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O Pistoleiro Solitário e A Criança

[tempo de leitura: 7 minutos]

A 2ª temporada de “O Mandaloriano” expande o universo de Star Wars agora em um trabalho ainda mais consistente e interessante.


SSempre que pensava em O Mandaloriano ao longo do último ano, lembrei, claro, d’A Criança (que chamo carinhosamente de Yodinha), mas também era recorrente a sensação agradável de que a magia do universo de Star Wars havia recebido um tratamento definitivamente especial e atemporal em sua primeira experiência live-action para televisão.

Durante o período de abstinência de novas aventuras-da-semana d’A Criança e do pistoleiro solitário, pude refletir um pouco melhor sobre o impacto recente de Star Wars. O que essa franquia tão importante, ao ponto de ser considerada uma grande mitologia moderna, tem a dizer sobre o mundo em que vivemos hoje?

As respostas, por sua vez, são tão subjetivas quanto a percepção que cada fã tem dessas histórias. Claro que há, sempre, pontos em comum. Mas, as grandes mitologias, no final das contas, sempre permitem variadas interpretações. Tenho aqui, então, a feliz oportunidade de fazer meu relato e fornecer uma impressão particular. Um relato sincero, de fã, mas também de jornalista aficionado por cultura e, não menos importante, por pessoas. Afinal, é para pessoas que as histórias são contadas.

 

Impacto Inconográfico

Desde 1977, quando o primeiro Star Wars veio ao mundo, sempre houve uma grande percepção de que, metaforicamente falando, abriu-se uma rachadura em nossa dimensão. Possibilitando, então, que pudéssemos nos transportar para outros universos em que o impossível era apenas uma questão de ótica. O cinema, originalmente concebido como magia e ilusão, estava mais do que nunca, cumprindo tal função.

Algo que já era comum para fãs de histórias em quadrinhos, narrativas fantásticas e seriados de aventura que vieram anteriormente. No entanto, nada mudou tanto a forma como consumimos cultura pop no formato audiovisual como o primeiro Star Wars. Caracterizando, assim, um momento divisor de águas na indústria do cinema e na cultura pop. Além de oferecer conforto e escapismo para amenizar a frequente dureza da realidade.

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“Mando” e “Yodinha”, os apelidos dos protagonistas da série

Seu legado está presente não só nas iterações cinematográficas da própria franquia, mas também em tecnologias que definiram e moldaram o cinema e a televisão nas décadas subsequentes. Sendo assim, é possível afirmar, que a forte contribuição iconográfica desta franquia ajudou – e ainda ajuda – a espalhar o amor pelo cinema e pela literatura. Há muito dos clássicos que ajudam a definir um pouco os filmes de George Lucas. Akira Kurosawa, Stanley Kubrick, Flash Gordon, Duna, o cinema do expressionismo alemão, Hamlet, O Herói de Mil Faces e as mitologias tradicionais… são alguns exemplos para sumarizar.

E é neste tom de reflexão e reconhecimento que começo a falar sobre O Mandaloriano. A série parece reconhecer justamente isso que narrei acima. Já na primeira temporada, foi possível observar como Jon Favreau e Dave Filoni, os showrunners, beberam das mesmas fontes que George Lucas para confeccionar uma história que fizesse justiça temática e tonal aos adorados filmes. Ainda assim, há uma relevante intenção de manter cada coisa em seu lugar. E é desses anseios que vem a originalidade familiar de “Mando”.

 

Mando: Ano 1

Se pensarmos na trilha sonora de O Mandaloriano, por exemplo, percebemos que apesar de destoar bem das melodias clássicas de John Williams em vários momentos, a atmosfera que o virtuoso Ludwig Goransson cria evoca sensações muito precisas dentro da narrativa. Saber trabalhar o que sentimos musicalmente é uma característica que unifica bem ambas as trilhas dentro do glossário musical de Star Wars.

E é a partir de aspectos como esse que a série original do Disney+ demonstra que Star Wars pode e deve caminhar com propriedade e autonomia. Falo isso pois, após o suposto fim da Saga dos Skywalker, há uma sensação ampla de “o que vem agora?” enquanto ficamos temporariamente órfãos de novos filmes da franquia.

Afinal, o que O Mandaloriano tem a dizer sobre o mundo em que vivemos hoje? Essa pergunta não só é importante, como também necessária. Os filmes de Star Wars têm um potencial muito intrínseco de dialogar com a nossa realidade.

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Hoje, por exemplo, observo paralelos entre Império e Rebelião quando falam sobre a forte onda de extremismo de direita que assola o mundo e a ampla reação de pessoas progressistas comprometidas com justiça social e igualdade. Algo que faz todo sentido, já que a luta da Aliança Rebelde sempre teve um viés democrático e progressista fazendo frente ao fascismo do Império Galáctico. Mas claro, tudo vai depender da ótima e da interpretação.

 

Mando: Ano 2

Na segunda temporada de O Mandaloriano continuamos a acompanhar um cenário em que, mesmo após a vitória da Aliança Rebelde e o surgimento de uma Nova República, alguns planetas mais remotos se transformam em verdadeiras “terras de ninguém”. E são em cenários como Mos Pelgo/Freetown, em Tatooine, que o Xerife Cobb Vanth (Timothy Olyphant) tenta oferecer novas oportunidades para pessoas que seguimos com a história do “Mando” Din Djarin (Pedro Pascal) e A Criança na jornada para encontrar os seus relativos, sejam eles o Jedi ou a própria espécie – ainda misteriosa – do Yodinha.

