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Realidade ou fantasia?

[tempo de leitura: 5 minutos]

Para a temporada final, “Pose” parece deixar tudo para trás e focar em uma temporada sobre “aquilo que poderia ser”.


Nota do Colab: o texto contém spoilers.

 

NNessa altura do campeonato, Pose já se consagrou como uma das maiores séries sobre vivências LGBTQIAP+ da história da televisão mundial. Em sua breve jornada de três temporadas, a produção da casa criativa de Ryan Murphy se inspira no documentário Paris Is Burning para tecer uma narrativa biográfica da comunidade nova-iorquina de Ballroom dos anos 1980.

O que faz de Pose tão único é, na verdade, a mistura de muitas coisas. Histórias reais, um cuidado narrativo, personagens carismático e um elenco principal formado por talentosas pessoas trans fazem com que o seriado tenha não só uma base de fãs de nível global, mas também prêmios acadêmicos — como como o Emmy de Melhor Ator Dramático para Billy Porter, Melhor Série Dramática no GLAAD Media Awards e nomeações nas mais consagradas premiações de roteiro, produção e atores.

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Da esquerda pra direita, Ricky (Dyllon Burnside), Lulu (Hailie Sahar), Blanca (Mj Rodriguez), Angel (Indya Moore), Papi (Angel Bismark Curiel)

Com um legado tão sólido em tão pouco tempo, a notícia que a terceira temporada seria a última foi recebida de forma agridoce pelo público. A ansiedade por um novo ano de Pose era grande, mas saber que seria a última vez que veríamos a Casa Evangelista ganhar prêmios nos Bailes foi um baque. Mas assistir à nova leva de episódios se tornou um choque maior ainda.

 

Onde Eu Estou?

Existe um gigantesco abismo entre as duas primeiras temporadas de Pose e o seu fechar de cortinas. O terceiro ano da série parece ter se adaptado às novas produções de Ryan Murphy e feito uma espécie de antalogia, entregando ao público uma narrativa que muito difere daquela vista até o momento.

O seriado é conhecido, como dito no começo deste texto, por usar da ficção dramática para criar um quadro biográfico do que foi a cultura de Ballroom que encontrou o seu ápice nos anos 1980. Por vezes cruel e trágico, por vezes belo e emocional, víamos em tela apenas uma fatia de tudo aquilo que dezenas de pessoas LGBTQIAP+ viveram naquele período, que logo viria a ser chacoalhado pelo surgimento do vírus AIDS/HIV e o surto da doença entre a comunidade.

É então que nos deparamos com o terceiro ano, que passa a adotar não só um tom mais leve da realidade, mas também muito mais focado em uma fantasia. Não que algumas coisas ali não poderiam ter sido reais, mas devido todas as circunstâncias é difícil de imaginar que, bem, qualquer coisa ali foi real de fato.

Primeiro temos o arco que envolve Blanca (Mj Rodriguez) e Pray Tell (Billy Porter). A primeira, que termina a segunda temporada em cadeira de rodas devido o avanço de sua soropositividade, aparece cheia de saúde na estreia do 3×01 de Pose, servindo como uma espécie de enfermeira temporária e em um sólido relacionamento. Também, os roteiristas parecem ter esquecido completamente que a segunda temporada terminou com Blanca conhecendo dois adolescentes em situação de rua, sugerindo que ambos seriam adotados pela Mãe da Casa Evangelista.

A narrativa dos dois personagens se entrelaça quando Pray Tell descobre ter um câncer causado pelo seu status positivo. É então que Pose, que nesse momento se passa em 1994, surge com um milagroso coquetel que não apenas salva a vida deles, mas também faz ambos recobrarem completamente as funções de seu corpo. Se antes o personagem de Porter havia ficado cego em decorrência das complicações do HIV, agora ele volta a enxergar e a não demonstrar nenhum outro sintoma — mesmo que, há apenas um episódio, ele estivesse a beira da morte.

E a crítica vem a partir de uma realidade em que os coquetéis ficaram melhores apenas em uma década recente, o que torna difícil de acreditar que, na primeira metade dos anos 90, 10 anos após o primeiro caso de HIV, tal droga já estava disponível (mesmo que em um estudo clínico). Sem contar que a década de 1990 representa o auge dos movimentos sociais pró-LGBTQIAP+, que justamente imploravam para que os políticos e os sistemas de saúdes de todo o mundo não ignorassem o vírus e investissem em pesquisas e remédios.

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Billy Porter como Pray Tell

A fantasia engrossa em vários outros momentos do programa, como o cargo de alto escalão de Papi (Angel Bismark Curiel) em uma conceituada agência de modelos (um homem latino sem estudos), o luxuoso apartamento estilo Quinta Avenida de Papi e Angel (Indya Moore), e até mesmo a relação que Elektra (Dominique Jackson) passa a ter com a máfia italiana (em um determinado momento, os roteiristas até insinuam que a máfia está trabalhando para Elektra), que faz dela uma mulher riquíssima.

Não podemos esquecer também de quando Angel e Papi se casam, e o local escolhido para o evento é nada menos que o salão de festa do luxuoso Waldorf-Astoria Hotel. O que torna a cena um tanto improvável é o fato de, mais uma vez, Pose se passar no ápice dos movimentos sociais, quando a comunidade Queers estava sob a ótica de promiscuidade/aberração e que o HIV era a “doença dos gays”. Então é difícil imaginar tal ambiente simplesmente se curvando ao dinheiro de uma mulher trans negra, assim como não vermos nenhum tipo de represálias dos movimentos conservadores da época ou até mesmo da mídia — considerando que estamos falando da reunião de centenas de pessoas periféricas e marginalizadas em um lugar que é o lar da aristocracia nova-iorquina.

 

Soma Final

Por outro lado, é interessante analisar todas essas críticas por um outro olhar. É compreensível a decisão que foi tomada para este último ano, a tentativa de trazer uma jornada feliz para todos os personagens. E há um valor de importância nisso. Para uma comunidade que cresceu de forma marginalizada e com um certo “prazo de validade”, ver pessoas Queers triunfando dessa forma é acalentador e inspirador. E se somarmos isso a toda a situação em que o mundo real se encontra (é você mesmo, Corona), tudo faz mais sentido — mesmo que, no final, a última temporada seja muito diferente da narrativa construída até agora.

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Angel, Elektra (Dominique Jackson), Lulu e Blanca, respectivamente

É inegável o poder de Pose e a força que suas histórias, produção e atores são capazes de trazer para a tela (além das reviravoltas emocionais dessa despedida), mas também fica difícil não terminar essa última temporada sem sentir que você perdeu alguma coisa no caminho. Reconheço que seria muito bom se tal realidade realmente fosse possível para pessoas trans negras latinas em plenos anos 90, mas infelizmente sabemos que ainda vivendo em um mundo em que, por exemplo, empresas se recusam a ter qualquer tipo de envolvimento com o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mudar da água pro vinho logo na conclusão não fez Pose terminar sua jornada de uma forma tão positiva quanto poderia. Dessa vez, não serão 10’s across the board. E isso é o que mais dói.

vics

É de 1995, virginiano, gay que atende por qualquer pronome e formado em Jornalismo com pós em Comunicação e Marketing. Criou a ZINT em 2017 — desde então, colabora com matérias sempre que tem uma boa pauta e cuida do visual do Colaborativo.

No primeiro semestre de 2021, assistiu 41 Filmes e 63 Séries. Não leu nenhum Livro, mas desde que começou a quarentena já catalogou 500 álbuns reproduzidos (e contando!) enquanto dubla pelo seu legado. ✨

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