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A União Faz A Força?

A união faz a força?

Na época que a parceria entre Marvel e Netflix foi anunciada, muito foi especulado de qual seria o caminho criativo escolhido para as produções. Depois das confirmações de quais heróis ganhariam suas séries televisivas, as dúvidas residiram na coexistência do universo que viria a ser criado nas telinhas com os filmes consolidados no cinema, e se o tom trabalhado nos longas metragens seria o mesmo das séries do serviço de streaming. Depois de duas temporadas de Demolidor, e uma temporada individual para contar as histórias de Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro, tornou-se claro que o caminho a ser seguido na televisão seria mais sério e soturno do que nos cinemas.

Entretanto, apesar da diferença de tom, o universo televisivo da Marvel e produzido pela Netflix acabou por ter uma “primeira fase” parecida com do MCU. Assim como nos cinemas, em que os heróis foram apresentados em filmes solos para depois se unirem no filme de equipe d’Os Vingadores (2012), os heróis mais urbanos da televisão também se juntaram para uma aventura em equipe na nova série Os Defensores, que ficou disponível no serviço de streaming no final de agosto.

Com isso, alguns dos desafios existentes no primeiro longa dos Vingadores podem ser transferidos para a primeira temporada do novo grupo de heróis, como a necessidade de criar uma boa dinâmica de grupo, fazer com que a a série, em si, fosse mais grandiosa do que cada uma das temporadas individuais, assegurar personalidade para todos os quatro personagens, encerrar o arco de cada um deles de forma que haja um caminho a ser seguido para vindouras continuações em temporadas solos, dentre outros. De modo geral, o primeiro ano de Defensores acaba por ser uma produção extremamente conflitante, que devido a um roteiro inconstante e cenas de ação pouco inspirada, não se assume como o encontro grandioso que era esperado.

Logicamente, a trama se passa alguns meses após os eventos da primeira temporada de Punho de Ferro e aborda cada um dos quatro protagonistas nas mesmas situações em que os vimos pela última vez (nos finais de cada uma de suas temporadas individuais). Danny Rand (Finn Jones) e sua parceira Collen Wing (Jessica Henwick) estão caçando os membros do Tentáculo ao redor do mundo. Jessica Jones (Krysten Ritter) parece ainda sentir o peso de suas últimas ações em sua série, uma vez que ainda não retornou a trabalhar como investigadora particular. Luke Cage (Mike Colter) termina de cumprir sua pena na prisão, estando apto a “seguir em frente”, e Matt Murdock (Charlie Cox) vai levando sua vida de civil, trabalhando como advogado e tentando se manter afastado da vida de herói para se aproximar daqueles que ama.

O roteiro acerta em utilizar dos personagens secundários de cada um dos mundos dos protagonistas para situar o momento vivido, além de reintroduzir o espectador que já assistiu as temporadas anteriores, mas ao mesmo tempo apresenta-los para aqueles que os vêem pela primeira vez. Outro ponto positivo do roteiro é a maneira com que todos os quatro vigilantes entram em contato com o Tentáculo, seguindo motivos diferentes e específicos de suas próprias narrativas, assim como, posteriormente, passam a ter motivações próprias para confrontar a instituição maligna, para só depois se unirem como uma equipe coesa e destinada a impedir que os planos de Alexandra (Sigourney Weaver), líder dos antagonistas, se concretize.

Porém, o plano do Tentáculo não fica claro, em momento algum, qual é. Ao longo dos oito episódios, diversos personagem que compõem o alto escalão da grupo antagonista expõe para os heróis ou para o espectador, em diálogos expositivos forçados, diferentes objetivos a serem alcançados. Existe o risco eminente de destruição de Nova York, mas não há um sentido narrativo estabelecido pelo roteiro do porque este risco existe, não por uma reviravolta escondida no texto da série mas por uma falta de controle no desenvolvimento do enredo. Também, vale ressaltar que grande parte da urgência e peso do Tentáculo são graças as excelentes atuações de Elodie Young, como Elektra, Wai Ching Ho, como Madame Gao e da já mencionada Sigourney Weaver.

