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Um Show De Empatia

Um show de empatia

“É uma história bem simples. Há 10 anos quando eu sentei na cadeira com um terapeuta fui diagnosticado com depressão. Tinha depressão e ansiedade. Nós vivemos em um mundo no qual as pessoas escondem isso. Elas escondem em seus corações porque pensam que é uma fraqueza.  Estar deprimido não é uma fraqueza. Faz parte da minha vida, mas não me define e não me impede de fazer nada do que eu amo. Eu divido isso com vocês porque existem centenas entre nós essa noite que ou estão lidando com a depressão e ainda não sabem ou eles estão no meio disso, é cinza, é paralisante. Eu entendo vocês. Sua vida sempre vai valer a pena ser vivida. Nunca a tire de nós. Por favor, por favor, por favor. Não guarde isso dentro de vocês. Fale com sua família, fale com seus amigos, se conseguirem arrumem um terapeuta. Nós não deveríamos estigmatizar isso em nossa cultura nem por mais um dia.”

Dan Reynolds

 

A expectativa para o show da banda Imagine Dragons era de mais uma grande perfomance no palco Onix, com grandes sucessos, efeitos visuais e certa interação com os fãs. Porém, o que cada um recebeu foi muito mais do que isso. Momentos de pura catarse se espalharam pela multidão ao ouvir o desabafo de Dan Reynolds, vocalista da banda, no Lollapalooza 2018. Ansiedade, depressão. Quem não conhece alguém que sofre com essas doenças ou sabe o que é enfrentá-las de perto?! Mas, mesmo sendo muitas, elas ainda se sentem sozinhas. Reféns de seus próprios pensamentos. E, um show que deveria livrá-las destes a partir da diversão, as consolou através da empatia e de um discurso sincero.

Da esquerda pra direita: Dan Platzman, Ben McKee, Wayne Sermon e Dan Reynolds

 

Setlist Renovadora

BELIEVER // Catarse pelos sonhos reprimidos. Pelos discursos de ódio que cada um recebe pelo seu modo de viver e ver a vida. Por aqueles que têm apenas a si próprios para se obrigarem a serem fortes. A acreditar. A persistir. Para enxergar que a dor e as dificuldades vêm para enobrecer a conquista. Àqueles que sofrem pelo desvio, mas que precisam ser arrogantes para defender os seus sonhos. Pelos anseios que são força única para tirar o corpo da cama e lutar.


IT’S TIME // Catarse pela necessidade de se firmar como quem se é verdadeiramente. Nunca mudar pela vontade dos outros, para o agrado de todos que não estão nesse mundo para ser você. Mudar no sentido moral é dever evolutivo. Mudar no sentido que fere é afronta ao dom da vida.  Pelas inúmeras e dolorosas justificativas. Por ter de provar a própria razão. Pelo som que reverbera o pavor de decepcionar a ninguém. Principalmente ao que é reflexo no espelho.


WHATEVER IT TAKES // Catarse pela disposição de encarar seus problemas, mesmo quando tudo parece desfazer-se diante dos olhos. Pela vontade de fazer tudo que for preciso pela satisfação de superar-se sempre. Que o corpo é muito pouco perto de tudo que temos de bagagem moral, espiritual e emotiva. Porque nascemos pelo que escolhemos ser. Nada mais.


YESTERDAY // Catarse por ouvir uma multidão em uníssono que o hoje, o agora, é o que realmente importa. Pela energia positiva ter guiado ao agradecimento de peito aberto ao passado. Por adquirir a momentânea consciência de que o presente é resultado de antigas escolhas. E, que o presente é o passado do que ainda será. Por brindar o futuro abrindo mão de controlá-lo. Ao vislumbrar que a dedicação valerá a pena, quando abraçar a dádiva do presente e se despedir de quem foi. Ao conseguir enxergar que o futuro é a caminhada diária e não o destino final. Todo dia, “fui”, “sou” e “serei”.


NEXT TO ME // Catarse ao escutar que nunca estamos sozinhos e lembrar-se de alguém que sempre foi companhia e casa. Ao sentir uma onda de gratidão preencher o peito no instante que a lembrança veio a mente. Por aceitar que comete erros e que é imprescindível se redimir por eles. Pela vontade súbita de perdoar e reatar laços. E, talvez, por poder olhar para o lado no exato momento em que a música tocava e enxergar uma pessoa essencial.


