A Hora Lendária

A Hora Lendária
[tempo de leitura: 6 minutos]

“Legendary” estreia levando o Vogue para uma competição global de Casas, em um reality cheio de personalidade e unidade.


LLendário. De acordo com o Google, o adjetivo significa, entre outras coisas, “concernente a ou que tem o cunho de lenda“. Para a comunidade Queer, ser lendário significa ser magnífico, exalar confiança e ser memorável. E para a cultura de Ballroom, esse é o título máximo que uma Casa pode ter. Ser Lendário, significa deixar sua marca no mundo em uma forma de arte absoluta para a comunidade. E é a busca desse título que oito Casas vão se propor a duelar no novo reality show de competição do HBO Max, Legendary.

O recém-estreado serviço de streaming do conglomerado WarnerMedia (dono do estúdio Warner Bros., do canal HBO e da marca DC Comics) chegou aos Estados Unidos no dia 27 de maio de 2020, trazendo consigo o seu primeiro reality show original. Na produção estadunidense, o serviço traz para o mainstream a cultura Ballroom, famosa pelos bailes de Vogue – produto de análise do documentário Paris Is Burning.

 

O Formato

O formato do programa é simples: oito Casas famosas competem em nove Bailes em busca do título de Lendários (que dá nome ao show) e um prêmio em dinheiro de 100 mil dólares. Assim, ao longo de nove episódios, vemos a Casa Balmain, Casa Ninja, Casa Escada, Casa Ebony, Casa Gucci, Casa St. Laurent, Casa West e Casa Lanvin duelarem em diferentes desfiles que avaliam, entre outras coisas, seus Rostos (caras bonitas, dentes perfeitos, pele sedosa), seus Corpos (confiança, músculos, sensualidade), e, claro, suas habilidade não só no domínio dos Cinco Elementos do Vogue (Passarela, Mãos, Rodopios e Mergulhos, Duckwalk e Performance no Chão) como também o controle total da Passarela.

Legendary se completa com o painel de jurados. O modelo e dançarino Dashaun Wesley é o Mestre de Cerimônias do programa, sendo responsável não só pela apresentação e mediação da competição, mas também como uma espécie de MC do DJ MikeQ. Por sua vez, o júri é formado pela atriz Jameela Jamil (que também assume o posto de apresentadora), o estilista Law Roach, a rapper Megan Thee Stallion, e a famosa dançarina de Vogue Leiomy Maldonado, nome de peso dos bailes e conhecida internacionalmente como a Mulher-Maravilha do Vogue. Semanalmente, o painel recebe uma personalidade convidada para ser o quinto jurado, com nomes como o da atriz Dominique Jackson e a cantora Tamar Braxton.

  • Save
O painel fixo de jurados, da esquerda pra direita: Law Roach, Megan Thee Stallion, Jameela Jamil e Leiomy Maldonado

 

O Programa

Assistir Legendary é uma experiência de prato cheio. Eles sabem para que vieram e como entregar isso – deste o seu conceito visual, tão elegante e tão elevado, até o selecionado painel de jurados. Todas as pessoas que julgam o show, fixos ou convidados, são pessoas negras, enquanto as duas únicas celebridades brancas fazem parte da comunidade LGBTQIAP+. O programa é construído pela sua representatividade e precisa ser feito desse jeito, afim de manter constantemente em primeiro plano essa subcultura tão importante.

Episódio após episódio, vemos como o Ballroom é rico e muito bem elaborado. É óbvio que em Legendary a execução das ideias assume um nível mais elevado, uma vez que as Casas dispõe de um orçamento muito maior do que eles normalmente usam. Mas é inegável que, neste ambiente, a arte fala alto e somos agraciados por pessoas talentosas e perfeccionistas, que elaboram desfiles do início ao fim, tendo controle absoluto sob todo o processo criativo.

  • Save
A Casa Lanvin durante um dos Bailes

Com Legendary, podemos entrar ainda mais nessa cultura apresentada amplamente ao público pela famosa série Pose. Vamos mais fundo no funcionamento destes bailes e conhecemos mais suas famosas Casas, como a já conhecida Ninja, St. Laurent e Ebony, que marcam presença em Paris Is Burning. Vemos então um festival de roupas e dança, que por muitos anos viveu sob anonimato e foi sequestrado por movimentos mais mainstream.

