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Uma história de amor de pessoas normais

[tempo de leitura: 5 minutos]

“Normal People” encanta pela delicadeza e intimidade com que constrói uma tocante história de amor e descoberta do outro e de si próprio.


DDizem que, durante a vida, você terá seu coração partido duas vezes antes de achar o verdadeiro amor. O que esquecem de te contar é que, às vezes, essas desilusões amorosas podem vir de uma mesma pessoa, em momentos diferentes da vida. São consequências de princípios básicos ao se relacionar com outra pessoa romanticamente: interesses em comum, atração, boa conversa, confiança, mas, acima de tudo, o diálogo. Em Normal People, série da Hulu, Connel (Paul Mescal) e Marienne (Daisy Edgar-Jones) vivem de encontros e desencontros, trilhando caminhos ora juntos, ora separados, mas sempre chegando a um mesmo lugar: um relacionamento frágil, carnal e dependente, apresentado para o telespectador de maneira tecnicamente sensível e potente.

Distribuída no Brasil pela plataforma de streaming Starzplay, Normal People traz a história de Connel e Marienne desde o último ano da escola até os anos da faculdade, passando por situações típicas da vida de um jovem adulto que busca encontrar seu lugar no mundo. Primeiro beijo, primeiro relacionamento, toda a preocupação em se adaptar à uma vida diferente da que levava antes de ingressar no ensino superior, como atender às expectativas de sua família, e, acima de tudo, como descobrir sua própria personalidade, em meio a isso tudo.

Sendo ambientada na Irlanda, entre a cidade fictícia de Carricklea e Dublin, a série traz discussões sobre famílias disfuncionais, primeiros amores, decisões que vão durar o resto de suas vidas, como conviver com a depressão e, por trás de tudo isso, uma história de amor, decepções e responsabilidade emocional.

Tudo isso em 12 episódios, construídos com boas atuações, trilha sonora sensível e bem colocada e uma direção e fotografia que colocam o espectador em posição de espectador e explorador, com cenas em que não se sabe exatamente, de primeira, o que o personagem está sentindo. É preciso olhar mais a fundo, e entender uma outra camada dramática presente ali. Muito é dito sem a presença de palavras.

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Normal People, primeiramente, é o livro escrito pela autora e roteirista irlandesa Sally Rooney, com mesma trama e história que foi adaptada de maneira belíssima para a série. A própria autora, inclusive, participou da escrita do roteiro, acompanhada de Alice Birch, dramaturga e roteirista britânica. Juntas, a dupla trouxe para as telas pequenos detalhes que fizeram toda a diferença na narrativa da produção: diálogos inteligentes e ingênuos, olhares e toques que significam mais do que mil palavras, escolhas específicas sobre o figurino dos atores.

Em episódios de até 30 minutos, vemos Connel e Marienne lutarem com seus problemas internos e tendo dificuldades em comunicar o que estão sentindo. Isso acaba refletindo muito no relacionamento amoroso dos dois, em que, ao mesmo tempo, são como almas gêmeas, que conseguem praticamente ler a mente um do outro – mas, por outro lado, em uma cena belíssima e enervante, Connel não consegue pedir, em um momento de dificuldade financeira, para ir morar com Marienne, que, por sua vez, acha que o namorado nunca irá realmente amá-la, pois a mesma acredita não ter nascido uma pessoa amável.

Apesar disso, o casal não consegue avançar além desse grande sentimento de entendimento e amor, e, mesmo tentando se relacionar com outras pessoas, nunca será a mesma coisa. A relação dos dois é como uma tatuagem feita a base de incertezas: para sempre estampada em suas peles, assombrando suas decisões para o resto da vida.

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Abraçados pela direção de Lenny Abrahamson, responsável por O Quarto de Jack, o telespectador pode se ver impossibilitado de tirar os olhos da tela, pois é possível que perca algum momento entre os talentosos atores que deram vida à Connel e Marienne. Paul e Daisy, quando contracenam juntos, criam ali uma terceira personagem, quase nítida o suficiente para ter um nome nos créditos: a química entre os atores é algo realmente impressionante, e é ela quem traz tanta veracidade para a produção.

Assim, entre cenas de nudez e sexo, o ato nos parece tão real e sincero, por conta de todo o peso da falta de diálogo e resolução no relacionamento dos dois, que, por vezes, me peguei chorando. São muitos os sentimentos não ditos, as situações perdoadas, porém sem terem se curado realmente da mágoa, cicatrizes difíceis de ignorar, olhares perdidos e o sentimento de proteção que um tem com o outro.  As cenas são construídas com tanta delicadeza e subtexto que me assustei quando percebi que estava chorando em uma cena de sexo.

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São esses momentos que entregam ao espectador o que os personagens realmente sentem, e, trazendo essa experiência através deles, seja pela química em cena, pela fotografia, ou, impecavelmente, pela trilha sonora, que conta com nomes já conhecidos como Carly Rae Jepsen, Billie Marten e Imogen Heap, Normal People mostra, ao  invés de apenas dizer. São pessoas normais, que vivem amores normais. E, assim como a vida, a série é linda, suave e, ao mesmo tempo, muito dolorosa.

O trabalho de uma Coordenadora de Intimidade

Toda essa química e “naturalidade” foi alcançada, principalmente, com a ajuda de Ita O’Brien, que trabalha em Normal People com o que podemos chamar de “intimacy coordinator”, algo como “Coordenadora de Intimidade”. A profissional, assim como quem coordena e coreografa movimentos específicos para os dublês, tem o objetivo de fazer com que os  atores entreguem cenas íntimas ao mesmo tempo em que se sintam confortáveis no site durante a filmagem das mesmas. A profissional já trabalhou também em outras produções bem conceituadas, como Sex Education (2019), Watchmen (2019) e I May Destroy You (2020).

O’Brien diz, para entrevista concedida ao jornal The Guardian, que (em tradução livre), “assim como um Coordenador de Dublês, eu trabalho para aprimorar a comunicação no set, agilizar a produção, fazer jus à visão do diretor e trazer minhas habilidades de coreografia e dança para o set.” Desse modo, conta O’Brien, em todas as diárias de filmagem ela se encontrava com os atores principais, e conversavam sobre os limites e até onde eles podiam se beijar, por exemplo.

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Em uma das cenas, conta, Daisy tinha que usar uma peruca, então, Paul não poderia passar as mãos pelo seu cabelo. “Pode soar banal, mas esses detalhes são muito importantes porque, na hora das filmagens, o ator ou a atriz não quer ter que se preocupar com isso enquanto filmam uma cena de sexo, eles querem estar o mais relaxado possível”.

EMMY'S 2020
A série recebeu quatro indicações para a cerimônia deste ano dos Emmys, premiação anual em que a Academia de Arte e Ciências Televisivas dos EUA elege as séries, minisséries e filmes feitos para a TV que mais se destacaram. As indicações foram para as categorias em Minissérie ou Filme para a TV: Melhor Ator para Paul Mescal, Melhor Direção para Lenny Abrahamson, Melhor Roteiro pelo terceiro episódio da série, para Sally Rooney e Alice Birch e Melhor Casting para Louise Kiely. A série, no entanto, saiu do evento sem estatuetas.
Gabi Carvalho

gabi carvalho

tem 21 anos, é de libra com ascendente em sagitário e lua em peixes. divide o tempo lendo críticas sobre absolutamente tudo, memes, vlogs de comprinhas e enaltecendo o feminismo. é bem eclética, lê de tudo, ama escrever e não come carne.

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