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Admirável VMA Novo?

[tempo de leitura: 5 minutos]

Em tempos de pandemia e movimentos antirracistas, discursos fortes e posicionamentos sensíveis assumiram a linha de frente do MTV VMA.


SSe o slogan “comunidade, identidade e estabilidade” sustenta a trama da organização social de Admirável Mundo Novo, clássico distópico da literatura mundial, escrito por Aldous Huxley, podemos dizer que na edição deste ano do MTV Video Music Awards (VMA, no curto), a premiação musical da MTV norte-americana, não foi muito diferente.

Assumiram o destaque aqueles que souberam manter o equilíbrio em meio a tantas incertezas, sobretudo no meio artístico, que combinaram autenticidade com o ritmo comercial da indústria, fragilizado pelo distanciamento social. E, ainda, quem manteve forte a conexão em comunidade, o “nós” que nos trouxe até aqui.

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Lady Gaga marcou o evento com diferentes e criativas máscaras.

O livro de Huxley, visto por muitos como uma crítica aos EUA, com sua influência baseada na cultura de massas e o Modo Americano de Viver, poderia certamente ser uma das inspirações para a recente edição do prêmio, lançando essas mesmas questões em projeção global – aliás, o desafio sanitário é comum para todo o mundo.

VIDEO MUSIC AWARDS 2020

Se alguém duvidava, o VMA 2020 comprovou: música vai muito além de apenas entreter, deixar aquele trecho ou a tal batida chiclete na cabeça do público. As máscaras deixaram apenas as festas de fantasia e o cotidiano atual, invadiram o tímido tapete vermelho e lançaram tendências nas apresentações e aparições dos artistas (Lady Gaga que o diga).

Neste ano, mais do que antes pelo contexto contemporâneo, não sobrou espaço para interpretações, discursos vazios e entretenimento apenas. A urgência das ruas, dos cidadãos pretos estadunidenses e a sensibilidade social, principalmente com os efeitos do coronavírus, ganharam evidência e tornaram a noite emotiva.

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Ariana Grande e Lady Gaga durante apresentação de “Rain On Me”

O destaque de premiações foi Lady Gaga, a principal vencedora com cinco troféus. Entre eles, Artista do Ano e Música do Ano, com Rain On Me, em parceria com Ariana Grande – colaboração que ainda levou os prêmios de Melhor Colaboração e Melhor Direção de Fotografia.

The Weeknd, por exemplo, se destacou com fala clara e rápida em referências aos ataques policiais direcionados a pessoas negras nos EUA. “Para mim, é realmente difícil comemorar e curtir este momento, então vou dizer apenas: justiça para Jacob Blake e justiça para Breonna Taylor”, disse o artista canadense, vencedor do principal prêmio do VMA, o de Clipe do Ano, e de Melhor Vídeo de R&B, ambos por Blinding Lights. Esta, inclusive, foi a música que abriu o evento, com direito a performance no alto de um arranha-céu em Nova York.

A nostalgia também não ficou de fora e tomou conta da performance de Miley Cyrus que, durante os versos de seu mais recente lançamento, Midnight Sky, se pendurou em um globo de discoteca e relembrou o icônico clipe de Wrecking Ball, sucesso de 2013, sem deixar de lado a postura provocativa. A artista, de certa forma, se reinventou e transformou as angústias de sete anos atrás no brilho de sua atual canção, recolhendo os cacos e lançando ao público e fãs sua forte metáfora.

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The Weeknd em performance de “Blinding Lights”

Lady Gaga ainda trouxe a inovação e irreverência, aspectos marcantes de sua trajetória, também para as roupas e acessórios usados a cada momento para receber um prêmio. Máscaras personalizadas, detalhes com brilho, LED e até uma imitação de presas de mamute chamaram a atenção na presença da artista, que, sem dúvida, não passou despercebida.

LEGADO

Mais do que apresentações marcantes e o contato mais próximo do público neste momento, o VMA 2020 evidenciou alguns aspectos capazes de nos ajudar a entender os próximos rumos da cultura em tempos distópicos, não só na literatura aparentemente.

Os dois artistas de principal destaque, Gaga The Weeknd, continuaram mantendo contato com o público a partir de trabalhos que sonorizam limitações, dores e tocam nas emoções profundas que estamos vivendo. Honestidade e verdade tomaram conta de Chromatica After Hours, recentes álbuns de ambos, e consequentemente os aproximaram do reconhecimento.

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CNCO em apresentação de “Beso”, realizada em um drive-in do VMA.
EMPODERAMENTO
“Quero dividir esse prêmio com todos que estão em casa essa noite. Eu espero que vocês saibam que vocês também podem fazer isso. Estamos separados agora e a cultura pode parecer menos viva de alguma forma, mas sei que o renascimento está chegando, e sei que a cultura pop vai inspirar todos vocês. A força da arte vai empoderar todos vocês”, declarou a cantora de Chromatica após ter seu nome anunciado por Bella Hadid para receber o prêmio honorário Tricon Award, por sua relevância e contribuição à cultura pop contemporânea. Ela ainda defendeu o uso de máscaras em um dos discursos e mostrou que, pelo menos por alguns instantes, fez mais que muito representantes ao redor do mundo.

Também, a edição 2020 do VMA marcou um novo passo com a inclusão da categoria Clipe Caseiro. O troféu ficou para Ariana Grande e Justin Bieber, com Stuck With U, e avançou no olhar para materiais feitos longe dos grandes estúdios, com muitos recursos e efeitos visuais. Ponto para as produções independentes e experimentais que assim podem se aproximar do grande público, mesmo que ainda estas estejam ligadas aos artistas já muito conhecidos nas paradas e premiações.

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Miley Cyrus em apresentação gravada com a música “Midnight Sky”

Nesse sentido, a cada categoria anunciada percebíamos como as mensagens contaram muito para as indicações e vencedores. Se apenas uma delas, Clipe com Mensagem, levada por H.E.R. com I Can’t Breathe, era direcionada objetivamente a isso todas as outras pareciam refletir sobre a carga social das produções.

MUDANÇAS

Apostando em apresentações gravadas para compor também o cronograma, o prêmio perdeu a potência do risco do real, as surpresas da interação direta e presencial com o público, mas ganhou ao manter o evento para refletir sobre a música, a cultura e nossa saúde para continuarmos em meio a tantos desafios.

Com a plateia drive-in durante algumas apresentações, o MTV Video Musical Awards 2020 deixou um gosto de quero mais, a falta de tudo que um evento dessa dimensão traria em condições anteriores, como encontro de artistas, tapete vermelho badalado e apresentações mais enérgicas. Mas ao mesmo tempo, vemos a oportunidade para pensar a arte e nossa relação em comunidade para além da música e os lançamentos em movimento comercial para atingir números e faturar prêmios.

Ganharam os que passaram verdade, se conectaram por vivências comuns e atuações que superaram, e até mesmo, ritmizaram as adversidades. Talvez uma das falas de Gaga foi a que melhor resumiu o sentimento ao final do VMA: “Desejo que você pense em três coisas agora que definem quem você é, e reserve um momento para se recompensar por sua bravura. Este não tem sido um ano fácil pra muita gente, mas o que vejo agora é um triunfo de coragem. Espero que me vejam e saibam o quanto sou grata, quero que saibam que vocês podem fazer também”. Afinal, todos ganhamos.

Mike Faria

mike faria

Conectado com a potência das narrativas e a sensibilidade social encontrou no Jornalismo o melhor lugar para se expressar, junto a prática de natação nas horas vagas e as distopias para lidar com a realidade.

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