A inconsistência do roteiro se repete, também, quando se trata dos heróis da produção. Além de apresentar os personagens e conecta-los de maneira satisfatória, o texto se sobressai nas cenas de interação entre eles. Seja quando os quatro estão juntos, ou em alguns momentos da trama em que as dinâmicas de dupla são mais presentes, as personalidades bem definidas de Demolidor, como um vigilante perturbado, Jessica Jones, como a sempre sarcástica e descrente investigadora, e Luke Cage, como um herói correto e preocupado com os inocentesacabam ajudando o personagem repetitivo e maçante que o Punho de Ferro se mostrou ser.

Por outro lado, a descrença existente entre cada um deles quanto aos poderes e possibilidades dos outros soa extremamente burra e incoerente. Qual o sentido do Demolidor, um cego com sentidos aguçados graças a um acidente envolvendo materiais químicos, capaz de lutar artes marciais com perfeição, duvidar dos poderes de força e resistência de um ex-presidiário que fora cobaia de experimentos científicos; ou então deste mesmo personagem ser descrente quanto ao background místico do Punho de Ferro? Vale mencionar que todas estas dúvidas quanto a veracidade do que cada um deles diz em seus primeiros encontros, soa ainda mais descartável quando lembramos que o universo televisivo da Marvel coexiste com o dos filmes, em um mundo que conhece deuses nórdicos, inteligência artificial maligna, e onde a mesma cidade em que os Defensores habitam já foi invadida por aliens no primeiro filme dos Vingadores.

Uma das “podes de formações” d’Os Defensores apresentada durante uma das cenas do trailer

O que termina por ajudar a dinâmica de grupo dos protagonistas são as ótimas atuações de Charlie Cox e Krysten Ritter. Ele repete a dramaticidade e perturbação de Matt Murdock, demonstrando ainda mais domínio de seu olhar vazio e desfocado como elemento dramático. Ela entrega uma Jessica Jones menos sofrida e amargurada, mas ainda assim ácida e envolvente. Mike Colter tem uma performance pouco inspirada, mas não é tão incomodo como Finn Jones, que não acompanha a melhora considerável que seu personagem tem, entregando uma atuação exagerada e nada orgânica, tornando a imagem de um herói que segura uma grande força mística dentro de si muito forçada.

Mas o principal problema da série se da na sua parte visual. As cenas de ação decepcionam catastroficamente, com movimentos de câmera excessivos e uma montagem baseada na junção de planos curtos com cortes rápidos, que prejudicam a coreografia das lutas, além da baixa iluminação que prejudica a clareza dos embates. Em uma série que conta com personagens que dominam artes marciais, como Demolidor e Punho de Ferro, ver as coreografias de ação serem recheadas de saltos e piruetas, mas pouca visibilidade é triste. A fotografia utiliza de filtros e iluminação com cores muito demarcadas para estabelecer uma identidade visual para cada personagem, principalmente quando aparecem sozinhos, mas tal artifício não acrescenta em nada a narrativa ou a estética da produção.

O que incomoda verdadeiramente é a transição narrativa existente, feita com um quê estilístico para mostrar uma passagem rápida do metrô na cor do próximo personagem a aparecer na trama. É um artifício burocrático e desrespeitoso com o espectador, que parece ser tratado pela série como incapaz de compreender a decupagem do roteiro, que já é muito óbvia por si só. É triste pensar que a Netflix, uma das produtoras responsáveis por melhorar consideravelmente a linguagem televisiva para séries de ficção, recorreu a um artifício destes.

Ao final, Os Defensores é uma série mais genérica do que deveria ser, graças a falta de uma identidade visual e a sequências de ação confusas, além de um roteiro inconstante e raso. O que resta é o acerto da série em construir seus personagens e desenvolve-los ao longo dos oito episódios da nova produção, deixando cada um de seus heróis urbanos prontos para a sequência de suas aventuras, sejam unidos como equipe ou em suas temporadas solos.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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