O Ciclo infinito de “Dark”

O Ciclo Infinito De “Dark”
[tempo de leitura: 10 minutos]

Com a 3ª temporada, “Dark” finaliza sua narrativa com maestria e se consolida como uma das mais impactantes séries da era do streaming.


Nota da Colab: o texto contém spoilers.

 

QQuem diria que a primeira série original alemã da Netflix seria um sucesso mundial? Dark foi uma aposta certeira da plataforma e conquistou milhares de fãs desde o seu primeiro ano. A temporada de estreia foi lançada em 01 de dezembro de 2017, tendo uma nova leva de episódios já confirmada pouco tempo depois, mas que só entraram no streaming em junho de 2019. Quase dois anos se passaram desde o lançamento, mas tudo por um bom motivo.

De acordo com os representantes da plataforma, os roteiristas e diretores da produção alemã focaram muito no desenvolvimento dos personagens e nas amarrações da história, garantindo que todos os eventos estivessem totalmente corretos e de acordo com as linhas temporais.

 

Dark

O sucesso de Dark se dá por diversos fatores, mas é inegável que o roteiro é o motivo que realmente conquistou o público. A temática de viagem no tempo já foi trabalhada inúmeras vezes não só no audiovisual, como também na literatura – mas o grande diferencial da série alemã é a forma como isso é abordado. Dark é um agrupamento de boas escolhas desde a concepção da ideia até a finalização, uma vez que é impossível visualizar essa história com outros atores, cenário, contexto e até o fato de ser uma obra alemã contribui para o sucesso. A linguagem cinematográfica da série é bem diferente do que pode ser visto em produções hollywoodianas e que todos já estão acostumados, o que é um ponto muito positivo e cria uma abertura maior para produções internacionais não só no mercado, como também na mente das pessoas.

Outro fator que é interessante de se pensar é que Dark impulsionou ainda mais a sede dos fãs por explicações em relação ao que estava acontecendo em cada episódio, o que fez com que muitas teorias fossem criadas por todos que assistiam. O número de pessoas debatendo online sobre a série e teorizando todos os possíveis desdobramentos do roteiro foi tão alto, que até o próprio elenco se manifestou e encorajou esse movimento, criando ainda mais alvoroço em torno da história. Diversos memes, figurinhas e até vídeos de explicação sobre os episódios tomaram conta da internet desde o lançamento em 2017.

 

PRIMEIRO CICLO

Na primeira temporada de Dark somos apresentados a toda temática da série, ao contexto em que ela está inserida e os diversos núcleos de personagens que estão interligados. Tudo se passa na pequena cidade de Winden, na Alemanha, em que alguns desaparecimentos têm acontecido nos últimos anos. O marco desses primeiros episódios é o desaparecimento misterioso de Mikkel Nielsen (Daan Lennard Liebrenz), que vai desencadear uma série de descobertas sobre viagem no tempo.

Para compreender a história é necessário entender bem as quatro principais famílias da série, Doppler (Bernd, Helge, Peter, Elisabeth, Franziska e Charlotte); Tiedemann (Egon, Doris, Claudia, Regina, Aleksander/Boris e Bartosz); Nielsen (Agnes, Hanno/Noah, Tronte, Mads, Ulrich, Magnus, Martha e Mikkel); Kahnwald (Daniel, Ines, Michael, Hanna e Jonas). Durante a temporada percebemos que alguns desses personagens interferem ou misturam duas famílias, como por exemplo o Mikkel que é Nielsen e Kanhwald ao mesmo tempo, já que ele viaja no tempo enquanto Mikkel vira Michael quando cresce.