DEMONS // Catarse ao ver uma pessoa bem sucedida assumir que já se sentiu impotente. Por ver que mesmo aqueles com tantos admiradores podem acordar em dias cinzas. Por ouvir que se sentir perdido pode ser algo transformador e não um problema. Por reunir forças para assumir seus maiores defeitos, mas quando olhar para dentro, enxergar também toda a luz que tem para emanar.


THUNDER // Catarse ao chorar o cansaço de decepcionar tantas expectativas equivocadas. Por ir contra a corrente e conquistar. Por ser raio antes do trovão. Pelos planos que não são apenas da imaginação, mas sim, previsões de um futuro certo. Ao mentalizar o rosto dos que apóiam hoje e como serão as expressões quando os do time oposto forem surpreendidos.


Independente de gênero, ideologia política, orientação sexual, religião ou qualquer posicionamento que gere reações intolerantes. Todos dotados de sonhos e medos, sentimentos que quase sempre andam juntos pelo determinismo da mudança, foram abraçados e puderam se libertar em lágrimas. Não de felicidade, nem de tristeza. Cada choro continha um prazer que só o alívio provê. O alívio sentido quando há compreensão, em qualquer aspecto, sob qualquer falta cometida. Sob qualquer trauma a ser trabalhado. Dan Reynolds também falou sobre homofobia, guerras por poder e os homicídios em massa que tem acontecido no mundo inteiro. Quando o diálogo pauta qualquer uma dessas doenças que assolam a humanidade, apenas se adéquam aplausos. E, em muitos momentos as palmas fervorosas do público eram tudo que podia ser ouvido.


O Legado da Banda

Em 2011, as vidas dos integrantes da banda se cruzaram com as de Tyler Robinson e seus familiares. Tyler na época tinha 16 anos e lutava contra um tipo raro de câncer fazia cinco anos. Como grande fã da banda, ele sempre comparecia às apresentações e um dia seu irmão mais velho mandou uma mensagem a Dan Reynolds, contando a história de Tyler e avisando que eles estariam presentes no show daquela noite. No texto ele não pedia nada, mas sensibilizado com mensagem, o grupo dedicou a Tyler sua música preferida e ao final, os irmãos puderam conversar com eles no camarim. Após esse encontro, uma forte amizade nasceu.

Aos 17 anos, Tyler recebeu a notícia de que estava curado, mas quatro meses depois, ele faleceu devido a complicações de tumores que haviam invadido seu cérebro. Foi ai que a banda, juntamente a família do garoto, fundaram a Tyler Robinson Foundation cuja missão é fortalecer famílias, emocional e financeiramente, enquanto elas enfrentam o câncer pediátrico, arrecadando doações para cobrir os gastos com o tratamento. A cada dois minutos uma criança é diagnosticada com câncer nos Estados Unidos e a fundação já conseguiu ajudar 37 famílias em vários estados do país desde seu início em 2013.

No show feito no Lollapaloosa 2018, Dan ergueu a bandeira LGBTQ+ entoando uma frase sobre amor e igualdade

“Estou cansado da intolerância. Nós estamos dizendo por anos, mas a raça humana ainda não entendeu. Que nós sejamos um mundo de amor e igualdade”, foi  a mensagem que ficou como dever a todos que lá estiveram, aos que assistiram pela televisão e aos que se importam em fazer a diferença em um mundo tão quebrado. Dan Reynolds foi um anfitrião perfeito. Com graça, gentileza, entrega e uma explosão de energia positiva, conquistou cada coração cansado das batalhas, e os fortaleceu para vencer a guerra. Mostrou o caminho, e todos voltaram ao que eram por essência. Enquanto o significado de Festival de Música também regressava às suas mais profundas origens.


ruth berbert

estudante de Jornalismo, aspirante a atriz, mas minha vocação mesmo é ser amiga. o universo ideal certamente é o Cinema, onde se equilibra na tênue corda que a conecta aos seus sonhos.

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