, mas falta a pungência de algo verdadeiramente reflexivo.

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A ironia final de todo este cinismo é que Ronnie estava certo ao anunciar repetidamente que “Isso não vai acabar bem”. De fato, Os Mortos Não Morrem não é dos melhores trabalhos de Jim Jarmusch e o rolar dos créditos vêm com a expectativa de que o filme não faça como os zumbis do enredo e não se levante de sua sepultura.

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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