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Elis Regina e os 60 anos de estreia da Pimentinha

[tempo de leitura: 9 minutos]

Marcando os 60 anos de carreira em 2021, Elis Regina segue com um enorme legado musical para a MPB e a cultura brasileira como um todo.


EEm 17 de março de 1945, nascia Elis Regina Carvalho Costa, em Porto Alegre. Com ascendência portuguesa por parte de mãe e indígena pelo seu pai, seu nome Elis só ganhou o complemento Regina porque, na época, o cartório proibia nomes andrógenos.

 

O Começo

Dizem que aos três anos já falava cantando e logo aprendeu os sambas-canção de Ângela Maria, Emilinha Borba e Cauby Peixoto, que tocavam no rádio na época. Aos sete anos, foi levada ao programa Clube do Guri, um programa infantil da Rádio Farroupilha. No ensaio, entrou em pânico e pediu para voltar para casa. Quatro anos depois, retornou ao programa e impressionou a produção. Passou a se apresentar de forma regular no programa, sem cachê, junto com outras crianças.

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Logo foi contratada pela Rádio Gaúcha e dividia seu tempo cantando em diversas boates. Em 1960, Elis Regina foi eleita a Melhor Cantora do Rádio – o primeiro de muitos reconhecimentos – em um concurso da Revista de TV, Cinema, Teatro, Televisão e Artes. No ano seguinte, foi ao Rio de Janeiro com seu pai e gravou Viva a Brotolândia, seu primeiro LP, pela gravadora Continental, e estreou aos 16 anos sua intensa e aclamada carreira. Por ordens de Nazareno de Brito, diretor artístico da Continental, o álbum deveria ser de rock, no estilo de Celly Campello, precursora do rock no Brasil.

Pelas vendas decepcionantes de Viva a Brotolândia, a gravadora colocou Diogo Mulero como seu produtor, e o segundo disco Poema de Amor, com interpretações de bossa-nova, foi lançado em 1962, mas ainda sem sucesso. Retornou para sua casa e manteve seu emprego na Rádio Gaúcha.

Em 1963, foi procurada pela gravadora Discos CBS para gravar mais dois LP, num contrato sem cachê, assim como o anterior. Elis Regina voltou à Cidade Maravilhosa e lançou Elis Regina e O Bem do Amor, na mesma pegada popular que o anterior. Ainda sem sucesso, continuou trabalhando na Rádio e, esporadicamente, fazendo alguns shows.

No mesmo ano, em uma apresentação coletiva em Florianópolis, foi assistida por Armando Pittigliani, produtor da Philips Records. Pittigliani conta que “de repente entrou uma baixinha, meio tímida, e começou a cantar La virgen de la macarena. Saiu aquele vozeirão e eu falei ‘que cantora é essa’?”. No intervalo, ele foi até o camarim e falou para que cantasse alguma MPB. Na ocasião, Elis respondeu “com lágrima ou sem lágrima?” e performou Chão de Estrelas. No mesmo dia, o produtor entregou-lhe o seu cartão com a mensagem “procure-me após fevereiro”. Elis não pensou duas vezes e foi ao Rio de Janeiro em 1964.

 

Novo Rumo

O seu contrato foi assinado e logo gravaram Menino das Laranjas (Theo de Barros), Sou Sem Paz (Adylson Godoy) e Arrastão (Edu Lobo e Vinicius de Moraes). No mesmo ano, foi contratada pelo programa Noite de Gala, comandado por Ciro Monteiro, da TV Rio. Também cantava no Beco das Garrafas, um conjunto de boates em Copacabana. Uma de suas apresentações mais marcantes foi com o Copa Trio, formado por Dom Salvador, Miguel Gusmão e Dom Um Romão. Apesar da voz estonteante, faltava presença de palco na cantora. Para resolver essa questão, o coreógrafo Lennie Dale, que a ensinou a mexer os braços como a hélice de um helicóptero, o que virou uma de suas marcas. Anos depois, Elis Regina ganhou de Rita Lee os apelidos Elis-cóptero e Hélice Regina. Na sua jornada no Beco das Garrafas, conheceu os produtores Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli, que foram marcantes em sua jornada.

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O ano de 1965 foi crucial para a carreira de Elis. Começou a apresentar o programa O Fino da Bossa, do canal Record TV, ao lado de Jair Rodrigues. Também lançou seu quinto álbum, Samba – Eu Canto Assim, pela Phillips. Foi seu primeiro disco a fazer sucesso, e contou com composições de Vinicius de Moraes, Francis Hime, Edu Lobo, Ruy Guerra, dentre outros. Ainda em 1965, venceu o I Festival de Música Popular Brasileira com a interpretação de “Arrastão” e foi premiada com o troféu Berimbau de Ouro de Melhor Intérprete. A aproximação com o poeta rendeu uma grande amizade e ganhou dele o apelido Pimentinha pela sua personalidade forte.