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Nesse primeiro ano entendemos que viagem no tempo existe e que só é possível viajar para 33 anos no passado ou futuro. Existem até então, três formas de viajar no tempo, sendo elas, pelo aparato que fica em uma maleta, pela caverna da cidade e pela máquina construída no bunker pelo Helge e Noah. A cada 33 anos um novo ciclo se inicia e acontece o apocalipse. Tudo está relacionado com a construção da usina nuclear da cidade, a explosão que aconteceu em 1986 e o lixo radioativo que está escondido no subsolo da usina. Ao decorrer dos episódios vamos conhecendo versões mais velhas e mais novas dos personagens do “presente” e entendemos que existem 3 versões de cada um.

Um dos primeiros conceitos que é apresentado no primeiro ciclo de Dark e que vai guiar toda a série, é o fato de que o tempo não é linear, mas sim cíclico. Ligado a isso, nos é apresentado o “Paradoxo de Bootstrap“, em que ele basicamente gera a existência de eventos que não possuem uma origem, eles são fechados em si. O fim e o início desse evento se conectam e a informação original vem do nada. Um exemplo é o livro “Uma Jornada no Tempo”, o principal objeto da primeira temporada e que foi escrito por um dos personagens da série. Nunca é mostrado o processo de escrita desse livro. O que se vê é a versão mais nova desse personagem recebendo o livro de uma versão mais velha da Cláudia Tiedemann. Em algum momento ele lê, publica e vende esse livro, para mais tarde a versão adulta da Cláudia ganhar esse livro de presente e entregar para o personagem novamente.

Quando o Mikkel desaparece, ele na verdade viaja no tempo sem querer e vai parar em 1986, quando seus pais ainda eram adolescentes. Ele não consegue voltar para o seu tempo atual e por lá ele fica até crescer, se casar, morrer e ao mesmo tempo desaparecer novamente. Ele foi adotado por Ines Kahnwald, então ele vira Michael Kahnwald. A questão é que no seu tempo real, as pessoas ficam muito preocupadas com o desaparecimento e vários desdobramentos se dão devido a descoberta de novas pistas, o que faz com que alguns personagens também viagem no tempo, como Jonas e Ulrich.

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O último viaja para 1953 na tentativa de resgatar Mikkel, porém ele não percebe que está no tempo errado e acaba se envolvendo em alguns problemas, o que faz com que ele seja preso e nunca consiga voltar para casa. Jonas adolescente por sua vez, viaja para 1986 e encontra Mikkel, mas acaba conhecendo a versão adulta de si mesmo que explica que as coisas sempre devem acontecer exatamente da mesma forma e que ele não pode interferir. Mikkel precisa ficar em 1986 para que mais tarde ele se case com Hanna, para que o próprio Jonas possa nascer.

Assim, a primeira temporada de Dark se encerra com o apocalipse acontecendo e Jonas sendo enviado para o futuro em 2053, iniciando o segundo ciclo.

 

SEGUNDO CICLO

No segundo ano, Dark começa acompanhando a trajetória de Jonas adolescente em 1952, no futuro. Ele descobre o que aconteceu com Winden depois do apocalipse e tenta encontrar uma maneira de viajar no tempo para poder impedir que tudo aconteça novamente. Enquanto isso, Mikkel tenta se encaixar em sua nova realidade com a mãe adotiva, Ines Kahnwald, mas sente muitas saudades de casa e até tenta viajar no tempo, mas é impedido por Noah. Claudia Tiedemann é uma das principais personagens nessa temporada, uma vez que a versão adulta dela não só vai descobrir e começar a entender sobre viagens no tempo, mas também ajudar Jonas a quebrar o ciclo.

Ao longo dos episódios, alguns personagens já recorrentes na série vão descobrir a existência de viagem do tempo em pontos específicos da narrativa. Claudia e Hanna são as primeiras e ambas têm a oportunidade de ir para outro ano e ver com os próprios olhos que isso é realmente possível, porém, enquanto Claudia realmente quer ajudar, Hanna foge com um dos aparatos. Enquanto isso, Charlotte, Peter e Egon também estão descobrindo sobre o poder de viajar no tempo, mas cada um em seu ano. Ao longo da temporada o público acompanha as descobertas de vários personagens e vai recebendo aos poucos, novas pistas sobre a história e a arvore genealógica das famílias.

