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Não é Anormal, é Atípico

Não é anormal, é atípico

O transtorno do espectro do autismo (TEA) afeta 1% da população mundial. No Brasil, isso corresponde a cerca de 2 milhões de pessoas. As pessoas que se encontram dentro desse espectro podem apresentar o transtorno autista, transtorno desintegrativo da infância, transtorno generalizado do desenvolvimento não-especificado e a síndrome de Asperger. Todos esses quadros foram reunidos em um só diagnóstico em 2013.

Sam (Keir Gilchrist), o protagonista adolescente da série Atypical, está dentro do espectro. Ele é autista e apresenta sintomas como alta sensibilidade a sons e luzes, além de dificuldade para se comunicar e socializar. Sam também é muito bom em desenhar, e não gosta de fugir da sua rotina. A primeira temporada da série, que estreou na Netflix no dia 11 de agosto, une a comédia e drama em um crescente de intensidade, terminando de um jeito conhecido da gigante do streaming, que já pede aquela ida ao Google para saber quanto tempo terá que ser aguentado até a próxima temporada.

 

Empatia

A trama se desenvolve a partir do núcleo familiar de Sam: o garoto vive com os pais e a irmã mais nova, Casey (Brigette Lundy-Paine). Assim, a série mostra não só as dificuldades que uma pessoa com autismo enfrenta no dia a dia, como também as perspectivas das pessoas que convivem com ela. Vale a pena reparar como os pais de Sam lidam com as necessidades do filho de formas opostas, mas ambas fazem sentido. Enquanto a mãe (Jennifer Jason Leigh) dedica tudo de si para super proteger o jovem, o pai (Michael Rapaport) não sabe como se aproximar de um filho com quem não tem nada em comum.

Keir Gilchrist e Jennifer Jason Leigh em cena de “Atypical”

Já a irmã tem uma terceira forma de se relacionar com o irmão, que se volta mais para a cumplicidade. O mesmo acontece com a psicóloga de Sam, que o incentiva a tentar experiências novas, e seu colega de trabalho, Zahid, que insiste em falar sobre sexo usando muitas metáforas (mesmo que o protagonista não entenda nenhuma). Esses momentos estão entre as cenas mais divertidas da série. Assim, cada personagem apresenta possibilidades distintas de compreender e se relacionar com uma pessoa autista, ao passo que também criam a possibilidade de diferentes conflitos, que se desenrolam ao longo da série.

Atypical pode parecer, à primeira vista, uma série “só” sobre autismo. Mas, ao longo dos seus oito episódios, percebe-se que é também uma série sobre empatia. Ela permite que o espectador se coloque no lugar de Sam, mas também de Casey, de seus pais e dos outros personagens secundários. A narrativa é construída de tal forma que o espectador compreenda os motivos e virtudes das ações de todos os personagens, justificando cada sentimento e ação do enredo. E por mais que cometam erros, vê-se que suas escolhas não são infundadas. É um exercício constante da empatia graças à personagens muito humanos, que conferem um caráter de veracidade à série. Um trunfo para uma produção que busca romper preconceitos em torno das pessoas com autismo.

 

Inclusão

Na primeira semana de setembro, em um colégio na Argentina, mães comemoraram a expulsão de um menino com síndrome de Asperger da sala dos filhos. A síndrome de Asperger é um dos transtornos do espectro autista e alvo de preconceitos e discriminação. Como as pessoas no espectro têm dificuldades de interação social, um resultado desse convívio aliado ao preconceito pode ser o isolamento. Já na adolescência, pessoas com TEA têm mais propensão a desenvolverem depressão e ansiedade.

Atypical trabalha com a inclusão das pessoas com autismo em vários detalhes da sua narrativa. A série denuncia a discriminação sofrida na escola, principalmente em uma cena revoltante na qual colegas riem da interpretação literal que Sam faz das metáforas. Uma estratégia utilizada pelo roteiro da série para reforçar a inclusão é a linguagem inclusiva, que tem presença constante nos diálogos ao evitarem o uso de termos pejorativos, como anormal ou esquisito. O protagonista é chamado de atípico, enquanto pessoas fora do espectro autista são chamadas neurotípicas.

Além da linguagem inclusiva, outro elemento da série que demonstra a inclusão e o combate à discriminação surge no Baile de Inverno do colégio de Sam. Explicar mais seria dar spoilers, mas vale a pena dizer que esse é um dos momentos em que a série mais surpreende e comprova seu potencial para dar voz às necessidades das pessoas com TEA.

 

Representatividade

Não há dúvidas que Atypical pode quebrar paradigmas e incentivar a inclusão de pessoas com autismo. O elenco da série também é muito diverso e inclui várias minorias. Entretanto, é preciso lembrar que, dentro do espectro do autismo, a variedade de sintomas, comportamentos e intensidade dos transtornos é muito grande. Isso significa que cada pessoa com autismo (assim como as pessoas neurotípicas) é única. Cada uma exige um tipo de tratamento ou assistência também particulares.

Logo, nem toda pessoa com autismo está representada no personagem de Sam. Ele é o que se chama de altamente funcional, um tipo de atípico que tem sua capacidade de se comunicar e realizar atividades diárias não tão limitada quanto a de outros casos de autismo mais graves. O jovem consegue verbalizar muito bem seus sentimentos, desejos e desgostos; frequenta a escola em ritmo normal com crianças neurotípicas e trabalha como vendedor em uma loja de eletrônicos. Outras pessoas no espectro podem não conseguir verbalizar seus pensamentos, podem ter dificuldades de aprendizado em uma ou outra área, podem apresentar síndrome de deficit de atenção e hiperatividade, dislexia ou dispraxia. Há pessoas com autismo que podem ter uma vida independente, enquanto outras nunca conseguirão realizar tarefas diárias sem ajuda.

As reviravoltas da série começam quando Sam (Keir Gilchrist) decide procurar uma namorada.

Entretanto, se a série despertar a curiosidade dos espectadores e os motivar a ir além, a questão da representatividade, que deixa a desejar, não será um problema. Atypical é uma série que além de sua importante mensagem, é sustentada por um roteiro divertido, uma fotografia limpa e atuações emocionante, assegurando-se como uma produção extremamente empática. Mas o ideal é que ela seja uma porta de entrada, despertando o interesse da sociedade sobre o transtorno do espectro autista.

Depois de assistir Atypical, vale a pena buscar outras produções que abordem a questão do autismo, conhecer ONGs, ler mais sobre os transtornos. Quanto mais se conhece sobre um assunto, mais se quebram os estereótipos e preconceitos, e mais se promove a inclusão.


marina moregula

estudante de Jornalismo de 20 anos. aquariana, feminista, curiosa, distraída e apaixonada por contar histórias.

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