O retrato do país no horário televisivo nobre

O Retrato Do País No Horário Televisivo Nobre
[tempo de leitura: 9 minutos]

Com o reprise de “Avenida Brasil”, a novela comprova sua relevância e impacto no imaginário popular e na relação com a televisão.


SSabemos que o ato de contar histórias nos leva ao passado, haja visto antigamente o hábito das pessoas de sentarem na porta de suas casas no tempo livre e contar sobre situações ocorridas, muitas delas ficcionais, costume que ia se passando por várias gerações. Mas essa atitude não ficou restrita a um tempo anterior ao presente, distante, pois com o desenvolvimento da tecnologia, surgiram novas formas de narrativas, escritas, orais, encenadas, como é o caso da telenovela.

Assim, qual a sua reação quando ligava a TV e começava “oi,oi,oi”?

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Importante elemento da formação social e, sobretudo, cultural do Brasil, a telenovela é certamente um dos mais fortes dispositivos de mobilização e impacto social no país e com Avenida Brasil não foi diferente, exibida em 2012 e reprisada desde outubro do ano passado no Vale a Pena Ver de Novo, a produção mobilizou o país com uma trama baseada em injustiça, vingança e uma boa dose de vivências populares.

Além dos bastidores, produção e montagem, esse conteúdo audiovisual é capaz de ultrapassar as telas e despertar no telespectador a sensação de identificação e proximidade, criando um vínculo entre os personagens, suas vivências e a realidade do observador. Na proposta do autor João Emanuel Carneiro esses aspectos ganharam novas camadas, se fortaleceram e estabeleceram um novo patamar para a teledramaturgia brasileira.

 

AVENIDA BRASIL

Avenida Brasil foi uma telenovela de grande destaque em dimensão nacional, um sucesso de audiência e crítica. Exibida em 2012 pela TV Globo, no horário das 21 horas, entusiasmou e motivou o público com seu enredo de vingança, dificuldades e pobreza, seja ela social ou humana. A obra escrita por João Emanuel Carneiro e dirigida por Amora Mautner e José Luiz Villamarim, do núcleo Ricardo Waddington, exibida em 179 capítulos, aborda mais que a periferia, concentrando todos os principais personagens no Divino, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, palco de grandes acontecimentos ao longo da história.

A cidade do Rio de Janeiro é o cenário da novela, como em muitas outras, mas nesse caso, assume um outro lado como ponto de vista principal. As ocorrências se dão muito mais no subúrbio carioca do que na Zona Sul, aspecto reforçado desde o primeiro capítulo, em que imagens dessa região da cidade são mostradas a partir de representações tradicionais, como meninos jogando futebol de forma improvisada, transporte público, pessoas na feira, comidas populares, e mais tarde, reafirmam sua influência como o núcleo principal.

O folhetim revelou um grande poder de aproximação e identificação com o público. Além da aposta em temas que estimulam os sentimentos do observador, alguns aspectos são centrais para garantir esse fenômeno. Um deles é o próprio nome, uma importante avenida do Rio de Janeiro e umas das mais movimentadas do país, por onde diariamente, passam muitas pessoas e muitas coisas acontecem em meio a carros, pessoas, compromissos e horários.

MARCO
Com mais audiência do que Novo Mundo e Malhação, a reprise de Avenida Brasil conseguiu um feito histórico e teve o capítulo de maior audiência do Vale a Pena Ver de Novo na Grande São Paulo em dez anos. O folhetim de 2012 registrou 24,4 pontos de média e atraiu a audiência de 38,0% dos televisores ligados das 16h42 às 18h03. É o melhor desempenho da faixa de reprises vespertinas da Globo desde o último capítulo de Alma Gêmea, que ficou na casa dos 30 pontos em 12 de março de 2010.

Certamente, esse tipo de narrativa contribui para gerar e influenciar debates sociais na sociedade, a partir de aspectos próprios que compõem seu conteúdo, o tempo, espaço, personagens, narrador e enredo, não necessariamente nessa ordem e nem com todos estes apresentados claramente na história.

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A novela televisa, por sua vez, tem o diferencial de, em um desenrolar temporal definido, nos entreter e, principalmente, atrair, apoiados na vida cotidiana e assuntos de interesse público, com a exposição das situações e seus efeitos dentro da trama construída, isto é, o conjunto das experiências de cada personagem que formam a teia de acontecimentos daquele ambiente, investida que a trama de João Emanuel cumpriu bem.

 

CONSTRUÇÃO NARRATIVA

No caso de Avenida Brasil, podemos identificar a personagem Nina, interpretada por Débora Falabella, como a protagonista, com espírito heróico, que corre atrás do que quer, sem medo e disposta a enfrentar os obstáculos e desafios colocados à sua frente. Esse perfil de herói reflete também no Tufão (Murilo Benício), personagem de um ex jogador de futebol famoso que tornou-se rico, mas não deixou de lado suas origens e no mesmo bairro onde cresceu e viveu momentos importantes de sua vida, construiu sua mansão e uma vida nova, de certa forma. “É tipo se vira nos 30. Vida brasileira é assim mesmo. Tem gente que tem até três empregos por dia, dorme em pé, no ônibus ou no trem” diz Nina, refletindo a vida do brasileiro em um dos capítulos da novela.

