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Fan Service, Dinamismo E Problemas Narrativos

Fan service, dinamismo e problemas narrativos

Refletir sobre o caminho tomado pelos showrunners de Game of Thrones é muito interessante. Após seis temporadas muito bem produzidas e constantes, no que diz respeito a qualidade narrativa e de entretenimento, os produtores do maior fenômeno televisivo dos últimos 10 anos anunciaram que o final da série viria em seu oitavo ano. É claro que David Benioff e D.B. Weiss não são os únicos responsáveis pela qualidade narrativa de GoT, visto que fazem um trabalho de adaptação dos excelentes livros de George R.R. Martin, mas é necessário dizer que a escolha criativa dos produtores em reduzir o número de episódios para os dois últimos anos foi, ao mesmo tempo, ousada, correta e problemática.

Uma das principais controvérsias quanto a Game of Thrones sempre foi a grande quantidade de personagens e tramas diferentes. Ora interligadas, ora separadas por quilômetros de distância, os telespectadores já foram obrigados a acompanhar arcos que não contribuíram para o enredo maior da série. Era extremamente comum que uma trama fosse iniciada em um episódio e demorasse outros seis para ser resolvida ou, porque não, uma temporada inteira. Em seu sexto ano, a aclamada série da HBO cortou tramas secundárias e acelerou em suas principais, dando um grande passo para o seu final.

Agora, com o lançamento da sétima temporada, o avanço no ritmo da narrativa foi maior ainda, acelerando os acontecimentos e o desenvolvimento da trama de forma nunca antes vista na série. Aqui, tornou-se clara a consequência que o corte de episódios acarretou para o storytelling do novo ano, tanto positivamente quanto de forma negativa. Se por um lado os fãs puderam ver alguns encontros de personagens desejados à temporadas, também houveram falhas na construção destes encontros ou de arcos dramáticos para alguns personagens importantes.

Por outro lado, Benioff e Weiss conscientemente optaram por ignorar a verossimilhança temporal e cronológica na série. Se as primeiras temporadas de Game of Thrones tinham como cenários e ambientações os exércitos marchando para guerras, travessias longínquas e viagens recheadas de diálogos morosos, o sétimo ano apresentou uma pungência única e nova para a série. Se algum personagem declarava guerra em um episódio, o encontro armado ocorria naquele mesmo capítulo; enquanto se um plano era arquitetado em uma cena, ele era realizado duas adiante.

É claro que está mudança exigiu uma suspensão de descrença maior do espectador, principalmente por se tratar de uma série que em suas primeiras temporadas valorizou a passagem do tempo para aprofundar personagens. Em seu penúltimo ano, os personagens já atingiram um ponto dramático e narrativo de maturidade, criando uma necessidade de conclusão para algumas histórias e personagens pouco relevantes. A morte de Elaria Sand (Indira Varma) e suas Serpentes da Areia ou o esquecimento da Patrulha da Noite na temporada, que deixou de ser interessante com o abandono de Jon (Kit Harington), evidenciam o enfoque dos roteiristas para o que realmente importa.

Com isso, a temporada foi focada em pequenos núcleos narrativos: o governo de Cersei (Lena Headey) em Porto Real; a chegada de Daenerys (Emilia Clarke) em Pedra do Dragão e seu preparo para atacar os Lannisters, seguindo os conselhos de Tyrion (Peter Dinklage); a jornada de Jon em busca de ajuda para combater os White Walkers; e o arco de encontro dos jovens Starks em Winterfell, transformados pelas situações vividas por cada um. De modo geral, torna-se claro que a narrativa tem se dividido em duas frentes: uma batalha pela vida (personificada no arco de Jon Snow em convencer os outros monarcas de Westeros a ajuda-lo na luta contra o Rei da Noite) e a batalha pelo trono (principalmente construída no jogo político e de guerra de Daenerys e Cersei).

Com histórias coesas e bem controladas, o roteiro da série nunca apresentou problemas muito graves ao longo dos outros seis anos, mas com a evidente pressa e necessidade de avanço no enredo, o texto da sétima temporada se mostrou muito problemático. A grande maioria das falhas se resumem ou a atitudes pontuais de alguns personagens, mas que acabam por descaracterizar estes, ou por construções artificiais de alguns encontros e situações, retirando a naturalidade de algo que certamente deveria acontecer.

O plano de sequestrar um White Walker para convencer Cersei da urgência da batalha contra o Exercito dos Mortos, sugerido por Tyrion, é um exemplo de uma atitude estúpida e pouco coerente com o personagem inteligente e calculista que o anão se mostrou ser nas outras temporadas. A falta de um momento ou de uma evidência de dor, sofrimento e luto de Daenerys após a perda de um de seus dragões também vai contra uma das principais características da personagem, que é conhecida por ser “a Mãe dos Dragões”. Ainda, o tão aguardado encontro amoroso entre Jon e a Rainha Targaryen não foi bem construído e deixado para uma cena rápida e pouco empática, soando artificial. Um claro momento de um fan service.

