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“Savage X Fenty Show Vol. 2”: A selvageria na perspectiva da moda

[tempo de leitura: 5 minutos]

Corpos diferentes, artistas de múltiplas nacionalidades e o olhar profundo sobre a moda tornam “Savage X Fenty Show” mais que um desfile.


LLuz, câmera, confiança, entrega, versatilidade, ação! Assim poderia ser o comando de início do Savage X Fenty Show Vol. 2, o segundo desfile da Savage X Fenty, marca de lingerie da artista e, podemos dizer, empreendedora Rihanna. Mas o evento certamente vai além.

Liberado na íntegra pelo serviço de streaming da Prime Video, a apresentação desafia os padrões de beleza, como na primeira edição realizada há um ano, mas também testa as nossas sensações – estas que guiam a experiência ao longo do especial.

A cada movimento ou cenário que se faz presente percebemos como todos os elementos fazem sentido e contribuem para enriquecer a apresentação, além de nos lembrar da grandeza e relevância de Rihanna e sua equipe.

 

SAVAGE X FENTY SHOW VOL. 2

Savage (“Selvagem”, em português) faz parte do nome da marca de Rihanna, mas também norteia a postura das modelos, dançarinas e dançarinos que contribuem para embalar o que, em outros contextos, seria apenas uma sucessão de passos em linha reta até encarar a plateia.

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Bella Hadid ao centro, cercada pelas modelos do Show

Certa liberdade de expressão corporal norteia os movimentos à medida que estes se colocam no espaço e transmitem a vontade de se manifestar, por quem muitas vezes não teve oportunidade ou não foram realmente compreendidos a partir das habilidades técnicas e emocionais.

Somos surpreendidos a todo o momento por corpos de diferentes medidas, origens e etnias que se misturam no palco e fazem das roupas (íntimas) um detalhe importante mas não o ponto principal. A construção do Savage X Fenty Show Vol. 2 ultrapassa o conceito de desfile apenas e entrega um espetáculo de autenticidade em que segurança e identificação dialogam entre os sujeitos e com o público do outro lado das telas.

Rihanna resgata a potência da memória quando volta a sua infância e adolescência, a época da escrita em diários lembrada por ela e vários convidados como o registro de vivências passadas, sujeitas a orgulho ou não, mas que ajudam a entender o presente e onde chegamos. Esse esforço mostra como ela incorpora sua experiência e da equipe, por exemplo, com diferentes culturas e países na marca, desde o contato manual com os tecidos que encontra até a escolha das cores.

Os corpos assim servem como ferramentas de ligação do público com a pluralidade de práticas que os profissionais envolvidos no Savage X Fenty Show Vol. 2, incluindo a cantora, foram agregando e querem transmitir. A relação forte de pessoas trans com a maquiagem e o poder das roupas em fortalecer identidades, por exemplo, assumem destaque e evidenciam a moda para além do vestir apenas.

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ROSALÍA durante sua apresentação

“Elas são sensuais e precisam saber disso e precisam ser validadas quanto a isso, não importa seu tamanho”, disse Rihanna ao E! News. “Estou tão focada nisso e em fazer com que todas as mulheres se sintam convidadas, bem-vindas. Savage é um lar, um centro e um espaço seguro para todos”.

 

INTEGRAÇÃO

Artistas reconhecidos de diferentes regiões, imersos em modos diferentes de viver e se relacionar com o corpo somam-se aos dançarinos e modelos envolvidos para fortalecer a mensagem do espetacular Savage X Fenty Show Vol. 2. Personalidades como Lizzo, Paris Hilton, Willow Smith, Demi Moore e Bella Hadid, além de shows de ROSALÍA, Bad Bunny, Miguel e Travis Scott, reforçam o espetáculo e comprovam que reconhecimento vai além da fama.

Também, questões importantes como inspiração, sexualidade, comunidade marcam o ritmo do especial e exploram como essas questões se fazem presentes na proposta da marca e, consequentemente, na iniciativa do desfile.

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Miguel durante sua apresentação

Podemos perceber como o espelho está presente em alguns momentos da exibição, compondo uma metáfora sólida da beleza frágil e superficial da indústria. Lizzo protagoniza um desses trechos ao encarar com naturalidade um espelho que a deforma e não mostra suas verdadeiras formas e curvas; isto é, a mulher preta e gorda, distante do ideal de sensualidade dos desfiles em geral. Enquanto isso, do outro lado uma modelo e dançarina branca e magra também passa pelo mesmo desafio mas as duas não se intimidam com a resposta visual de sua imagem “desfigurada” e provam que a real beleza está em nós mesmos.

Nesse sentido, a verdadeira beleza é estar confortável consigo mesmo e saber apostar nos nossos pontos fortes, seja para impressionar, afirmar nossas crenças ou nos unir. Essa é uma clareza ao final do Savage X Fenty Show Vol. 2 quando Rihanna, em uma espécie de fábrica de roupas colocada como cenário da última apresentação, se junta a todos os dançarinos e modelos envolvidos em sinal de orgulho e dever cumprido. Todos estão à vontade com seus corpos e distantes de qualquer possível aceitação vinda de outros, aliás, com tanta riqueza esta não teve espaço.

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Paris Hilton, como uma das celebridades-modelo convidadas

Além disso, vemos como a inclusão é um ponto de partida nas escolhas da marca e não apenas um aspecto mercadológico explorado atualmente em que essas discussões vem ganhando força e atraindo consumidores. Rihanna deixa claro em um dos depoimentos ao longo do material que, para ela, incluir não é uma opção, mas sim coerência com a diversidade de perfis de pessoas que temos e devemos atingir.

“Não acreditamos em divisão. Não queremos excluir ninguém. Essa tem sido nossa mensagem desde o primeiro dia e não vai mudar agora porque todos estão tendo essa percepção”.

RIHANNA PARA A VOGUE.

A celebração da coleção da Savage X Fenty revela que a estética importa mas pode nos limitar quando não olhamos abertamente para a moda. O desfile aponta para a capacidade desta em nos juntar, assumir personalidades múltiplas ou afirmar nossas potencialidades.

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A “fábrica”, sequência final do desfile

Para nós, fica o triunfo da diversidade reconhecida nos 56 minutos do especial, mesmo que fora dele, seja nas passarelas ou nas ruas, os desafios ainda sejam muitos. O Savage X Fenty Show Vol. 2 é também uma abertura de reflexão e me lembra um depoimento recente que vi no The Voice Kids brasileiro: “A gente nunca perde, ou a gente ganha, ou a gente aprende”.

Mike Faria

mike faria

Conectado com a potência das narrativas e a sensibilidade social encontrou no Jornalismo o melhor lugar para se expressar, junto a prática de natação nas horas vagas e as distopias para lidar com a realidade.

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