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Precisamos Falar De / “Songhoy Blues”

[tempo de leitura: 4 minutos]

Disseram que, se tocássemos músicas, cortariam nossas mãos”. Essa é uma declaração de Garba Touré, um dos integrantes da Songhoy Blues, durante uma entrevista ao jornal britânico The Guardian. O texto de hoje é sobre esse grupo que quero falar e espero apresentá-lo a quem ainda não os conhece.

Já era madrugada, o último gole de café já tinha sido dado e eu estava pronto para dormir. No entanto, antes de desligar a TV coloquei rapidamente no canal BIS – precisava me certificar que não teria nenhuma programação que valesse a pena driblar o sono. Felizmente tinha!

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Um grupo masculino fazendo um som poderoso, com solos de guitarra de impressionar qualquer um, rompia de vez o silencio daquela noite e acabava com qualquer possibilidade de eu ir dormir naquele momento. Apesar de não ser o ritmo que mais escuto, a canção era grandiosa e grudava na cabeça de uma forma que era impossível não me lembrar, caso tivesse ouvido antes.

O clipe já estava acabando e finalmente surgiu o nome da banda. Songhoy Blues, com a música Soubour. Para não esquecer, fui até o instagram deles, salvei uma foto na pasta de ‘artistas que preciso ouvir’ e fui me deitar. Eu não podia imaginar que a trajetória daqueles artistas fosse tão marcante e tão intensa.

Em 2012, a situação política de Mali, país localizado ao oeste africano, se agravou. O território que já foi um dos reinos mais importante desse continente e que durante os anos de 1200 e 1600 foi um dos maiores produtores de ouro, sendo responsável por quase metade desse metal no mundo no século XIV, não era mais um local seguro para músicos como os Songhoy Blues.

O guitarrista da banda, Garba Touré, vivia em Timbuktu, região norte do país, quando o Movimento Nacional de Libertação do Azauade (MNLA) dominou aquela área. Embora o grupo separatista provocasse instabilidade em Mali, foi com a chegada dos jihadistas que a Sharia, conjunto de leis da fé islâmica, foi aplicada. A partir daquele momento estava proibido cigarro, álcool e música.

Instrumentos queimados, rádios fechadas e severa punição para qualquer um que desrespeitasse o decreto. Tocar ou, até mesmo, escutar música pelo celular poderia render prisão, chicoteamento público ou coisa pior. Sem segurança em sua terra natal, Garba pegou sua guitarra e saiu em busca de um lugar onde pudesse se expressar livremente.

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Em direção a Bamako, Sul de Mali, o artista deixou para trás família e amigos. Mas o clima na cidade também não era dos melhores. “Facções diferentes do exército lutavam entre si. Havia armas por toda parte. Tudo o que ouviamos eram tiros. Não estávamos acostumados com isso”, comenta Garba, ao The Guardian.

A necessidade de resistir tomou conta do músico, que se uniu a outros artistas vindos do norte. O vocalista Aliou Touré e o também guitarrista Oumar Touré, somaram forças ao movimento. Vale dizer que, apesar do mesmo sobrenome, não existe nenhuma relação de parentesco consanguínea direta entre eles. O baterista Nathanael Dembélé saiu do conservatório local e completou a banda.

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Nasce assim o Songhoy BluesSonghoy em relação a maior etnia da região norte do Mali e Blues ao ritmo predominante da banda. Para quem já foi ameaçado de perder as mãos caso tocasse, pedir autorização ao Ministério do Interior foi um caminho inevitável. É estranho pensar que aqueles talentos do canal BIS quase foram proibidos de viverem plenamente sua arte. Mais estranho ainda é pensar em quantos estão sendo impedidos nesse exato momento.

A banda malinesa começou a fazer shows pela cidade, em circuitos de clubes e restaurantes, atraindo fãs pela região. Foi quando, em setembro de 2013, o grupo Africa Express, conjunto de colaboração musical pelo mundo, chegou à Bamako, chefiado por Damon Albarn, vocalista do grupo inglês Blur. Tomando conhecimento do talento daqueles homens, Songhoy Blues foi escolhida para participar de uma gravação, onde acabaram conhecendo Nick Zinner, guitarrista do Yeah Yeah Yeahs.

Zinner colaborou com a banda na faixa Soubour, que significa “paciência” – a música que me prendeu mais alguns minutos em frente a TV. “Estamos pedindo aos refugiados que tenham paciência“, revala Garba.

Mais tarde, Nick se tornou o produtor do primeiro álbum de estúdio da banda. Lançado em 2015, Music in Exile (Música em Exílio, em tradução livre) mudou completamente a situação daqueles homens e os colocou abrindo shows de artistas pelo mundo, como Alabama Shakes, Gary Clark Jr, Damon Albarn e Julian Casablancas & The Voidz.

O segundo disco da banda chegou em 2017 e também traz um nome tão emblemático quanto o primeiro: Résistance (Resistência). O material conversa bem com a trajetória dos músicos e apresenta parcerias diversas entre si. Caso do roqueiro Iggy Pop e do rapper Elf Kid.

Para quem se interessou pelas questões enfrentadas pelos artistas de Mali, o documentário britânico They Will Have To Kill Us First, de Johanna Schwartz, lançado em 2015, registra a Songhoy Blues e outros artistas que precisam resistir para poder fazer arte. O filme Timbuktu, de 2014, também mostra a perseguição daquela área.

Jader Theóphilo

jader theóphilo

Jornalista e produtor de conteúdo. Escreve, principalmente, sobre assuntos culturais.

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