Na Mise En Scène | A Direção De Arte Em “Moonrise Kingdom”

Na Mise en Scène | A Direção de Arte em “Moonrise Kingdom”

Já estava pensando em como estruturar a introdução do texto, tentando decifrar qual seria o melhor gancho para começar a falar de Direção de Arte, e aí me lembrei que, agora, seremos eu e você, juntxs, duas vezes ao mês! Então, decidi que a melhor forma de começar isso seria me apresentando.

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Sou a Raquel, tenho 24 anos, formada em Comunicação Social pela UFMG e guiei minha graduação pelos caminhos do estudo da imagem. Sempre gostei de Filmes (tem alguém que não?), mas foi a faculdade que me mostrou o lado analítico e sensorial que destrincha o Cinema em muitos fragmentos maravilhosos de serem estudados, me ajudando à partir dos meus 18 anos, começar a consumir cinema de um jeito menos passivo. Eu era uma adolescente fã de rock indie (se tenho orgulho disso, não assumo, nem nego) e apaixonada por qualquer coisa vintage que aparecesse na minha frente.

Assim, foi o cinema do Wes Anderson que me deu a fisgada fatal – eu basicamente transpus a paixão pelo estilo de vida da minha adolescência em algo novo e mais concreto, passível até de ser estudado. Por isso, até como uma espécie de honra ao meu percurso no mundo do audiovisual, que hoje é, inclusive, o campo no qual eu trabalho, decidi falar sobre a Direção de Arte no filme que mudou as escolhas que tomei para minha vida: Moonrise Kingdom (2012).

Antes de tudo, o começo: afinal, o que é direção de arte?

Bom, no cinema americano (que é a fonte da qual eu bebo), Direção de Arte é a tradução oficial de Production Design: consiste, basicamente, na criação e na organização do mundo físico que circunda a história de um filme ou série. Os diretores de arte ou designers de produção são responsáveis por definir uma unidade estética para a obra (ou a falta dela, depende do que quer o diretor), um estilo para cada cenário de acordo com o objetivo da cena, props (que são objetos de cena que atores entram em contato, como o caso do cigarro que a Gwyneth Paltrow fuma no banheiro em Os Excêntricos Tenenbaums, tendo sido cuidadosamente separado para isso), locações, paleta de cores, estilo de figurino, estilo de maquiagem, simbologia e por aí vai. Em Hollywood, essa função começou a ser levada a outro nível depois do trabalho inacreditável de William Cameron Menzies em E o Vento Levou (1939), que garantiu-lhe o Oscar.

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A Direção de Arte é, também, um artifício muito poderoso para ajudar a amarrar e fortalecer a narrativa. Através da semiótica, é possível que a arte faça uso de símbolos e signos para invocar significados no subconsciente de quem assiste, dando essa dimensão interpretativa maravilhosa que o cinema é capaz de despertar. Objetos, cores, harmonia de ambientes, tudo isso é, também, ferramenta para contar uma história. Ok, agora que você já entendeu o princípio básico, vamos ao que importa.

É interessante porque eu lembro de verdade da sensação que me deu quando vi aquela cena inicial de Moonrise Kingdom, com três objetos enquadrados com rigidez, de cores quentes e fortes e aquela câmera esquisitinha. Eu era indie, né?, então me senti totalmente na obrigação de ver aquilo ali. O cinema do Wes Anderson me fez entender o que era cinema autoral muito antes de saber que existia um conceito para definir isso e certamente foi essa estética específica dele que me fez querer estudar um pouco melhor sobre filme e imagem. Mas encerro aqui o parágrafo de fã que perdeu o fio da meada do texto elogiando a obra dele.

Depois do começo: vamos falar do filme!

Moonrise Kingdom se passa nos anos 60 e, basicamente, conta a história de Sam (Jared Gilman) e Suzy (Kara Hayward), dois jovenzinhos apaixonados que fogem juntos e, por isso, começa a rolar uma grande busca por eles na cidade. Tratando a sinopse desta forma, até parece que poderia ser um filme bobo, mas é uma produção que está distante de ser sugerido para o público infantil sendo uma profunda fábula sobre amadurecimento, a identificação na não-identificação e a transição da infância para a vida adulta.

É legal falar de Direção de Arte nesse filme porque ela joga a favor da construção dos personagens e do universo da história desde coisas muito básicas. Tanto Suzy quanto Sam têm figurinos que saem do padrão estético de seus respectivos meios, mesmo que discretamente, para deixar claro como eles se sentem deslocados em relação às pessoas com quem convivem. Os adultos da casa de Suzy, por exemplo, estão sempre trazendo cores cansadas para a cena, enquanto ela desfila tons avermelhados. Já os escoteiros do acampamento de Sam estão todos em uniformes cáqui, menos ele, que é verde. A interpretação que eu tiro disso é que o Sam é quem vai passar pelo processo de amadurecimento: está verde para, então, se tornar maduro – mas isso é só minha interpretação, se for muita viagem, desconsidere.

