O teatro e as mulheres em situação de cárcere

O Teatro E As Mulheres Em Situação De Cárcere
[tempo de leitura: 4 minutos]

A história oral e teatral da vida de mulheres reintegradas ao convívio social pelo teatro.


DDesde o começo já dá para saber: aquele espetáculo é feito por mulheres, para mulheres, e nada mais coerente e honesto que isso. Logo na primeira fala, as atrizes já informam a necessidade da participação do público, de não olhar para baixo, mesmo que seja difícil, de estar ali por inteiro e ainda, a possibilidade de aceitar um chá, um pedaço de bolo ou até mesmo um abraço, só se a pessoa quiser. “Bem-vindas!”, afirmam elas ao dar início.

É nesse clima que a Zula Cia. de Teatro, por meio das atrizes Gláucia Vandeveld, Kelly Crifer, Mariana Maioline e Talita Braga – esta última que assina a peça – introduzem a apresentação de Banho de Sol, resultado do projeto “A arte como possibilidade de liberdade”. A iniciativa promoveu, durante um ano, todas as terças-feiras, o encontro das artistas com mulheres em situação de privação de liberdade, encarceradas em um presídio feminino em Belo Horizonte, onde o período permitido para sair das celas, duas horas na semana, se transformavam em aulas de teatro e atividades lúdicas.

Por meio dos relatos e dinâmicas feitas durante esse período, as integrantes do grupo trazem ao palco, através da interação com mulheres da plateia e a abordagem documental, as transformações estimuladas em cada uma delas depois dessa experiência. Elas revelam, ainda, a importância do teatro para pessoas que há muito tempo não se deixavam levar pela imaginação e criatividade, por uma música marcante, ou, até mesmo, nunca tinha escrito uma palavra sozinha.

A princípio, a ideia era somente fazer com que essas mulheres tivessem a oportunidade de vivenciar uma experiência artística, momentos de troca, de afeto, de integração entre elas e ver como essas atividades reverberavam no cotidiano delas. Mas a realidade vivenciada por nós foi tão intensa que nos provocou a criação de uma obra, para que esta vivência pudesse fazer ecoar as vozes dessas mulheres em situação de cárcere.”

– TALITA BRAGA, ATRIZ E FUNDADORA DA COMPANHIA DE TEATRO.

Banho de Sol aborda, sobretudo, o reconhecimento dos outros – ou, melhor, das outras enquanto sujeitos, dentro de um contexto em que suas vivências de liberdade tornam-se um ideal, formatado pelos concretos da cadeia e retângulos que parecem configurar os espaços, desde as celas, até a abertura do teto no pátio, moldando também a visão do céu.

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Da esquerda para a direita, Kelly Crifer, Gláucia Vandeveld, Talita Braga e Mariana Maioline, do elenco da peça (Foto: Alexandre Mota)

Dessa forma, Banho de Sol permite ao público reconhecer que até a liberdade passa a ser um privilégio e nós, parte do sistema que, para “ressocializar e preparar os indivíduos para o convívio social”, o colocam em situações precárias e muitas vezes desumanas. Assim, tornam-se invisibilizados pela sociedade, pelo poder público e por nós, que mesmo perto em distância, nos encontramos longe dessa realidade, separados pelos muros do julgamento, da ignorância e dos costumes ainda hoje, excludentes e elitizados.

 

A arte além do palco

Um momento de afeto, escuta e integração que se tornou uma obra com potencial de dar voz às mulheres em situação de cárcere, e mais, ecoar suas narrativas por onde passa, talvez seja essa a melhor definição para a obra teatral de aproximadamente duas horas de duração.

Fato é que Banho de Sol provoca e nos desconstrói de várias maneiras, seja pela empatia que achamos ter, a solidariedade que acreditamos exercer ou, ainda, a humanidade que insistimos em alcançar mas não praticar. Além disso, legitima corpos marcados pelos crimes que cometeram, colocados à margem da sociedade, que, a partir da interação no complexo penitenciário ou das artistas com o palco, adquirem e promovem certa consciência de si e dos outros.

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Encenação em um dos momentos do espetáculo (Foto: Guto Muniz)

O projeto certamente tirou as atrizes da zona de conforto, e vai tirar você também que, depois de assistir a interpretação, irá rever muitos dos conceitos e expressões que ouvimos, ou até mesmo, falamos por aí. Nesse sentido, em tempos de desvalorização e criminalização da cultura, a peça da Zula Cia. de Teatro mostra a intensidade e capacidade do teatro e da arte de forma geral, para reintegrar aquelas mulheres privadas de contato externo, proporcionando, mesmo que apenas uma vez por semana, a socialização e a troca de experiências que ultrapassavam os limites das grades e concretos retangulares da prisão.

Passando pelo diálogo e a valorização dos indivíduos, a realidade potencializada por Banho de Sol inaugura uma nova visualização de poder, deixando para trás a mera forma de punição, para dar lugar a um ambiente de reconhecimento, afirmação e alteridade, isto é, identificar a condição do outro, possibilitando pensar e refletir a partir do lugar alheio.

A verdade é que poderia ser uma de você ali presa, sua irmã, amiga, mãe, esperando por ser enxergada. Ao final do espetáculo não saímos sozinhos, mas sim acompanhados e cercados por vozes daquelas mulheres. Essa tentativa de encurtamento de distância nos leva a refletir nossa relação com os outros, nossa disposição e sensibilidade para nos colocarmos no lugar alheio e ainda, o potencial da arte para ilustrar nosso olhar sobre a vida e sua complexidade. Afinal, depois de assistir Banho de Sol, seu banho de sol nunca mais será o mesmo.

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Cena final do espetáculo “Banho de Sol” (Foto: Guto Muniz)
BANHO DE SOL
O espetáculo Banho de Sol, da Zula Cia. de Teatro (@zula_teatro), foi exibido no Centro Cultural Minas Tênis Clube, durante os dias 17, 18 e 19 de janeiro de 2020, como parte da programação da 46ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança 2020, após temporadas no CCBB de Belo Horizonte e também no Centro Cultural do Minas Tênis Clube anteriormente.
Mike Faria

mike faria

Jornalista, apaixonado pela liberdade da escrita e poder da leitura. praticante de natação nas horas vagas, encontrou na Cultura o melhor lugar para se expressar.

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