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Cara Gente Branca,

cara gente branca,

Após muita polêmica antes mesmo do lançamento, a série Dear White People (Cara Gente Branca, na tradução oficial) estreou na Netflix no primeiro semestre de 2017, tratando, principalmente, do preconceito racial de uma maneira que nenhuma outra produção original do serviço de streaming havia feito. Esse ano, a nova temporada volta à plataforma, mostrando que ainda há muito o que ser discutido. Baseada em um filme de mesmo nome, lançado em 2014, a obra retrata a vida de estudantes negros em uma Universidade em que a maioria dos alunos são brancos. Nesse contexto, o que não poderia deixar de vir à tona são as questões que cercam o cotidiano dos negros nesses ambientes: o racismo.

O roteirista da adaptação e diretor do filme, Justin Simien, segue passando por questões, muitas vezes, não mencionadas em discussões sobre preconceitos étnicos, de uma forma bem didática, o que serve para alcançar um público que está distante desses debates. Com episódios de 30 minutos e dividido por histórias de cada personagem, a aproximação com o espectador fica ainda mais fácil.

Alvo de muitas críticas, a abordagem inicial da trama é uma festa blackface, em que alunos brancos usam seus referenciais de pessoas e cultura negra de forma satírica ou como se fossem fantasias. Embora algumas pessoas levem simplesmente ao pé da letra o blackface como o ato de pintar o rosto de preto, o comportamento de utilizar elementos de uma outra cultura esbarra na questão da apropriação cultural, também tratada na série.

Não é difícil encontrar na mídia, música, moda, ou, até mesmo em universidades, pessoas brancas sendo valorizadas, consideradas estilosas ou autenticas ao apresentarem elementos culturalmente negros. Essa é uma característica do racismo que invisibiliza uma etnia, sobre o pretexto de que características culturais são de livre acesso e uso.

Ainda na primeira temporada, o grande acerto da produção vem em sequência nos episódios 4 e 5. O primeiro, dirigido por Tina Mabry, retrata a personagem Colandrea Conners, mais conhecida como Coco, e permite conhecer um pouco mais da vida da estudante. Interpretada por Antoinette Robertson, a garota pode ser vista, inicialmente, como a personagem mais esquecível da série, no entanto é nesse episódio que o olhar sobre ela muda. Através de Coco, questões como Colorismo, importante discussão do movimento negro que reflete sobre os privilégios sociais de negros com características mais próximas de brancos em relação a outros negros, são retratadas. Como disse Luz Ribeiro, no programa Manos e Minas, “Quanto mais retinto o menino, mais fácil de ser extinto”. Outro aspecto importante desse episódio e talvez o mais tocante é a questão da solidão da mulher negra.

Pauta do feminismo negro, esse tema mostra o esquecimento da mulher em todos os aspectos sociais, a necessidade e a dificuldade de se reafirmar economicamente, estruturalmente e, sobretudo, afetivamente. Um recorte simples desse quadro é retratado quando Coco vê todas as suas amigas brancas sendo escolhidas por garotos para um “encontro” ou, ainda, quando percebe que o então namorado Troy Fairbanks, interpretado por Brandon P. Bell, não quer assumir o relacionamento com ela, mas anteriormente havia assumido o namoro com Samantha White, interpretada por Logan Browning, que possui a pele mais clara. Drama que retorna na segunda temporada, dessa vez, pelo ponto de vista da estudante Joelle Brooks, personagem que ganha vida através da atriz Ashley Blaine Featherson.

A segunda temporada é a primeira vez que Joelle ganha a oportunidade de contar sua realidade em um episódio dedicada à ela

Fora da ficção esse problema continua sendo um obstáculo. Em 1962, Malcom X realizou um discurso em que dizia que “a pessoa mais desrespeitada na América é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida na América é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada na América é a mulher negra”. No Brasil, o Censo de 2010, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que mais da metade das mulheres negras, 52,52%, não viviam em união, independentemente do estado civil.  Esses dois recortes, junto à série, mostram que essa questão ainda é um tema importante a ser discutido.

Se no episódio anterior a dimensão do racismo é explorada, é no quinto episódio que os acertos continuam. Ao tratar de um tema recorrente, como a brutalidade policial em relação a homens negros, a série mostra nessa sequência de capítulos como o racismo pode se revelar para homens e mulheres. Ao apontar um incomodo em uma fala racista de um garoto branco, Reggie (Marque Richardson) sente a humilhação de uma agressiva abordagem policial levada pelo preconceito. Esse momento acontece após o desentendimento entre os jovens depois que o branco se sente ofendido em ser colocado no papel de opressor.

Já na segunda temporada os destaques ficam para os episódios reservados ao personagem de DeRon Horton, o jornalista Lionel Higgins, que ganham um salto de qualidade e amplitude em sua narrativa inquestionáveis. Isso porque, de maneira bem mais elaborada do que na primeira temporada, a sexualidade do estudante entra em pauta. Os questionamentos de um homem negro dentro da comunidade LGBTQ+ e as relações afetivas nesse círculo são exploradas. Uma questão parecida com o preterimento sofrido por Coco, mencionando anteriormente, além do racismo descarado corriqueiramente embutido nesse grupo. Ainda no capitulo destinado ao jornalista é possível perceber outra visão do homem negro, apresentado pelo paralelo entre ele e o personagem Troy Fairbanks, que faz o papel do homem negro forte, viril, desejado apenas como maquina sexual.

Na imagem, a “máquina sexual” Troy Fairbanks (esquerda) conversa com seu colega de quarto, o tímido jornalista Lionel Higgins

Outro destaque é a personagem Rikki Carter (Tessa Thompson). Peça importante e facilmente encontrada na mídia brasileira, ela faz o papel da negra que tenta a todo custo agradar uma população branca racista, para que assim possa se sentir inserida socialmente, mesmo que seja preciso ser contra os próprios negros. Uma espécie de Fernando Holiday da ficção.  Além disso, a serie também apresenta um personagem “Hotep”, termo usado para se referir de forma pejorativa a um negro com visões tidas como extremistas e radicais que questiona a negritude de pessoas mestiças, além de ser contra a interação entre negros e brancos.

A produção também consegue abordar temas super atuais como Fake News e ataques racistas na internet, sofridos por Samantha White, que acabam repercutindo de formas físicas. Situação parecida com o caso de um aluno negro da Faculdade Getulio Vargas (FGV), localizada no centro de São Paulo, que teve sua foto registrada e divulgada por outro aluno da instituição com a seguinte legenda: “Achei esse escravo no fumódromo! Quem for o dono avisa!”.

No novo ano, Samantha tem que lidar com ataques e bullying na internet, decorrente dos acontecimentos da primeira temporada

Com tantos assuntos que, ainda, cercam o preconceito racial a série, disponível na Netflix, possui elementos suficientes para durar várias temporadas e continuar incomodando muita gente.


jader theóphilo

Jornalista, canceriano, apaixonado por Música. adora ser o centro das atenções, mas finge que não. além disso, é devoto de Beyoncé.

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