Nessas “terras de ninguém” nota-se, portanto, como a mensagem de sobre família, amigos, conciliação e união se faz presente. Afinal, para algumas pessoas, a vitória da rebelião significou apenas um problema a menos.

É fundamental que, apesar da grande popularidade do Bebê Yoda, O Mandaloriano ainda encontre espaço para desenvolver sua personagem principal com eficiência. A melhor pista de Din em sua missão envolve encontrar demais mandalorianos. E ao encontrá-los, isso o faz questionar seus credos e repensar a forma como ele, como mandaloriano, se porta. Isso tem um impacto direto nos episódios, pois quando ele não está se questionando, é questionado por outros personagens a respeito do código de seu clã. Tal dinâmica tende a trazer novas perspectivas e motivações para o personagem ao longo de cada novo capítulo.

Essa busca é, também, uma boa oportunidade de expandir a história e contar mais sobre esse clã tão misterioso que é o dos mandalorianos. Há também referências orgânicas às tradições de Star Wars e a potencial aparição e envolvimento de personagens que se consagraram em outras histórias, como Ahsoka Tano. A (padawan) aprendiz de Anakin Skywalker durante as Guerras Clônicas teve sua história contada nas séries animadas Clone Wars (2008-2020) e Rebels (2014-2018).

Em duas ocasiões, vemos lugares antes abandonados e corruptos e que se transformaram em novas possibilidades de futuro para indivíduos desamparados numa galáxia que apenas acabava de sair de anos de guerra civil. Dessa vez, a Nova República está presente na figura do honrado piloto Carson Teva (Paul Sun-Hyung Lee) que demonstra o interesse em amparar tais regiões e também em reconhecer os tempos difíceis vividos na galáxia.

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Gosto de observar que ambos os lugares que oferecem tais perspectivas, têm escolas como ponto importante. Uma excelente maneira sublinhar o papel crucial que o ensino tem em contextos de retomada. Na primeira ocasião, em Tatooine, defender a escola é o argumento que faz civis se unirem ao Povo da Areia para enfrentar o Dragão Krayt. E, ainda que a cena na escola, em Nevarro, sirva mais com o propósito de alívio cômico, é a segunda vez durante a temporada que o subtexto da escola entra em cena.

Ainda sobre a cena da união do Povo da Areia com os civis de Mos Pelgo, vale notar a dinâmica que contrasta a relação povos nativos/colonos, típicas em alguns filmes de velho-oeste, e como a cooperação promove mudanças positivas para os dois grupos.

Um tema que sempre foi forte em Star Wars, sendo central na Saga dos Skywalker, é a questão familiar e os laços de amizade. Temática também com bastante presença narrativa em O Mandaloriano, se intensificando bem na segunda temporada ao demonstrar a continuidade do relacionamento entre os dois personagens principais e, também, em reencontros com personagens da temporada anterior, Grief Karga (Carl Weathers) e Cara Dune (Gina Carano).

Além disso, existe um pequeno arco que inclui uma mãe em busca de seu par para poder constituir a sua família. Um contraste válido à jornada que estamos acompanhando na trama principal. A cena do reencontro é um ótimo momento para evidenciar a preocupação dos roteiristas em demonstrar pessoas comuns tentando uma nova vida.

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O mandaloriano Din Djarin (Pedro Pascal) e Xerife Cobb Vanth (Timothy Olyphant), respectivamente

Continua impressionando bem a forma como estão usando a tecnologia para suportar a narrativa. Isso, sobretudo, se deve bastante ao uso inteligente de efeitos práticos e a clara sincronia do diretor de fotografia Baz Idoine com a equipe de efeitos visuais. Muitas das cenas “externas” são gravadas em um estúdio revestido com painéis de led que reproduzem, em tempo real, o cenário e as variações de luz e sombra, levando em consideração toda a composição da cena.

A segunda temporada de O Mandaloriano continua demonstrando que o formato de aventura-da-semana, com um vínculo sutil entre os episódios, funciona muito bem no formato de lançamento semanal. A pausa entre um episódio e outro ajuda o público a digerir a narrativa enquanto se diverte com os memes na internet e discute o episódio. Ao avançar a história com parcimônia, Favreau e Filoni entregam no semanal e instigam a curiosidade do público para os novos episódios.

Aqui, o legado definitivamente não atrapalha o fazer. Cada novo episódio oferece uma nova forma de ver os demais enquanto floreia e colore o imaginário do fã sobre este período tão pouco conhecido (entre os episódios VI e VII) do universo de Star Wars. E sobre o que a série tem a dizer, penso que os temas tratados são universais e apostas seguras, nada realmente disruptivo, porém tudo necessário.

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O que vale é a noção de que por mais algumas sextas teremos um “Yodinha” e um “Mando” pra fazer a gente se emocionar e se divertir. Afinal, algo que este ano nos mostrou é que precisamos de um afago em outras dimensões.

rafael bonanno

com 25, é um Jornalista em formação, com o Cinema como grande paixão. seus interesses também se estendem por produção de conteúdo relevante, storytelling, experiências interativas, narrativas transmídia, Fotografia e produção audiovisual.

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