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“Mare of Easttown”: uma comunidade em estudo    

[tempo de leitura: 3 minutos]

Em jogo de gato e rato de suspense, a primeira temporada de “Mare of Easttown” se ancora em um bom mistério e no brilho de Kate Winslet.


N“Neste drama policial original da HBO, a vencedora do Oscar Kate Winslet interpreta Mare Sheehan, uma detetive de uma pequena cidade da Pensilvânia que deve investigar um violento assassinato local”. A partir dessa premissa presente na descrição oficial da série, poderíamos facilmente classificar Mare of Easttown como mais uma produção do estilo “quem matou”. No entanto, a HBO apresenta mais uma vez (assim como fez em Big Little Lies, Sharp Objects e mais recentemente com The Undoing) uma trama complexa, repleta de camadas e dramas humanos. A minissérie também está disponível no serviço HBO Max, que estreou no Brasil em 29 de junho.

Como já explicitado, os acontecimentos da série são desencadeados a partir de um assassinato, o da jovem Erin McMenamin. A detive encarregada do caso é Mare Sheehan (Kate Winslet, principal nome por trás da série), que ainda sofre com o luto pela morte de seu filho, Kevin. Na medida em que conhecemos os núcleos familiares dos moradores dessa cidade da Pensilvânia, observamos que todos estão lidando com questões complicadas. Todos são suspeitos.

Mare of Easttown quebra uma velha premissa de muitas produções de suspenses, a de que “absolutamente tudo que o diretor escolhe mostrar precisa ser relevante para a resolução do mistério”. Diversos acontecimentos da história são na verdade pistas falsas (a técnica de misleading, bastante utilizada pela rainha do crime Agatha Christie) ou informações que contribuem consideravelmente para a construção dos personagens, mas não para o desenlace da investigação. Até mesmo o par romântico de Mare, interpretado pelo ótimo Guy Pearce, não tem aquela função clássica de amor romântico da protagonista. “Não é preciso ser para sempre para significar algo”, destaca a namorada da personagem Siobhan.

O produtor-executivo da série reforça que a trama é pouco centrada em homens ou no amor romântico. “A maioria dos personagens masculinos nesse programa são maus. Não quero dizer todos, mas a maioria. Assim que comecei a escrever o roteiro, queria escrever sobre a minha casa e eu cresci rodeado de mulheres. Foi essa força e essa solidariedade entre elas que me inspirou”, declarou Brad Ingelsby ao podcast Still Watching.

As relações de amizade e de família são mais do que suficientes para sustentar Mare of Easttown e contar excelentes histórias. Temos de fato a sensação de que os moradores daquela cidade da Pensilvânia já se conhecem há bastante tempo, são verdadeiramente familiarizados uns com os outros. Aqueles sentimentos, tanto os de amor quanto os de ódio, parecem ter raízes.

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Tal percepção se deve muito ao excelente elenco da produção. É inclusive uma tarefa difícil destacar apenas um nome, ao passo que é necessário citar o maravilhoso trabalho de Winslet, encarregada de interpretar nossa adorável (pero no mucho) protagonista. “Pero no mucho” pelo simples motivo de que Mare é real: comete erros, muitas vezes é seca com a mãe (que também pode ser bem direta com ela), nem sempre dá a devida atenção para sua filha, se recusa a cumprir ordens do chefe. Em meio a todas essas contradições, Mare pode ser adoravelmente desagradável ou desagradavelmente adorável. Ela é crível, quase existe, quase tem vida própria.

Além dos excelentes veteranos James McArdle, Jean Smart e Robert Tann, o elenco mais jovem também não deixa a desejar e protagoniza momentos carregados de dor. Prepare-se: seu emocional provavelmente não ficará intacto com o fim que leva um dos personagens jovens. Outro nome responsável por dilacerar nossos corações é o de Julianne Nicholson, essa excelente atriz que entrega muito em cenas difíceis.

O último episódio de Mare of Easttown intitulado “Sacrement”, é um show de duas atrizes que, justamente por serem tão espetaculares, nos fazem esquecer que Winslet e Nicholson estão em cena. Naquele momento, vemos apenas Mare Sheehan e Lori Ross, duas amigas que sofrem, se protegem e se amam. A  emocionante cena final é um lembrete importante de que muitas vezes precisamos de tempo (e também de escuta) para lidarmos com nossos machucados e encararmos sótãos empoeirados.

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Levando em conta o fato de Damon Lindelof, produtor da série Watchmen, ser fã assumido de Mare of Easttown (há ainda uma gratificante piscadela da série para o Dr. Manhattan), é válido pegar carona numa frase dessa outra excelente produção da HBO. Afinal de contas, “feridas precisam de ar, não de máscaras”.

carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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