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Uma História De Amor Ao Zeca 

Uma história de amor ao Zeca 

É impossível resumir a trajetória de sucesso de um dos cantores mais amados do Brasil em apenas duas horas de espetáculo, mas o musical Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba se empenha em fazer um bom retrato da história de Jessé Gomes da Silva Filho, nome de batismo do nosso herói popular.

O musical é guiado pelos santos protetores do nosso sambista, Cosme e Damião, que mostram o nascimento do menino Jessé em Irajá, no dia 4 de fevereiro de 1959, filho de seu Jessé e dona Irinéia, irmão de mais quatro. A história é dividida em estações, como um trem rumo ao sucesso.

A primeira estação é o “Nascimento”, seguida por “Adolescência”, onde conhecemos uma figura importante na vida e formação profissional de Zeca: o tio avô Thybau. Thybau era boêmio incorrigível e apresentou ao menino o prazer de tomar uma cerveja gelada ouvindo música de qualidade. É também na juventude que Zeca conhece o “seu Velha Guarda” figura mitológica da Portela, sua escola de samba de coração.

A próxima estação é a “Malandragem”, responsável por mostrar que sua carreira como bicheiro (ou ‘corretor zoológico’, como o próprio se define). A esbórnia, bebedeira e ressaca são sempre presentes, mas começamos a conhecer um Zeca versador, se entregando às rimas de um samba partido alto. São destaque suas composições junto à amigos: SPC (que nomeia o seu primeiro LP), Delegado Chico Palha, Bagaço da Laranja e Faixa Amarela.

A última estação é a “Sucesso”, onde vemos o encontro de Zeca com a Madrinha Beth Carvalho. No Cacique de Ramos, a dupla canta um dos maiores sucesso do samba Camarão que Dorme a Onda Leva, sua primeira composição gravada. Nessa época, o nosso sambista não ostentava uma barriga redonda de cerveja e ainda tinha medo de microfone. Outros parceiros também são citados como Beto Sem Braço, Almir Guineto e Elton Medeiros, seus professores no mundo do samba.

Foto: Victoria Dannemann

A trajetória de Zeca continua pelos sambas criados, problemas com gravadoras, imprensa marrom, discos de ouro, platina e Grammys Latinos. O retrato de Xerém e sua simplicidade é ponto alto do espetáculo e ilustra a essência humilde do cantor. O sincretismo religioso também é presente. O sambista abusa da proteção de santos católicos, patuás, orixás e sereias. Tudo junto e misturado. Um dos momentos mais bonitos da peça é quando entoam a canção Ogum, uma espécie de oração sempre cantada nos show de Zeca.

O musical traz falas do próprio cantor, reconhecida pelos fãs de imediato. Entre elas, destaque para a pergunta clássica que tanto incomoda o nosso sambista e tantas vezes repetida em programas de tevê: “Você pode nos falar qual a diferença entre samba enredo, partido alto e pagode?”. A resposta é sempre a mesma “Olha, é tudo igual, mas é diferente”. Além disso, Zeca participa do espetáculo como um fantasma tecnológico que instrui e orienta a ele mesmo, uma interação que garante o humor e leveza da peça.

Os 13 atores se saem muito bem nos papéis que desempenham. O destaque, é claro, é para os atores Peter Brandão e Gustavo Gasparani (que também assina o texto, roteiro e direção geral) que interpretam o protagonista em sua fase jovem e adulta, respectivamente. O jovem Zeca emposta melhor a voz, e o mais maduro interpreta os trejeitos do original com naturalidade. A cenografia e figurinos são bonitos e bem feitos, com texturas palpáveis e cores vivas.

Embora seja difícil retratar toda a carreira de Zeca em duas horas, os principais sucessos estão presentes como Verdade, Deixa a Vida me Levar e Vai Vadiar. Em contra partida, a vida pessoal fica um pouco de lado: seu casamento e a chegada dos filhos não são mostrados. Ainda que os filhos sejam citados por vezes na peça, a esposa Mônica não aparece, ficando até mesmo difícil dizer, ao menos, como eles se conheceram.

Outra questão que fica sem resposta é como Jessé Gomes da Silva Filho passa a se chamar Zeca Pagodinho. Para quem é fã, a história é banal; porém, quem não conhece a fundo a trajetória do artista fica sem resposta, até porque ele é chamado pelo nome de batismo durante a peça inteira. Também há pouca ou nenhuma referência ao seu amigo e compadre Arlindo Cruz.

O musical agradou o público mineiro e tem fôlego para conquistar novas plateias, com a sessão de BH (e esperamos que a das outras cidades também) sendo acessível e contando com tradução simultânea para linguagem de libras.

Zeca Pagodinho ao lado dois dois atores que o interpretarão no musical “Zeca Pagodinho — Uma história de amor ao samba”, Peter Brandão e Gustavo Gasparani

Zeca Pagodinho ao lado Peter Brandão (esq.) e Gustavo Gasparani (dir.), que o interpretam no musical

Quem gosta de Zeca e de um bom samba não pode perder. E quem não gosta de samba… bom sujeito não é.


Diandra Guedes

Jornalista formada pela PUC Minas, 23 anos, pisciana. Apaixonada por Cultura em geral, em especial, Teatro. Ama uma Série bem escrita e outra bem boba para relaxar. Fãzona de MPB e Samba.

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