O que nos leva a outro ponto: é interessante ver como mesmo diante desse status, o Ballroom foi capaz de se internacionalizar. Este é o caso da Casa Ninja, que na competição é representada por sua “filial” europeia+oriental – e é a única Casa formada apenas por mulheres. Também, vemos como esta comunidade é capaz de comportar situações como a Casa Ebony, em que uma mulher branca e cis é a Mãe da Casa – sendo a única integrante branca da Ebony.

Agora, não se engane se você acha que Legendary é apenas uma aula de História.

A polida produção da HBO Max é tão reality de competição quanto qualquer outro por aí. O que significa que não falta momentos de embate, tensão e drama. Ainda mais em uma realidade em que até mesmo o drama faz parte do conceito dos bailes – se você já assistiu Pose, sabe muito bem como tudo isso funciona. Nada vai te impedir de ser levado ao limite do sofá ao assistir alguns fervorosos bate-bocas e reviravoltas, como o episódio icônico em que Dominique Jackson discute com Law Roach, levando a atriz de Pose a se levantar e gritar para o público “Eu sou o ballroom!“. E errada ela não está, uma vez que a atriz trans cresceu neste cenário e até mesmo interpreta uma personagem inserida nesta subcultura.

 

Apelo Social

Apesar de ser um reality de competição, Legendary também assume um formato documental através de processos de entrevista. Neste cenário, as histórias contadas são o elo em comum desta cultura, historicamente marcada por descaso, esquecimento e descuido. São revoltantes relatos sobre preconceito, crimes de ódio, emprisionamento, contemplação de suicídio e expulsão. Histórias estas que, infelizmente, são parte da História que constrói este cenário criado e formado majoritariamente por pessoas negras, trans e latinas.

  • Save
A Casa Ninja durante um dos Bailes (Foto: Zach Dilgard/HBO Max)

A produção fica ainda mais interessante quando adicionamos uma perspectiva externa. No documentário Revelação (2020), da Netflix, a atriz Jen Richards fala sobre um paralelo entre a realidade da sua comunidade trans, o ballroom e o funcionamento de Hollywood, mostrando o movimento cíclico que há nessa relação. Nesse ciclo, a cultura ballroom é fortemente inspirada por seus membros, que historicamente são forçados a se voltar para o trabalho sexual.

Na busca por clientes e forçados pela competição e o instinto de sobrevivência, estas pessoas sentem a necessidade em hiperfeminilizar seus corpos, aspirando a ser as mulheres exuberantes da Era de Ouro de Hollywood, que são constantemente filmadas e fotografadas muito bem vestidas e maquiadas. Por sua vez, esta mesma cultura inspira os queers que trabalham na Holllywood contemporânea fazendo o styling e maquiagem das celebridades, sendo inspirados pelo o que eles acompanham da arte drag, que por sua vez nasce deste mesmo cenário de Ballrooms.

Por fim, e voltando especificamente ao reality, é emocionante ver as Casas finalmente podendo mostrar seus talentos diante de um ambiente mainstream. É ainda mais emocionante chegar ao final de cada baile e se ver em uma situação em que as duas Casas mais fracas duelam para continuar na competição, se enfrentando em uma batalha de Vogue. Você fica na ponta do pé e com o coração na boca. É revigorante. Sufocante. Eletrizante. As lágrimas correm. E então elas jorram quando Leiomy Maldonado, um ícone dentro desta subcultura, começa um discurso, já em prantos, de como ela se orgulha de estar ali, finalmente vendo a sua arte ser valorizada depois de tantas décadas – e em como personalidades como Willie Ninja estariam extremamente felizes e completos por ver aquilo.

Em nove episódios, Legendary se prova uma jornada, indo muito além do que uma competição. Ainda que haja uma certa gourmetização da cultura e até mesmo alguns erros (como o sistema de pontuação, por vezes confuso), é inegável que, entre um baile e outro, o programa tem fôlego e unidade suficiente para finalmente se instituir globalmente, recebendo apreço e ganhando o devido crédito que há tanto tempo almeja.


ONDE ASSISTIR
Legendary está disponível exclusivamente no HBO Max. O serviço de streaming da WarnerMedia estará disponível no Brasil em 2021.
Vics

vics

tem 24 anos e é formado em Jornalismo pela PUC Minas, com um MBA em Comunicação e Marketing. gerencia a revista e, ainda, escreve matérias sempre que tem uma boa pauta.

ao todo, já assistiu um total de 18 meses em Séries, cinco meses em Filmes e em uma década foram cerca de 25 meses em reprodução de Música.

Back To Top
Share via
Copy link
Powered by Social Snap