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A Mente Humana Como Objeto Empírico

A mente humana como objeto empírico

Mindhunter, nova série da Netflix, é uma experiência sensorial. Assim como fez em Seven: Os Setes Crimes Capitais (1995), David Fincher, diretor do longa que produz o programa e comanda a direção de quatro episódios, conjuga elementos de gêneros, principalmente suspense e mistério, em uma produção seriada de investigação policial totalmente diferente do que se vê na indústria. Ao definir um tom lúgubre e um ritmo lento à produção, com um olhar mais contemplativo reproduzido com perfeição pelos diretores que completam a série, MINDHUNTER entrega uma análise de personagem profunda, que sustentada por um trabalho técnico perfeito, transformando-a em uma produção arrebatadora e pungente.

Apesar de se apresentar como uma série de investigação policial, a produção se distancia das demais existentes na indústria ao optar por uma narrativa um ritmo desacelerado, permitindo o estudo psicológico que se propõe a fazer. Situada nos anos 70, a trama, baseada no livro Mindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano, acompanha os agentes do FBI Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), responsáveis por uma pesquisa do setor de Ciência Comportamental da agência federal americana que visa compreender a psiquê de assassinos que cometeram crimes brutais, na tentativa de preparar o departamento policial para reconhecer as circunstâncias que formam um criminoso deste porte. A dupla recebe ajuda da psicóloga Wendy Carr (Anna Torv), que agrega o conhecimento técnico e acadêmico ao projeto, embasando a construção dos perfis que os agentes se dispõem a fazer. Assim, a equipe viaja boa parte dos EUA visitando penitenciarias e entrevistando homicidas dos piores tipos, tentando ao máximo se conectar com os entrevistados e, acima de tudo, encontrar na psicopatia de cada um o gatilho que os fez surtar.

Com cenas de diálogos longas, o roteiro entrega uma narrativa de evolução gradativa, desenvolvida a cada entrevista e, consequentemente, a cada novo aprendizado ou decepção que os agentes conseguem dos encontros. A importância no texto reside nos personagens, seus sentimentos, pensamentos, aflições, decisões e questionamentos, e não na resolução de um mistério ou crime. Ainda, o roteiro trabalha a violência psicológica como forma de prender a atenção do espectador, expondo os impactos que o projeto causa nos protagonistas e em suas vidas pessoais na medida em que vão não só compreendendo a mente dos criminosos, mas precisando emula-la para conseguir um diálogo. É um trabalho de construção de personalidade e desenvolvimento dramático primoroso, fazendo com que todos os personagens sofram transformações profundas e importantes para a trama.

Mesmo que sem cenas de perseguição, tiroteios frenéticos ou lutas bem coreografadas, a série não se arrasta em momento algum graças à intensidade das performances e a toda parte técnica da produção. A fotografia define a estética sombria e pastel, capturando os cenários e ambientações de maneira que tudo parece ser visto por um olhar pessimista. As cenas das entrevista são extremamente bem montadas, alternando cortes e planos curtos em momentos de questionamentos e bate-bocas com planos mais longos para revelações importantes.

A experiência sonora é um show a parte. A trilha sonora de Jason Hill trás músicas consagradas dos anos setenta que terminam por ambientar a narrativa, ao mesmo tempo que da um respiro contrastante à toda atmosfera pesada existente. A edição de som é impecável ao criar efeitos sonoros que dão vida às ambientações, diferenciando cada uma das cadeias ou então cada sala do prédio do FBI, cenários, estes, que são fruto de um design de produção louvável.

O elenco, por sua vez, assegura toda intensidade exigida pelo roteiro nas situações críticas, ao mesmo tempo em que entrega naturalidade e organicidade nas relações pessoais entre os personagens. Jonathan Groff demonstra uma grande amplitude dramática, crescendo junto de seu personagem e revelando nuances de um agente Ford que se deturpa gradativamente com o desenrolar da trama. Anna Tory assegura frieza e sobriedade a cabeça mais pensante do trio de pesquisadores, fazendo de sua personagem uma mulher forte que se impõe em um ambiente masculinizado e violento.

Holt McCallany torna Bill o parceiro experiente e melancólico de Holden, atormentado pelos problemas pessoais que possui em casa. Mas quem rouba a cena é Cameron Britton, ao interpretar o meticuloso e sereno Edmund Kemper, assassino que matou mais de 10 mulheres e era conhecido por ter relações sexuais com os cadáveres das vítimas. A semelhança com o que ator emula os trejeitos físicos e da dicção do homicida chegam a arrepiar, tornando todas as situações em que Kemper está em cena ainda mais viscerais.

A relação de Kemper (a esquerda) e Holden (a direita) é um dos pontos fortes da trama de Mindhunter

Se ao longo dos dez episódios enxergamos a identidade de Fincher em todos aspectos da série, nos fazendo lembrar, naturalmente, de Seven e de Zodíaco (2007), o último capítulo encerra a primeira temporada com um momento intenso, que nos faz remeter a Clube da Luta (1999), e que representa o que todo investimento emocional e psicológico do trio de pesquisadores, e principalmente de Holden Ford, causou. É o ápice catártico de um estudo de personagens e de uma análise psicológica lenta, profunda e arrebatadora, que acaba por apontar como o objeto empírico mais complexo e perturbador possível de ser estudado é a mente humana.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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