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A Era Vitoriana de mulheres poderosas 

[tempo de leitura: 4 minutos]

Mesmo fazendo parte do catálogo HBO, “The Nevers” é uma positiva surpresa, em uma série de ficção-científica protagonizada por mulheres.


AA Era Vitoriana foi um período no Reino Unido que compreende os anos de reinado da Rainha Vitória I, de junho de 1837 até janeiro de 1901, quando a monarca faleceu. A sociedade vitoriana se comportava, em poucas palavras, de maneira ambígua. Enquanto o período foi marcado por muito puritanismo, moralismo e condutas sociais rígidas, também foi a época em que os bordéis se alastraram por Londres. 

A prostituição era comum, e compunha até mesmo os hábitos da realeza. Nesse contexto, também aconteciam muitos jogos de apostas, uso de drogas (principalmente o ópio), orgias e espetáculos eróticos. O sexo saiu da finalidade de reprodução e foi a um lugar de prazer, ainda que velado, o que ocasionou o desenvolvimento do primeiro preservativo em látex.

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Cena de “The Nevers”

Nessa situação, as mulheres vitorianas tinham dois lados. Ou eram submissas e se dedicavam ao lar e ter filhos, ou estavam na indústria do sexo, seja como prostitutas ou donas de bordéis. Não havia muito espaço para outros trabalhos e performances sociais femininas, e qualquer reclamação vinda das mulheres era vista como um distúrbio de ansiedade. Alguns movimentos e questionamentos feministas surgiram na época, em prol de ter voz na sociedade e direito ao voto, mas as ativistas eram tidas como criminosas, e o sufrágio feminino só ocorreu em 1918. Pois é, sabemos que nunca foi fácil ser mulher.

 

Os Tocados

A aula de história termina por aqui e podemos começar com The Nevers, nova série da HBO, que atravessa esses papéis femininos e coloca as personagens num lugar completamente novo. A trama se baseia num inexplicável surgimento de poderes em várias pessoas, sobretudo mulheres. A sociedade, obviamente, demonstra muito medo, e essas pessoas são perseguidas, presas, mortas, tidas como demoníacas ou objetos de estudos da psicanálise — para contextualizar melhor, Sigmund Freud já atuava nessa época e a área da psicanálise já existia e era debatida.

Essas pessoas, chamadas de Tocados, refugiam-se numa espécie de casa-vila, intitulada de Orfanato. À frente do grupo estão Amalia True (Laura Donnelly), que possui a habilidade de ver flashes de cenas futuras, e Penance Adair (Ann Skelly), com um curioso poder de enxergar as invisíveis ondas de eletricidade e, assim, construir suas invenções mirabolantes. A dupla é responsável por procurar novos Tocados e assegurar a proteção e direitos dessa nova espécie.

Algo relativamente irônico é que esses poderes não se assemelham às ideias de habilidades especiais que construímos no imaginário coletivo, principalmente pela indústria de super heróis; e nem sempre são aptidões benéficas aos Tocados. Enquanto Bonfire Annie (Rochelle Neil) é capaz de criar e lançar bolas de fogo com as mãos, e Horatio Cousens (Zackary Momoh) é um médico com poderes de cura, por exemplo, Lucy Best (Elizabeth Berrington) quebra tudo o que toca, Myrtle Haplisch (Viola Prettejohn) entende qualquer língua mas não é capaz de controlar os idiomas enquanto fala, e Primrose Chattoway (Anna Devlin) tem três metros de altura.

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Amalia True, chefe do Orfanato

Os esforços de Amalia para que os Tocados sejam bem vistos pela sociedade vão por água abaixo quando Maladie (Amy Manson), uma Tocada extremamente instável e poderosa, inicia uma matança em série. O aparecimento da psicopata é uma chave que revela um passado complicado de Amalia, com fatos que ela tenta fortemente esquecer.

CRIADO E DIRIGIDO POR
The Nevers é o resultado dos trabalhos de criação, direção, produção e roteirização de Joss Whedon, que também é o responsável pelas séries Buffy, a Caçadora de Vampiros (1997-2003) e Agents of S.H.I.E.L.D. (2013-2020), além de ter roteirizado e dirigido Os Vingadores (2012) e Vingadores: Era de Ultron (2015), e co-escrito Toy Story (1995). Porém, com as recentes denúncias que o acusam de criar um ambiente de trabalho abusivo, Joss foi afastado da produção, que segue sem sua participação ou interferência.

 

Desconfie De Todos

The Nevers é aquele seriado que cada episódio traz uma grande reviravolta e não é possível confiar em ninguém. Cada personagem esconde uma série de segredos e atividades paralelas que podem ser cruciais ou letais para a sobrevivência dos Tocados. 

Um dos aspectos que mais me chama a atenção é o contraste das vestimentas femininas, com espartilhos e vestidos de várias camadas, e as habilidades de luta das protagonistas. Não é o tipo de visual que se espera de uma mulher enquanto combate contra seus inimigos armados. 

Além de um roteiro inovador e cheio de situações inesperadas, a produção também dá um show no quesito de personagens. Mesmo que não haja tanto espaço para mostrar suas respectivas histórias, as cenas, falas e reações são capazes de caracterizar e fornecer um bom arquétipo para os protagonistas, dando a sensação que os conhecemos bem mesmo com poucos episódios. É um bom programa para maratonar, principalmente porque o final de cada episódio deixa a sensação de “menina, o que aconteceu aqui?” e uma vontade imensa de assistir logo o próximo para saber o que virá a seguir.

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Geralmente não sou uma grande fã de ficção científica, mas a trama vinculada à Era Vitoriana e com mulheres poderosas me chamou a atenção. Ainda que as séries da HBO tendem a ser muito boas, fiquei positivamente surpresa com essa e não esperava gostar tanto. A primeira temporada foi dividida em duas partes, cada uma com seis episódios. A primeira metade já foi disponibilizada na plataforma de streaming, e a segunda ainda não tem data anunciada.

deborah almeida

mineira, jornalista e feminista. viciada em filmes adolescentes e de terror, amante de seriados e enaltecedora das divas pop. tanto 8 quanto 80, apaixonada por palavras, colecionadora de cartão postal e louca dos tsurus de origami.

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