O encontra de Daenerys e Jon Snow era um dos momentos mais esperados da série, assim como a aliança que a dupla realiza para exterminar os White Walkers (e tomar o Trono de Ferro para a Khaleesi)

Por outro lado, o roteiro acertou em introduzir momentos interessante para alguns arcos dramáticos. Nos episódios iniciais, por exemplo, houve uma sugestão de que Daenerys estivesse tomando caminhos muito violentos e radicais em sua política de conquista de Westeros, sugerindo um traço de loucura com o poder eminente; Cersei se mostrou ainda mais maligna e focada na sua sobrevivência ao abrir mão de Jaime (Nikolaj Coster-Waldau); Sansa (Sophie Turner) finalmente se assumiu como uma personagem inteligente para o jogo político, superando a persuasão de Mindinho (Aidan Gillen); Arya (Maisie Williams) demonstrou suas habilidades de batalha em uma ótima cena de luta com Brienne (Gwendoline Christie); Sam (John Bradley) superou sua insegurança e passou a ser um personagem mais maduro e intelectualmente importante para a trama. Ainda, o desenvolvimento do enredo finalmente confirmou a linhagem familiar de Jon, assegurando que o Rei do Norte é um filho legítimo de Lyanna Stark (Aisling Franciosi) e Rhaegar Targaryen (Wilf Scolding), fato que virá a ser importante na vindoura temporada final.

Também, vale apontar como o roteiro se esmera com diálogos fortes e bem escritos, garantindo cenas marcantes entre personagens extremamente secundários, como a conversa entre Lorde Varys (Conleth Hill) e Melisandre (Carice van Houten); Sandor Clegane (Rory McCann) e Beric Dondarrion (Richard Dormer); Bran (Isaac Hempsted Wright) e Mindinho; Jaime e Olenna Tyrell (Diana Rigg); e, claro, os encontros e conversas entre protagonistas como as discussões de Cersei com Tyrion e Jaime no season finale; Jon e Sansa antes do Rei do Norte partir para Pedra do Dragão; e Dany e Tyrion nos momentos de questionamentos dos conselhos do anão. Há, também, o resgate de diálogos passados, que passam a ter novos significados para os personagens e os acontecimentos da série, demonstrando um controle criativo apurado por parte dos roteiristas.

Apesar de toda sua inconstância narrativa e textual, o sétimo ano de Game of Thrones tem um balanço positivo. Parte disso se deve aos acertos do roteiro e aos fan services colocados na trama, mas os principais motivos são, sem dúvida alguma, as atuações, a direção dos episódios e a direção de arte. Cada uma das cenas de ação se faz memorável de alguma forma, seja pela sanguinolência da batalha marítima entre os Greyjoy, pelo excelente jogo de câmera do confronto entre o exército Lannister e Daenerys montada em Drogo, ou pela computação gráfica impecável que a série apresenta ao dar vida aos dragões e aos White Walkers. A redução de episódios, e consequente aumento de orçamento por capítulo, é totalmente justificada com sequências em CGI muito melhores que de muito filme blockbuster.

Cena da sétima temporada de “Game of Thrones”; Dracarys nos White Walkers

A direção dos episódios explorou mais de planos aéreos magníficos para a ambientação da série, ao mesmo tempo que utilizou de planos detalhes para alavancar as excelentes atuações dos atores. Todo o elenco da série merece ser enaltecido, com intérpretes cada vez mais dominantes em seus papeis de protagonistas, como Lena Headey de Cersei, Peter Dinklage de Tyrion, Kit Harington de Jon e Emilia Clarke de Daenerys, tanto quanto os que dão vida a personagens que compõem a narrativa destes protagonistas, mas asseguram holofotes e personalidade para os secundários, como Diana Rigg de Olenna Tyrell, Rory McCann de Sandor Clegane, Richard Dormer de Beric Dondarrion e Liam Cunningham como Davos.

Se a temporada abriu seu primeiro episódio com uma sequência sensacional apresentando Arya Stark, disfarçada de Walder Frey, assassinando os Frey envolvidos no Casamento Vermelho, ela também acabou com um desfecho épico e grandioso: a queda de parte da Muralha graças ao ataque do Rei da Noite com o ressuscitado dragão Viserion. Juntamente com a chegada de neve a Porto Real, fica a promessa de que a batalha contra o Exército dos Mortos está cada vez mais perto narrativamente, e agora muito distante cronologicamente visto que a derradeira temporada estreara somente em 2019.

Apesar das falhas de roteiro e de seu ritmo descompensado, o sétimo ano da série entrega tudo aquilo que prometeu nos seis anos antecessores, deixando a expectativa dos fãs cada vez mais alta para o final do fenômeno de cultura pop que Game of Thrones se mostrou ser.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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