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O conflito entre game e cinema

[tempo de leitura: 4 minutos]

“Uncharted: Fora do Mapa” falha ao adaptar o carisma do game e na construção de um filme cinematograficamente interessante.


AA relação entre o Cinema e os videogames nutre uma dinâmica muito interessante e pouco fortuita aos estúdios de Hollywood. Por mais que os consoles dos últimos 15 anos tenham gozado de uma qualidade de imagem ímpar e do sucesso de jogos com narrativas cada vez mais cinematográficas, o caminho oposto não tem sido tão prolífico justamente porque Cinema e Games são duas expressões artísticas diametralmente opostas: em uma delas o espectador é passivo, na outra o player tem o controle nas mãos.

Pensando assim, até faz sentido que a maioria das adaptações de games para os cinemas tenham optado por emprestar ora o cânone de franquias, ora os elementos visuais e temáticos que mais se destacam de jogos marcantes e queridos por uma base de fãs. É uma investida que aposta, como ponto de partida, na nostalgia e no reconhecimento dos elementos cinematográfico dos games (especialmente nas cut scenes deslumbrantes e inquietantes) para tentar dar vida a filmes que, por sua vez, não tem nada de gameficado.

Este acaba sendo o caso de Uncharted: Fora do Mapa, adaptação do icônico e adorado jogo da Naughty Dog, que vem ao mundo com Tom Holland e Mark Wahlberg como protagonistas. O curioso desta primeira empreitada do universo do jogo é que Uncharted é uma franquia que obteve reconhecimento nos games e sucesso de publico justamente por uma narrativa que combinava um tema interessante (a caça ao tesouro e o universo arqueológico no melhor estilo Indiana Jones) junto a gráficos exuberantes e cut scenes verdadeiramente dignas de uma animação de cinema.

Por todos estes motivos, o filme de Uncharted sempre foi visto com alta expectativa tanto por executivos da Sony, quanto por fãs da franquia porque a adaptação parecia já mais natural do que em outras tentativas. Uma pena que essa ideia seja destruída com tamanha facilidade por um trabalho – como um todo – que soa no piloto automático.

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A história de Uncharted: Fora do Mapa é original em relação aos jogos e fiel a todo universo temático de arqueologia, tesouros escondidos e assaltos, mas se essa semelhança vai empolgar os entusiastas dos games, o desapontamento com uma questão crucial será ainda maior. O que mais empolga e envolve o jogador na narrativa de qualquer um dos jogos é, sobretudo, o grande protagonista da história: o ladrão carismático Nathan Drake. E, neste sentido, o longa de Uncharted parece ser comandado e atuado por pessoas que nunca nem encostaram em uma manete de videogame.

Chega a ser enfadonha a caracterização dos personagens aqui: o Nate de Tom Holland – em versão mais jovem do que nos games – não empolga porque sua versão é, também, desprovida da malicia e da malemolência que o personagem exala nos jogos; Já o “Sully” de Mark Wahlberg ainda tem um pouco da canastrice da figura conselheira que o carismático Victor Sullivan dos games exala (e vale apontar que a falta do bigode e do charuto também deixam o personagem bem menos interessante).

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Esse desinteresse visual é reforçado em toda a direção de Ruben Fleischer, que pena (e muito) para dar conta de um roteiro pouco inspirado nas dinâmicas de personagens e nas sequências de enigmas expositivas como uma entrevista com um arqueólogo ou historiador. Falta mesmo criatividade e inspiração para transformar Uncharted em um filme de caça ao tesouro minimamente envolvente.

O que também atesta para essa dificuldade na encenação são as sequências de ação. O filme tem duas grandes set pieces que se arrastam com um CGI comum, incapaz de criar cenas cinematográficas tão empolgantes quanto ter um controle nas mãos.

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No meio de toda essa bagunça expositiva em catacumbas secretas e viagens pelo globo, Uncharted: Fora do Mapa vai se apegando a iconografia da franquia dos games como âncora emocional e afetiva do espectador. E, nesse sentido, o longa vai adicionando um easter egg de cada vez, uma pincelada de referencia visual para tentar construir o personagem a partir da memória do espectador (não é atoa que o Nathan Drake de Holland só aparece com o visual “completo” nos últimos minutos da projeção).

Temos, então, o desfecho de uma adaptação que navega perdida entre as qualidades cinematográficas de um jogo e as dificuldades de gameficar uma narrativa cinematográfica. E perdida entre essas duas ideias, Uncharted: Fora do Mapa só consegue ser frustrante.

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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