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Além das descobertas sobre a questão de viagem no tempo, no segundo ano de Dark acompanhamos também a investigação que o detetive Clausen está realizando sobre Aleksander Tiedemann, o plano de Ulrich para encontrar Mikkel e voltar para o seu tempo normal, a chocante revelação sobre os pais de Charlotte e a verdadeira identidade de Adam. São várias histórias acontecendo ao mesmo tempo e que se interligam para o entendimento de algo bem maior, como se fosse um quebra cabeça e que a cada episódio novas peças fossem sendo identificadas.

Enquanto a temporada inicial de Dark apresentou a narrativa e trouxe uma complexidade para a obra, a segunda temporada ficou responsável por revelar novas informações e guiar os personagens para pontos da história em que eles precisariam estar com o conhecimento suficiente antes do início do segundo ciclo.

Essa segunda temporada foi tão bem executada quanto a primeira e cumpriu muito bem o papel de transição para o final e de desenvolvimento dos personagens e da narrativa. Em alguns momentos ela foi muito mais “linear” do que a outra e ao mesmo tempo que explicou questões importantes como o suicídio de Michael Kahnwald, também criou mais perguntas não respondidas no público. Ela serviu muito bem para introduzir novos conceitos e apresentar novas peças importantes na história, como a medalha de São Cristóvão, o relógio para Charlotte e a carta para Jonas.

Dark termina com o segundo ciclo se encerrando, o apocalipse acontecendo e Jonas sendo salvo por uma personagem que ele nunca esperava em uma situação na qual ele também não imaginava.

 

TERCEIRO CICLO

A terceira e última temporada de Dark estreou em 27 de junho de 2020, exatamente na mesma data em que acontece o apocalipse na série. Essa leva final de episódios estava sendo muito esperada pelos fãs e diversas teorias foram compartilhadas na internet para tentar desvendar o destino de cada personagem e as conexões entre eles. Como a segunda temporada ainda deixou muitas questões não resolvidas, a maior preocupação e curiosidade de todos, era obter as respostas para as milhares de perguntas que estavam em aberto.

Essa temporada é muito mais complexa, provavelmente a mais difícil de todas, uma vez que novos conceitos e personagens são apresentados, tendo um conceito como fio condutor de tudo: a teoria de Adão e Eva. Desde o início sabemos que a abertura de cada episódio diz muita coisa sobre a temporada em questão e agora não podia ser diferente. Na abertura dessa terceira temporada é possível observar que as imagens continuam espelhadas, representando os dois mundos, e alguns objetos são colocados em evidência, como a medalha de São Cristóvão, o quadro de Adão e Eva, e a maçã.

O primeiro episódio de Dark começa exatamente do mesmo ponto em que a segunda temporada acaba, ou seja, com a Martha do mundo B salvando o Jonas do mundo A do apocalipse do mundo A. Ela leva ele para o mundo B e lá ele conhece e começa a entender essa outra dimensão, o mundo de Martha, o mundo sem o Jonas. Na temporada anterior, Claudia diz a Jonas que ela já viu o mundo sem ele e que a situação é tão ruim quanto a que ele se encontra e o foco dessa última temporada é justamente o mundo sem esse personagem, uma vez que Mikkel nunca voltará no tempo, portanto Jonas não irá nascer. O protagonismo de Martha nessa temporada é inegável e muito bem trabalhado, já que ela é tão importante para a história quanto Jonas. Nas duas primeiras temporadas ele teve um foco maior em sua jornada, mas agora acompanhamos a trajetória de Martha e o que a levou a se tornar Eva.