A fotografia também é aliada nessa narrativa: embora a simetria, para muitos, seja até satisfatória, ela vai contra a Regra dos Terços, que indica que a melhor posição para objetos de destaque é na primeira linha vertical do grid, na quina superior. A escolha de centralizar os elementos é incômoda ao olhar (mesmo que inconscientemente) e isso também constrói um mundo peculiar, mostra um ambiente disfuncional em que a história se passa, fora do convencional – daria pra entrar na questão de que eu acredito que se naturaliza a arte em cena através do caos, mas vou filosofar sobre isso numa outra hora.

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Vamos recortar a figura de Suzy para exemplificar um pouco como o trabalho estético contribui para a construção da narrativa. A personagem trata-se de uma adolescente que equilibra um vestuário totalmente senhoril com elementos jovens (lembrando que estamos na década de 60 aqui). Apesar de se tratar de uma criança e de haver traços evidentes da inocência da personagem (quem foge de casa com uma mala de livros, uma vitrola e uma meia dúzia de coisas inúteis?), existe um contraste muito nítido entre a maturidade de Suzy e dos adultos, que parecem todos meio perdidos, fracassados e sem saber o que fazer. A sensatez e a inocência coexistem na personagem, que deseja ser adulta, mas sem levar a vida medíocre que presencia ao seu redor – ser gente grande sem crescer. Além disso, as cores do figurino de Suzy são na escala do vermelho, a cor do impulso, do ímpeto, da paixão (não só a romântica).

Agora, vamos relembrar uma cena em específico para falar como a simbologia de objetos também colabora para enriquecer a história. Quando Sam e Suzy finalmente encontram um local para se estabelecerem, ele dá para a garota a joia mais “do it yourself ” que já vi na minha vida: um anzol de pesca com um besouro de pingente. Sam pergunta se as orelhas da jovem são furadas e, então, a cena ao ar livre corta para um take dentro de uma barraca, em que Sam fura a orelha de Suzy. Sim, isso é uma metáfora para isso que você está pensando aí. Não poderia deixar de falar da sequência desse momento, em meio à uma dança esquisitíssima, uns beijos bizarros e um diálogo que seria até constrangedor se não fosse muito divertido. Nesse momento, os objetos dispostos na areia são quase personagens – basicamente, são todos os pertences (meio inúteis, meio úteis) do casal. Há uma poesia tão delicada nisso, porque eles estão dançando, se divertindo, descobrindo sensações com pouco mais do que cinco coisas. Precisa de pouco para encontrar felicidade nos momentos, né? Gosto de pensar nisso.

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Não resta dúvidas de que a inocência é um conceito central da história e que o filme gira em torno de personagens que claramente veem o mundo de um jeito peculiar – assim, o projeto de arte é absolutamente impecável, alinhado e conciso. Os tons pastéis que permeiam todas as cenas criam esse distanciamento com o real, dando um ar de fábula para a narrativa. Além disso, toda a cenografia habita na interseção entre o tom melancólico e o cômico. Na casa da família de Suzy, por exemplo, os objetos vintage que compõem o ambiente, embora tenham cores vibrantes que saltam aos olhos, são todos com aspecto envelhecido, quase que descuidados – um sintoma da relação desleixada dos pais da jovem, que já não são companheiros há tempos. O figurino rigorosamente alinhado dos escoteiros e a diferença nítida do personagem de Sam é um indício básico de que não há identificação do personagem com o grupo em que está inserido. Louco, né? Lindo demais.

Escrevi um monte e isso sem nem falar detalhadamente sobre o brilhantismo dos arcos dramáticos, a direção afiada e homeopática de Wes Anderson, a complexidade dos diálogos e das ideias debatidas, além das atuações que tinham tudo para serem caricatas e bizarras, mas são originais e divertidíssimas. Tudo isso me fez entender que Cinema tinha outra dimensão e acabou me jogando em escolhas que me fizeram estar aqui e agora, escrevendo sobre Direção de Arte em minha nova coluna na ZINT. Credo, que chique. Obrigada, Wes Anderson!

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Espero que a gente possa conversar bastante sobre a arte em cena (ou Mise en Scène!) – essa é a minha paixão, meu trabalho e, honestamente, o prazer em ouvir e falar a respeito disso é o mesmo. Por isso, sinta-se abertx para trocar uma ideia, completar minhas análises, questionar minha visão ou só falar sobre a vida mesmo!

Vejo vocês em quinze dias! Tchau!

raquel almeida

sempre atenta aos pequenos detalhes de todas as coisas. mineira, 24 anos, formada em Comunicação e fã de Cinema pop.

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