Um canto para a liberdade

Um Canto Para A Liberdade
[tempo de leitura: 5 minutos]

Não se pode dizer ao certo qual foi o episódio mais detestável da humanidade, mas a escravidão negra certamente entra na lista. Com a necessidade de uma mão de obra para extrair metais preciosos dos países recém descobertos, o tráfico de pessoas para o trabalho forçado foi se tornando cada vez mais comum e não demorou muito para que os países colonizadores europeus retirassem a força cidadãos africanos, inserindo-os de forma mandatória em tal prática. E não foi diferente nos Estados Unidos.

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Muddy Waters é um dos primeiros nomes de grande reconhecimento no Blues. O músico morreu em 1983.

Tendo sido proibido o tráfico e comércio de escravos desde 1808, a prática não havia se extinguido e era exclusivamente utilizada na região Sul do país. Em 1820, é criado o tratado de Missouri, que divide o país em região Sul, totalmente a favor da escravidão e tinha sua economia e sistemas baseados em mão de obra escrava, e região Norte, que era abolicionista e não dependia de mão de obra escrava. Essas duas regiões disputariam, em 1861, o que ficaria conhecido como Guerra Civil Americana e acaba com a vitória da Região Norte dos Estados Unidos e abolição da escravidão do país de uma vez por todas.

O choque de cultura entre os escravos e os americanos e o processo de adaptação forçada que os africanos tiveram que passar trouxeram diversas mudanças de hábitos e a criação de novos que são usados até hoje. De certa forma, também foi se construindo uma espécie de cultura própria por parte dos escravos, que pouco a pouco iam formando uma identidade em vários aspectos, na intenção de preservar os hábitos de sua nação e também de se apropriar de hábitos novos dos americanos. Na música, esse fenômeno foi peça fundamental para a formação do movimento musical que moldaria toda a música moderna, do século XX em diante. O Blues, movimento que tem sua origem total pelos escravos, é um passeio pela história de sofrimento e angústia de todos aqueles que sofreram com os tempos difíceis de tirania e maldade humana, além de ser um refúgio para aqueles que sofrem com os resquícios sociais desse infeliz período, buscando forças onde não se tem.

 

Som Transgressor

Considerado o “pai do rock”, o Blues foi o primeiro movimento musical que se consolidou depois do rompimento com o tradicionalismo e a metódica que se vivia até então. Assim como qualquer movimento artístico, a música moderna se opôs a tudo que pregava a música tradicional. Se antes se faziam arranjos de melodias que expressavam sentimentos e mensagens que o compositor queria transmitir, agora as melodias seriam cantadas, sem seguir as escalas tradicionais (ou, às vezes, adaptando-as), e vários instrumentos acompanhariam esse canto. Se a música “clássica” prega o individualismo do criador perante a arte, agora a música pregaria a coletividade de tal forma que seria impossível se reproduzir uma música sozinho, como se podia fazer no piano.

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No hall do blues, B. B. King é um dos nomes mais conhecidos do gênero musical. O artista faleceu em 2015

Surgiriam conceitos como as bandas, “guitarra base” e “guitarra solo”, e uma das vertentes disso tudo seria o melódico, melancólico e histórico Blues. Sua origem vem dos escravos que, ao trabalhar, cantavam canções que contavam histórias que os lembravam de casa, ou até mesmo histórias sobre maldades feitas contra eles pelos seus donos, chamadas “work songs”, pois os ritmos dessas canções eram sempre marcados pelo barulho de suas ferramentas batendo. Como o caso da música Hoe Emma hoe, que conta a história de uma mulher que tentou fugir e teve que cavar a própria cova.

Não se sabe onde exatamente surgiu o Blues, apenas que foi no Sul, por ainda ser escravocrata. Há quem diga que os famosos floreios do blues têm sua origem na voz que os escravos faziam ao cantarem e serem chicoteados, por isso o excesso de vibrato na voz de quem canta. A estrutura musical que se consolidaria com o passar do tempo consistia em três acordes separados por 5 notas cada, solos melódicos e pausados de escala pentatônica e letras sempre acompanhadas de histórias passadas e de tristeza, o que dá origem ao nome, uma variação de “blue”, que significa triste, melancólico, trágico. Todas palavras que descrevem muito bem a letra e a carga que a história desse estilo carrega.

Uma das histórias mais pessoalmente comoventes entre as letras, é a história de Follow the drinking Gourd. A época de criação da música não é datada e os nomes por trás da obra também não são conhecidos, mas o tema referente à letra e o sofrimento de quem a criou são facilmente reconhecidos ao escutar a canção. Na época da escravidão nos Estados Unidos, os escravos se comunicavam por códigos. Um desses códigos veio em formato de música. Follow the Drinking Gourd é uma canção que faz referência à uma espécie de cuia, usada pelos escravos para beber água. Esse recipiente se assemelhava com a constelação da Ursa Maior, que apontava para o Norte. A música então foi composta como uma forma de encorajar e guiar os escravos que fugiam do Sul em direção ao Norte, que já havia abolido a escravidão na época, os “guiando para a liberdade”.

Com o passar do tempo, a escravidão foi abolida e os negros migraram para o subúrbio, o que deu ao Blues uma roupagem moderna suburbana, com temáticas relacionadas ao sofrimento existencial e à relacionamentos desastrosos, não largando nunca a característica melancólica. Não é preciso dizer que o preconceito fruto da escravidão também migrou para a música e os cantores pioneiros de blues que gravaram seus discos sofreram muito com isso, sendo pouco reconhecidos e glorificados pelo seu trabalho.

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É impossível falar do blues sem lembrar de Etta James (1938-2012), voz por trás da mundialmente famosa “At Last”

O Blues se ramificou, acelerou, mudou a temática, se enfureceu e virou o querido e conhecido Rock’ n’ Roll. Com temáticas já alegres e ritmos acelerados e explosivos, esse sim foi abraçado, em partes, pela população e reconhecido pelo público. O canto desesperado daqueles que lutavam pelas injustiças e atrocidades cometidas por questões de cor de pele e demonstração de poder pode ter dado indícios de ter se perdido na memória musical, mas o emblema de luta e resistência será sempre eternizado por aqueles que sabem a marca e dor que todas as letras carregam e o rastro de ódio que esse momento da história deixa até hoje. Para muitos, tal momento deveria ser apago. Mas que fique eternizado. Que seja um aviso sobre o quão malévola a humanidade é capaz de ser e, ao mesmo tempo, diante de um momento tão nefasto, nos trazer histórias lindas em tons que oscilam entre o melódico e o agressivo. O Blues é uma cicatriz que vez ou outra as pessoas insistem em cutucar, e só quem carrega essa marca sabe o tamanho da dor.


Guilherme Rodrigues

guilherme rodrigues

estudante de Jornalismo, 21 anos, Músico e apaixonado por Cultura Pop.

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