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No mundo B, todos os personagens existem, mas suas realidades são diferentes do mundo A. Ulrich está divorciado de Katharina, casado com Hanna e tendo um caso com Charlotte; Bartosz não é o playboy descolado da escola, mas sim um menino inteligente, o nerd da sala e não namora Martha; Elisabeth agora fala e sua irmã que é surda; e por aí vai. São muitas as mudanças, mas nada que comprometa os acontecimentos principais relacionados ao ciclo. As mesmas coisas que aconteceram no mundo de Jonas continuam acontecendo nessa nova dimensão, mas as situações em que elas se encontram mudam. A principal diferença é que Mikkel nunca viaja no tempo e que o aparato responsável pelas viagens no tempo agora proporciona viagem entre mundos.

Nessa temporada final de Dark descobrimos que a árvore genealógica é muito mais complexa do que se imaginava e que a tão procurada origem de tudo está relacionada com o relojoeiro H.G. Tannhous e com o filho de Martha do mundo B e Jonas do mundo A. Essa foi a grande questão dessa última temporada, pois todos achavam que sabiam o que era a origem de tudo e enquanto Adam queria destruí-la, Eva queria protegê-la. A única pessoa que realmente sabia o verdadeiro ponto de origem e que foi uma peça fundamental para a série foi a personagem Claudia Tiedemann. Ela foi quem descobriu o que realmente aconteceu e em uma conversa final com Adam, ela conta tudo, o que faz com que ele salve sua versão mais jovem em 2020 para que ele possa salvar a versão jovem de Martha B e os dois possam acabar com esse ciclo.

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Uma questão muito interessante em Dark como um todo, mas especialmente nessa temporada é a forma como eles caracterizaram cada mundo, cada realidade paralela e usaram esses artifícios como guia de espaço e tempo ao longo dos episódios. A Martha B jovem tem duas versões de si mesma devido as duas realidades paralelas que surgem e é possível diferenciar as duas pelo corte na bochecha, uma vez que o corte muda de posição dependendo do mundo onde ela se encontra. O mundo de Martha é todo ao contrário do mundo de Jonas, é todo espelhado, então é visivelmente possível entender quando a história está sendo contada no mundo dela, sem falar que os escritos que aparecem na tela também são espelhados. Só aí já temos três indicadores de espaço/tempo, mas ainda falta um, a cor, não só o tom e a paleta de cores, mas também uma cor que caracteriza um pouco alguns aspectos do mundo dela.

O amarelo é a cor do mundo de Jonas desde a primeira temporada e por mais que a Martha use em seu mundo o mesmo casaco amarelo que Jonas usava no dele, o vermelho é a cor que marca essa dimensão e podemos observar mais expressivamente nas cenas na usina. A paleta de cores também é importante, percebemos que o mundo B é um pouco mais quente, mas confesso que o que realmente vai ajudar a distinguir são os escritos invertidos e a caracterização dos personagens.

Essa terceira temporada fechou completamente a trilogia e de uma forma muito positiva. Tudo que precisava ser explicado foi desenvolvido ao longo dos episódios e o que não foi explicado não teria grande relevância para a história. É muito interessante ver uma série ser concluída brilhantemente, com um roteiro bem estruturado, redondinho, que realmente se preocupava com a história e não se deixou levar pelo sucesso da obra.

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É nítido que os criadores da série já sabiam o final desde o começo, então tudo se encaixou com os acontecimentos da primeira temporada. Dark surgiu em uma época muito boa e trouxe um refresco para os olhos cansados de obras hollywoodianas. As três temporadas foram muito bem executadas, existe uma consistência entre elas desde o roteiro até a pós-produção e com certeza marcou não só as pessoas, mas a Netflix. Acredito que Dark vai reabrir as portas para produções com histórias mais complexas e não tão bobinhas, como também criou um público mais exigente com o conteúdo das produções.

Laísa Santos

laísa santos

Cineasta, Fotógrafa e pseudo Cozinheira. apaixonada por queijo quente, fotos preto e branca e claro, Tim Burton. fazendo arte em Los Angeles desde 2019.

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