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Uma trama presa entre o potencial e o problemático

[tempo de leitura: 5 minutos]

“Bom dia, Verônica” é uma série potencial que derrapa sua narrativa na linha tênue entre a delicadeza e o problemático ao tratar seu tema.


EEm 2016 a DarkSide Books lançou o livro Bom dia, Verônica, sendo publicado sob o pseudônimo de Andrea Killmore – uma autora que ninguém conhecia ou tinha ouvido falar. Não demorou para o público começar a especular a respeito da identidade da autora, ou melhor, dos autores, visto que o estilo da narrativa do livro indicava que Bom dia, Verônica tinha sido escrito por mais de uma pessoa. Após tanta especulação e teorias criadas na internet, foi revelado que a obra se tratava de uma colaboração entre o autor brasileiro Raphael Montes e Ilana Casoy, criminóloga e escritora brasileira.

Agora, quatro anos desde a publicação da obra literária e os mistérios iniciais que o cercavam, Bom dia, Verônica ganha uma adaptação em formato de série, que chega ao catálogo da Netflix contando com um elenco de peso e extremamente talentoso.

 

BOM DIA, VERÔNICA

Logo no início da trama, o público é apresentado a Verônica (Tainá Müller), uma escrivã que trabalha na Delegacia de Homicídios de São Paulo. A reviravolta acontece quando Verônica presencia o suicídio de uma mulher em seu local de trabalho.

Poucos ligam para o caso ou não dão atenção necessária para o ocorrido, de maneira que Verônica é a única que se sensibiliza com a cena que presenciou, decidindo a investigar o caso e tentar descobrir o que levou a mulher a tirar sua própria vida em um momento claro de desespero. E na medida em que ela se aprofunda na investigação, o caminho de Verônica se cruza com o de Janete (Camila Morgado) e de seu marido, Brandão (Eduardo Moscóvis), que além ter um cargo importante dentro da Polícia Militar de São Paulo, também é um psicopata.

Janete é uma mulher bastante isolada e que vive como uma prisioneira dentro de seu casamento com Brandão, uma relação marcada tanto pelo abuso físico quanto psicológico. O relacionamento dos dois é um claro retrato da violência domestica, uma vez que Brandão controla a esposa de várias maneiras: ela não tem celular, não pode ver sua família e praticamente não tem amigos, além de serem poucas as ocasiões em que ela pode sair de casa. E como se tudo isso já não fosse terrível suficiente, Brandão inclui a esposa nos crimes brutais e em séries que ele comete o que torna tudo mais difícil.

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Tainá Müller como a protagonista Verônica

Certamente que um dos pontos principais da série, além de toda investigação conduzida por Verônica, é a respeito de Brandão e os crimes chocantes que ele comete. De uma forma geral, não são todas produções nacionais que mostram cenas perturbadoras como as das séries, o que pode tornar Bom dia, Verônica difícil de assistir, ainda mais para o público mais sensível.

 

AS PROBLEMÁTICAS

Quem leu Bom dia, Verônica sabe que o livro apresenta uma escrita bastante visceral, e os casos retratados na obra são capazes de chocar qualquer um – e o mesmo segue com a série. Apesar de algumas diferenças que exista entre as produções, não se pode negar que se trata de uma história que tem suas problemáticas.

Em uma entrevista com Samanta Belletti, produtora de conteúdo e dona de um canal no YouTube cujo o objetivo é falar sobre livros e produções audiovisuais, ela explicou alguns pontos necessários a respeito dessa história.

O maior problema, tanto do livro quanto da série, é abordar um assunto tão delicado, que é a violência doméstica, de uma forma tão irresponsável. Sem apresentar uma saída e esperança a mulheres que sofrem com isso. Já é tão difícil pedir ajuda e sair de um relacionamento tóxico e abusivo, imagina se deparar com uma história em que isso, de fato, não é possível. Por mais que a justiça do país seja conhecida por ser corrupta e injusta, quando o assunto é a realidade de milhares de vítimas, é preciso apresentar um contraponto”.

Ao longo da série o público presencia diversas situações de violência contra mulher, incluindo a própria Janete que vive um pesadelo dentro de sua casa, sofrendo com a violência domestica e sendo obrigada a presenciar os crimes e atrocidades que seu marido comete com outras mulheres. Desta forma, Samanta acredita que a produção da Netflix poderia ter sido mais incisiva ao mostrar que existe uma saída para os problemas apresentados e que há uma esperança. “Então, um desfecho positivo, pelo menos para uma dessas mulheres, teria sido sim, mais responsável. Principalmente para a Janete, interpretada pela Camila Morgado. E um alerta de gatilhos antes dos episódios também é importante”, defende.

Além disso, algumas pessoas questionam a trama de Bom dia, Verônica, em especial a do livro, que apresenta uma linha tênue entre mostrar cenas de violência apenas para causar e construir o terror, versus a necessidade de construir uma crítica social a respeito da violência contra a mulher. O Brasil é conhecido por ser um país machista e misógino, de forma que diariamente vemos relatos e denúncias contra a violência contra a mulher, além dos altos índices de feminicídio. E levando essa realidade em consideração, é necessário que o leitor tenha um olhar mais crítico em relação à obra.

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Brandão (Eduardo Moscóvis) e Janete (Camila Morgado)

É necessário questionar se retratar cenas gráficas e detalhadas de violência, que tenham o poder de deixar o público desconfortável, são realmente necessárias para que seja feita alguma crítica ou reflexão do assunto, ou se estão presentes apenas para chocar o leitor com tamanha brutalidade.

 

POTENCIAL

É impossível negar as problemáticas presentes nessa história, assim como os gatilhos que ela apresenta para o público, mas também somos obrigados a reconhecer o potencial de Bom dia, Verônica. A série é bem diferente do que estamos acostumados, fugindo um pouco das produções audiovisuais que conhecemos.

Ainda, um dos principais fatores para essa série estar se tornando um grande sucesso são as atuações de Tainá Müller, Camila Morgado e Eduardo Moscóvis. É possível ver que eles se dedicaram para seus respectivos papéis. Você consegue sentir o medo nos olhos de Camila, Tainá se saiu bem tanto nos momentos dramáticos e nas cenas mais de ação, e Eduardo encarnou com perfeição o papel de um psicopata.

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Além de Bom dia, Verônica, falar sobre a violência contra a mulher a série também aborda a respeito da corrupção policial no Brasil, e o que não falta são momentos de ação e que deixam o público preso no que está acontecendo. Trata-se de uma produção televisiva que tem um bom potencial e que pode ser explorado ainda mais – porém, a série não é recomendada para todos os públicos por poder causar gatilho em algumas pessoas.

Bruna Curi

bruna curi

tem 20 anos, é estudante de Jornalismo, mineira, capricorniana e blogueira nas horas vagas. apaixonada por Livros, Filmes e Séries. gosta de escrever, é uma de suas maiores paixões.

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