Uma história de amor ao Zeca 

Uma História De Amor Ao Zeca 
[tempo de leitura: 4 minutos]

É impossível resumir a trajetória de sucesso de um dos cantores mais amados do Brasil em apenas duas horas de espetáculo, mas o musical Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba se empenha em fazer um bom retrato da história de Jessé Gomes da Silva Filho, nome de batismo do nosso herói popular.

O musical é guiado pelos santos protetores do nosso sambista, Cosme e Damião, que mostram o nascimento do menino Jessé em Irajá, no dia 4 de fevereiro de 1959, filho de seu Jessé e dona Irinéia, irmão de mais quatro. A história é dividida em estações, como um trem rumo ao sucesso.

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A primeira estação é o “Nascimento”, seguida por “Adolescência”, onde conhecemos uma figura importante na vida e formação profissional de Zeca: o tio avô Thybau. Thybau era boêmio incorrigível e apresentou ao menino o prazer de tomar uma cerveja gelada ouvindo música de qualidade. É também na juventude que Zeca conhece o “seu Velha Guarda” figura mitológica da Portela, sua escola de samba de coração.

A próxima estação é a “Malandragem”, responsável por mostrar que sua carreira como bicheiro (ou ‘corretor zoológico’, como o próprio se define). A esbórnia, bebedeira e ressaca são sempre presentes, mas começamos a conhecer um Zeca versador, se entregando às rimas de um samba partido alto. São destaque suas composições junto à amigos: SPC (que nomeia o seu primeiro LP), Delegado Chico Palha, Bagaço da Laranja e Faixa Amarela.

A última estação é a “Sucesso”, onde vemos o encontro de Zeca com a Madrinha Beth Carvalho. No Cacique de Ramos, a dupla canta um dos maiores sucesso do samba Camarão que Dorme a Onda Leva, sua primeira composição gravada. Nessa época, o nosso sambista não ostentava uma barriga redonda de cerveja e ainda tinha medo de microfone. Outros parceiros também são citados como Beto Sem Braço, Almir Guineto e Elton Medeiros, seus professores no mundo do samba.

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Foto: Victoria Dannemann

A trajetória de Zeca continua pelos sambas criados, problemas com gravadoras, imprensa marrom, discos de ouro, platina e Grammys Latinos. O retrato de Xerém e sua simplicidade é ponto alto do espetáculo e ilustra a essência humilde do cantor. O sincretismo religioso também é presente. O sambista abusa da proteção de santos católicos, patuás, orixás e sereias. Tudo junto e misturado. Um dos momentos mais bonitos da peça é quando entoam a canção Ogum, uma espécie de oração sempre cantada nos show de Zeca.

O musical traz falas do próprio cantor, reconhecida pelos fãs de imediato. Entre elas, destaque para a pergunta clássica que tanto incomoda o nosso sambista e tantas vezes repetida em programas de tevê: “Você pode nos falar qual a diferença entre samba enredo, partido alto e pagode?”. A resposta é sempre a mesma “Olha, é tudo igual, mas é diferente”. Além disso, Zeca participa do espetáculo como um fantasma tecnológico que instrui e orienta a ele mesmo, uma interação que garante o humor e leveza da peça.

Os 13 atores se saem muito bem nos papéis que desempenham. O destaque, é claro, é para os atores Peter Brandão e Gustavo Gasparani (que também assina o texto, roteiro e direção geral) que interpretam o protagonista em sua fase jovem e adulta, respectivamente. O jovem Zeca emposta melhor a voz, e o mais maduro interpreta os trejeitos do original com naturalidade. A cenografia e figurinos são bonitos e bem feitos, com texturas palpáveis e cores vivas.

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Embora seja difícil retratar toda a carreira de Zeca em duas horas, os principais sucessos estão presentes como Verdade, Deixa a Vida me Levar e Vai Vadiar. Em contra partida, a vida pessoal fica um pouco de lado: seu casamento e a chegada dos filhos não são mostrados. Ainda que os filhos sejam citados por vezes na peça, a esposa Mônica não aparece, ficando até mesmo difícil dizer, ao menos, como eles se conheceram.

Outra questão que fica sem resposta é como Jessé Gomes da Silva Filho passa a se chamar Zeca Pagodinho. Para quem é fã, a história é banal; porém, quem não conhece a fundo a trajetória do artista fica sem resposta, até porque ele é chamado pelo nome de batismo durante a peça inteira. Também há pouca ou nenhuma referência ao seu amigo e compadre Arlindo Cruz.

O musical agradou o público mineiro e tem fôlego para conquistar novas plateias, com a sessão de BH (e esperamos que a das outras cidades também) sendo acessível e contando com tradução simultânea para linguagem de libras.

Zeca Pagodinho ao lado dois dois atores que o interpretarão no musical “Zeca Pagodinho — Uma história de amor ao samba”, Peter Brandão e Gustavo Gasparani
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Zeca Pagodinho ao lado Peter Brandão (esq.) e Gustavo Gasparani (dir.), que o interpretam no musical

Quem gosta de Zeca e de um bom samba não pode perder. E quem não gosta de samba… bom sujeito não é.


diandra guedes

Jornalista, mineira, pisciana e apaixonada por Cultura em geral. ama teatro, séries e é fã de MPB e samba.

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