Ainda, Adriana Esteves dá vida a Carminha, a antagonista principal, oponente que ameaça os planos e a vida da protagonista e personagens próximos ou relacionados a ela. A vilã do universo de João Emanuel Carneiro faz dos próprios sentimentos e interesses o norte para guiar suas atitudes e formas de agir na comunidade em que está inserida, usando dos recursos que tem para articular as situações.

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Além disso, temos como conflito central a vingança de Nina contra Carminha, baseada no ódio contra a antiga madrasta pelos males que esta a causou na infância, em especial, a morte do pai e o abandono no lixão, importante ambiente da trama, enquanto criança. Motivada por essa situação a personagem vivida por Débora passa seus dias planejando como fazer a grande vilã da sua vida pagar por tudo que a fez.

Para isso, ela muda de identidade, deixando para trás a figura de Rita, ex-enteada de Carminha, seus dramas e traumas, para dar lugar a Nina, uma mocinha em potencial que, muitas vezes ao longo da história, assume pitadas de maldade para dar a esperada volta por cima, o grande impulsionador da novela e de muitas outras exibidas em escala popular. Esse pode ser apontado como um dos diferenciais de Avenida Brasil, a “mocinha” transita a todo o momento entre o bem e o mal a partir dos desafios a que se depara, apresentando uma personalidade duvidosa mas que se sustenta no motivo que a levou a desenvolver tais atitudes.

Assim, percebemos uma certa renovação no padrão da binaridade mas que continua por manter esse aspecto marcante que permaneceu até mesmo em uma das avenidas mais movimentadas do Brasil, seja nas telas ou no trânsito carioca.

 

“A Nina é uma personagem muito próximo do real. Ninguém é totalmente bom ou ruim. Ela passou por muitas dificuldades na vida, foi sofrendo um desamparo atrás do outro e entendeu que a culpada disso tudo foi uma mulher que fez muito mal a ela na infância, no caso a Carminha (Adriana Esteves). Acho que ela tem todos os motivos para querer um acerto de contas. O grande sentido da vida dela é esse”

DÉBORA FALABALLE (EM ENTREVISTA AO GSHOW (19.03.12)

Além disso, Carminha, na maior parte da trama, aparece bem arrumada, vestindo roupas claras, elegante, com desvios de caráter que determinam sua personalidade mas com toques de humor e descontração que refletem o jeitinho brasileiro, princípio amplamente presente no discurso brasileiro e repetidamente introduzido na cultura nacional. Enquanto isso, Nina é a mocinha sem graça, com blusas simples e calça jeans, cabelo curto, que muitas vezes passa despercebida. Dessa forma, muitas vezes a vilã assume o papel central de destaque e passou a conquistar o público muito mais do que Nina, por exemplo, uma mudança de protagonismo interessante, corajosa do autor e profissionais envolvidos. 

Em contra partida o “game over”, isto é, o momento de resolução dos conflitos seguiu a linha clássica presente nas telenovelas, reforçando mais uma vez, a perspectiva de bem e mal. Dentre os acontecimentos do esperado desfecho, Carminha, a principal vilã de Avenida Brasil, assume o assassinato de Max, interpretado por Marcello Novaes, passa três anos presa e fica conhecida no lixão, no último capítulo da novela, exibido originalmente na sexta-feira, 19 de outubro de 2012, e em 01 de maio deste ano, marcando o fim da reprise no horário da tarde.

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Até então vilã na trama, Carminha se reconcilia com Jorginho (Cauã Reymond) e Nina, que lhe dão um neto, chamado Jorge Tufão Neto, nome em homenagem ao pai e avô da criança. Em uma das cenas mais emblemáticas do capítulo final, Nina e Carminha trocam pedidos de perdão e se abraçam. “Sempre juntas, esse é nosso destino caprichoso, né?”, diz Carminha, enquanto as duas lavam a louça e preparam café no lixão.

A conclusão da trama sugere um final feliz moderno, com características marcadas dos fim de novelas, isto é, reconciliações, casamentos, formação de famílias, solução de conflitos, porém, apesar de clichê, Avenida Brasil deixou evidente, através das duas personagens mais atuantes na trama, Nina e Carminha, que a ausência, a falta para se sentirem completas estava em um sentimento, o afeto. Fica claro ao telespectador a carência que domina ambas, em especial, no capítulo final, revelando que nenhuma das duas ficaram restritas a um estereótipo, pois ninguém foi apresentado como só mocinho ou só vilão, como na vida real.

