O outro lado de Dave Chappelle

O Outro Lado De Dave Chappelle
[tempo de leitura: 4 minutos]

Em “8:46”, o comediante Dave Chappelle abdica do humor para potencializar seu discurso ácido, socialmente engajado e pessoal.


I“Isso é estranho e bem longe do ideal, mas é como precisamos fazer devido a atual circunstância”. É assim que o consagrado comediante Dave Chappelle abre seu mais recente trabalho, produzido em meio à pandemia do novo coronavírus. O show, que está disponível no YouTube, dura pouco mais de 27 minutos. Chappelle usa o espaço que tem para fazer uma reflexão sobre o atual momento dos Estados Unidos, propondo uma perspectiva pessoal e deixando as piadas em segundo plano.

O faz porque, para Chappelle, não é mais preciso se credenciar como humorista. A sua obra é extensa. Começando nos clubes de comédia da capital americana, estudou Arte na Escola de Artes Duke Ellington – instituição que, atualmente, ele próprio ajuda. Presente no consagrado Def Jam Comedy, fez pontas em vários outros programas até realizar seus próprios shows e turnês de stand-up comedy.

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Ganhador de Grammy, Emmy e nome influente no stand-up americano desde os anos 90, o humorista usa há muito tempo sua plataforma para fazer críticas sociais. Tal característica foi o principal fio condutor do Chappelle’s Show – programa de esquetes que ia ao ar pelo Comedy Central. O formato, que se baseava em esquetes com personagens criados por Chappelle e Neal Brennan, criticava de maneira ácida a cultura pop, os estereótipos raciais, política e tudo mais que lhe fosse conveniente.

Em 2019, Chappelle foi premiado com o Mark Twain Prize for American Humor – se juntando a outros consagrados como David Letterman, Richard Pryor, Steve Martin e Whoopi Goldberg. A premiação contempla toda a obra de Chappelle, do início no Def Jam até os especiais de comédia que estão presentes no Netflix.

 

8:46

O novo show, intitulado de 8:46, tem uma abordagem totalmente diferente do humor – ainda que as piadas estejam presentes. O título faz referência ao tempo que o policial Derek Chauvin se ajoelhou no pescoço de George Floy. O assassinato de Floyd por si só já teria grande impacto em Chappelle, homem negro que poderia se ver naquela situação. O simbolismo do tempo deixa ainda mais forte pois, foi também às 8:46 que o humorista nasceu, de acordo com sua certidão de nascimento.

Essa abordagem pessoal norteia praticamente todo o monólogo de Dave. A voz, a postura e até o jeito que repousa o microfone após contar uma piada são características que continuam as mesmas. O jeito rasgado da sua oratória, passando pela tênue linha entre o moral e o imoral, também. A diferença é que o principal tópico não é engraçado.

De maneira direta, Chappelle critica fortemente a violência policial existente no país – principalmente contra os negros estadunidenses. O comediante usa a sua plataforma para expor exatamente o que pensa. Evitando rodeios, ele usa da sua própria experiência para fazer valer os pontos que quer levantar.

O medo é um deles. Dave Chappelle conta como se sentiu apavorado ao presenciar um terremoto em Los Angeles. Apesar de estar em casa, se assustou a ponto de pensar que ia morrer. Quando tal pensamento passou pela mente, ele se proibiu de gritar, sabendo que caso o fizesse, aquela memória vocal seria muito forte – o lembraria do medo que sentiu. Logo após, ele menciona como George Floyd gritou pela mãe, já morta, como sinal de desespero. Refletiu sobre o medo e desespero que levaram Floyd a chamar por uma pessoa já morta.

A crítica se estende a outros casos de violência policial que aconteceram recentemente nos Estados Unidos. Eric Garner, Trayvon Martin, Michael Brown, Philando Castile. Todos foram mortos por policiais e são citados, no contexto da crítica ao modo como a polícia trabalha e como a mentalidade de “guerra ao terror”, instituída pelo exército estadunidense, é prejudicial – citando como essa mesma mentalidade causou vítimas fatais para a própria polícia do país. “Isso não é por um policial, mas sim sobre todos eles”, afirma em certo ponto.

Outra reflexão pessoal, que soa como praticamente um desabafo, é a questão sobre o posicionamento diante da atual situação. “Eu nunca disse nada sobre essas coisas antes?”, questiona o humorista. De fato, é compreensível que pessoas vejam Chappelle como exemplo e esperam que ele se posicione diante das situações – e ele nos lembra que sempre o fez, por meio da sua arte.

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Dave Chappelle em “8:46”

O ponto levantado por Chappelle é que a maior parte das pessoas não estão interessadas em saber o que seu artista favorito pensa. “As ruas têm falado por si”, ressalta. Muito se cobrou de artistas, que ao longo da sua vida toda criticaram racismo e violência, a se posicionarem. Os protestos, deflagrados em função do assassinato de George Floyd, estão entre as grandes manifestações espontâneas da História dos Estados Unidos. Para o comediante, isso basta.

Fica claro que Dave Chappelle não quer para ele um protagonismo que não lhe pertence. No fim das contas, ele consegue sintetizar em uma frase a principal intenção de todo esse especial: “isso não é nada engraçado, mas precisa ser dito”.

Leonardo Parrela

leonardo parrela

um grande bobão que não entende de nada que escreve de tudo.

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