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Abismo entre vagões

[tempo de leitura: 3 minutos]

“Expresso do Amanhã” mostra potencial para adaptar a HQ para as televisões, apesar das mudanças na trama motivados pelo formato seriado.


“Primeiro, o clima mudou. Os negacionistas sabiam o motivo, mas nos sentenciaram com mentiras. A guerra deixou o planeta ainda mais quente. O gelo derreteu e todas as espécies chegaram ao fim. Nos últimos dias do congelamento, os ricos, muitos deles responsáveis pela catástrofe, foram para o Snowpiercer, com 1.001 vagões. Então nós, o povo, os sobreviventes que ficaram para trás, invadimos o trem deles”.

 

AA HQ francesa Transperceneige (1982), de Jacques Lob, Jean-Marc Rochette e Benjamin Legrand, inspirou Expresso do Amanhã (2013), longa dirigido por Bong Joon-ho (vencedor do Oscar por Parasita). A história se passa em um universo distópico, onde a vida humana foi praticamente extinta e os únicos sobreviventes se encontram no “trem arca”, idealizado pelo milionário Sr. Wilford. Nos primeiros vagões, estão os passageiros de classe mais alta, que vivem em ótimas condições. Nas carruagens posteriores, estão os de classes baixa, que precisam trabalhar para garantir sua sobrevivência. No último vagão, se encontram os fundistas, que invadiram o trem em uma tentativa desesperada e vivem com recursos escassos.

Em 2020, outra adaptação mergulha nesse universo: a série Expresso do Amanhã, da TNT, exibida internacionalmente pela Netflix, que já trás dois episódios disponíveis na plataforma brasileira. Na nova produção, conhecemos esse mundo distópico por meio do personagem Layton (Daveed Diggs), fundista convocado pela voz do trem, Melanie Cavill (Jennifer Connelly), com o intuito de investigar uma morte que aconteceu na classe superior do trem.

Diante de um universo tão bem construído, que poderia ser explorado de diversas maneiras, é válido perguntar se o elemento do assassinato (que não está presente  no filme de Bong Joon-ho) deveria ter sido introduzido como fio condutor. A própria dinâmica do trem, sustentada pela disparidade entre classes sociais, seria suficiente para contar boas histórias.

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Pôster internacional

Assim como no filme, o espectador de Expresso do Amanhã se familiariza primeiro com o fundo do trem. O que vemos é um ambiente sujo, escuro e apertado. Uma catástrofe não ameniza as desigualdades, e sim as escancara. Considerando o momento que atravessamos, essa discussão parece mais atual do que nunca. Ao contrário do que alguns insistem em dizer, a pandemia da COVID-19 não deixou “todos no mesmo barco”. Há aqueles que podem realizar isolamento social com conforto e tranquilidade, enquanto outros dividem cômodos com várias pessoas e precisam sair de casa até mesmo para conseguir água. Há quem consiga ter ensino à distância e ainda realizar diversos cursos extracurriculares, enquanto outros sequer têm acesso à internet.

É digno de nota que produções com discursos mais panfletários estão sendo muito assistidas na Netflix, como foi o caso de O Poço. O filme, um dos mais vistos de 2020 até então, aborda justamente a disparidade entre classes, sem muitas sutilezas. Por mais que essa discussão possa ser rotulada como desgastada, vale ressaltar que atravessamos um momento em que direitos básicos, garantidos pela Constituição, estão significativamente ameaçados. Em tempos sombrios, muitas vezes é preciso dizer o óbvio.

Nesse sentido, até mesmo alguns detalhes de Expresso do Amanhã representam bem a nossa sociedade, como o fato de uma das funcionárias do trem fazer questão de colocar um casaco de pele no momento em que precisa dar um recado para os fundistas. Quando uma garota de classe alta diz que quer ir pra terceira classe para comer noodles, percebemos como os que têm status podem transitar e escolher tudo – até mesmo as comidas daqueles que têm menos.

Merece destaque ainda o ótimo design de produção da série, que reforça o contraste entre a frente e o fundo do trem. A narrativa, no entanto, não consegue prender muito a atenção. Se o filme de Bong Joon-Ho é consideravelmente intenso, os dois primeiros episódios da nova produção não passam o mesmo senso de urgência.

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Em destaque, Daveed Diggs e Jennifer Connelly (Foto: Justina Mintz)

É inegável, porém, que o universo da HQ oferece muitas possibilidades (afinal de contas, são 1.001 vagões). Fica a torcida para que os próximos episódios de Expresso do Amanhã ganhem fôlego e explorem bem essa distopia – que consegue refletir a realidade em diversos aspectos.

Carolina Cassese

carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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