Suas representações são trabalhadas apoiadas em outros personagens, Carminha em Max, seu confidente e parceiro para planejar seus próximos passos e esquemas, Nina em Mãe Lucinda (Vera Holtz), figura do cuidado materno, haja visto como era chamada, mulher que acolhe a mesma e vira sua referência enquanto estava perdida.

O interessante é que as representações ficam evidentes na história, Nina e Carminha mostram ao público quando estão sendo verdadeiras, seja pelo sentimento de raiva ou ódio, ou quando estão representando frente à família de Tufão, por exemplo, ou seja, o real e as representações assumem cada um seu lugar, além de confiarem ao público suas intenções, estes que passam a ser parte participante dos fatos e atitudes tomadas.

Ainda, há um esforço de promover uma certa popularização do modo de vida. A família Tufão, por exemplo, era rica mas não tinha hábitos cultos, pelo contrário, se identificavam por costumes populares como tomar cerveja em estabelecimentos do bairro, falar alto, detalhes que parecem tornar fortes as vontades e escolhas de uma classe em processo de mobilidade social. A sensação ao ver a obra é de que a classe média domina os personagens que, independente do núcleo e ambientações, tem o sentimento de pertencimento a esta, bem como os telespectadores em sua vida fora das telas.

SUCESSO NACIONAL
Parte dessa nova estrutura narrativa, a novela Avenida Brasil chegou a atingir picos de audiência de 52 pontos segundo o Ibope. Na última semana de exibição, os capítulos oscilaram na média de 49 pontos, com picos de 51 e 68,4% de share (participação no total de televisores ligados). (O FUXICO, 2012) O último capítulo da telenovela, exibido em 19 de outubro de 2012, atingiu 50,9 pontos de audiência, com pico de 53,8 e share de 72%, representando o recorde de audiência da trama e a maior audiência do ano. (UOL ENTRETENIMENTO, 2012)

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O fato é que todos esses elementos ocuparam a faixa nobre da maior emissora do país em 2012, e agora em 2020, com a responsabilidade de cativar nos telespectadores, personagens e histórias capazes de sensibilizar e aos mesmo tempo, atrair os mesmos. O perigo é pensarmos nos dispositivos usados para alcançar esse feito, por vezes, baseado em estereótipos e cenas comuns que formam e fazem parte do imaginário e da construção social coletiva sobre a vida cotidiana, avançando em alguns pontos mas também, reforçando aspectos dominantes que pouco contribuem para o debate na sociedade.

 

REPRESENTAÇÃO VISUAL

Em Avenida Brasil as apostas fora do padrão podem ser avaliadas a partir de alguns indícios. Várias vezes durante o período de exibição as cenas foram diversificadas com elementos desfocados em primeiro plano, os travellings geralmente caminhavam por vários objetos em primeiro plano até enquadrarem o personagem. Antes, no padrão de composição audiovisual, objetos grandes ganhavam espaço na frente da imagem, enquanto o personagem ficava de fundo ou eram enquadrados na tentativa de deixar de fora parte grande da cena.

Ainda, a iluminação ganhou também potencial narrativo, deixando apenas a função técnica comumente explorada em obras anteriores. Por vezes, ela expressava sentimentos com capacidade de causar sensações específicas no espectador, enriquecendo e complementando a imagem. Na cena emblemática do dia 21 de julho de 2012, em que Carminha enterra Nina, a iluminação avermelhada é claramente montada, mas atribuiu uma atmosfera diferenciada à cena quando relembrada a iluminação convencional.

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Nesta telenovela, a pouca iluminação indicava os momentos de tensão, com os personagens em constante mudança da luz para a sombra. Alguns recursos audiovisuais também foram usados como, por exemplo, a claridade (e a falta dela) para evidenciar a construção das personagens afastadas da noção dualista de opostos, várias vezes os rostos da protagonista e da antagonista assumem duas faces, ou seja, a luz deixa um lado do rosto escuro e o outro iluminado, esclarecendo a dualidade marcante de personalidade das personagens por meios de ferramentas desenvolvidas na imagem e composição audiovisual como um todo. Um exemplo é no capítulo 102, após Carminha revelar que sabe que Nina é Rita. O rosto das duas é iluminado apenas de um lado, deixando o outro escuro.

Com essa proposta, Avenida Brasil revela as emoções envolvidas no processo de produção e montagem. Todos os recursos foram colocados baseados em uma intenção, para demarcar conflito por exemplo. Assim, a cena assume um tom mais perto do real, mais forte para o observador, que sente a tensão presente, afinal, os dispositivos passaram a fazer parte do dia a dia nesta telenovela que marcou época e uma geração, seja no horário nobre ou à tarde, comprovando que valeu mesmo a pena ver de novo.

Mike Faria

mike faria

Jornalista, apaixonado pela liberdade da escrita e poder da leitura. praticante de natação nas horas vagas, encontrou na Cultura o melhor lugar para se expressar.

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