Seu sexto álbum, Elis, foi lançado em 1966, com composições de Gilberto Gil, Chico Buarque. O programa com Jair Rodrigues gerou três discos: Dois na Bossa I, II e III, sendo o Dois na Bossa I responsável pela venda de foi o primeiro disco brasileiro a vender um milhão de cópias.

Elis – Como e Porque, saiu em 1969, com a famosa canção Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Na época, Elis Regina também embarcou na carreira internacional e lançou Elis in London.

 

Anos 70

Nos anos 70, Pimentinha começou a trabalhar mais em técnicas vocais e aprimorar todo o talento que já tinha. O oitavo álbum, Em Pleno Verão, contou com composições de Caetano Veloso, Tim Maia, Tom Jobim, Erasmo Carlos, etc. Em sequência, lançou Ela (1971), famoso pelas canções Madalena e Aviso aos Navegantes.

Em 1972, lançou Elis, dessa vez pela gravadora Phonogram, com canções de Milton Nascimento e Aldir Blanc. No mesmo ano, Elis Regina fez uma apresentação que até hoje gera questionamentos. Em 1969, disse “O Brasil de hoje é governado por um bando de gorilas”, em uma entrevista para uma revista holandesa. Foi coagida pelo Estado a cantar o Hino Nacional nas Olimpíadas do Exército de 1972. Não se sabe ao certo o que fez Elis ceder à pressão, principalmente por todas as contra a ditadura que ela participava. A ocasião gerou repercussões negativas na esquerda do país, mas a cantora se manteve engajada na política. A música O Bêbado e a Equilibrista (Aldir Blanc e João Bosco), considerada o hino da anistia dos exilados, ficou marcada pela sua interpretação.

O décimo primeiro álbum, Elis (1973), foi novamente pela gravadora Phillips, com as célebres Ladeira da Preguiça e Meio de Campo (Gilberto Gil). Esse recebeu diversas críticas negativas sobre excesso de técnica e à falta de emoção em suas interpretações, características opostas dos seus outros discos.

Elis & Tom foi lançado em 1974 junto com Tom Jobim, e foi um salto em sua carreira. Segundo seu empresário na época, Roberto de Oliveira, Elis tinha “talento, sucesso, mas não tinha prestígio”, principalmente por ter sido moldada de forma comercial. O disco foi um presente pelos dez anos de contrato com a gravadora Phillips. A parceria seria benéfica para ambos os artistas. Tom tinha prestígio, mas estava com problemas de popularidade, já Elis era o contrário.  As gravações foram feitas em Los Angeles, na Califórnia. Seu filho, João Marcello Bôscoli, viajou junto com ela para a produção e revelou, em 2007, “eu fui para Los Angeles com a Elis na casa do Tom Jobim e achava que minhas lembranças fossem uma fantasia. Há dois anos peguei umas fotos da casa dele e vi que era exatamente como eu me lembrava. Isso me deixou muito feliz”.

A recepção de Elis & Tom foi extremamente positiva e com críticas muito favoráveis. Para a Folha de São Paulo, O Globo e Manchete, foi um dos melhores do ano. O Estadão disse que reunia “o mais musical dos compositores brasileiros e, tecnicamente, a mais bem dotada das nossas intérpretes, em qualquer época.” A revista Veja considerou “irrepetível, um encontro alegre e comunicativo”. Sobre Elis Regina, o jornalista musical Thom Jurek declarou que “seu alcance e acuidade, seu fraseado único, e seu arco-íris de cores emocionais são literalmente incomparáveis, e não importa a melodia ou o arranjo, ela emprega a maioria deles nessas 14 faixas do disco.”

Seu décimo quarto álbum, Falso Brilhante (1976), surgiu de um espetáculo feito no ano anterior para contar a trajetória da artista. Foram feitas 257 apresentações ao longo de dois anos em São Paulo e com público aproximado de 280 mil pessoas. O repertório de Falso Brilhante conta com Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, famosas canções de Belchior que foram marcadas pela interpretação da gaúcha. O sucesso do espetáculo rendeu um disco com o mesmo nome, e é considerado como um dos mais representativos da MPB dos anos 70.

Elis (1977) foi o décimo quinto álbum, com Caxangá (Milton Nascimento e Fernando Brant) e Qualquer Dia (Ivan Lins e Vitor Martins). Em seguida veio Essa Mulher (1979), cujo maior sucesso foi O bêbado e a equilibrista, já interpretada pela cantora em diversas outras ocasiões.

 

A Última Década

Saudade do Brasil (1980), gravado pelo Warner Music Group (WMG), também foi feito com base em um espetáculo apresentado no mesmo ano no Rio de Janeiro. É um disco duplo, com dez faixas em cada. Dentre elas, Alô, Alô Marciano (Rita Lee e Roberto de Carvalho), Maria, Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant) e Mundo Novo, Vida Nova (Gonzaguinha).

INTIMISMO
“A música é meu arco, minha flecha, meu motor, meu combustível e minha solidão. Amigo, cantar é um ato que se comete absolutamente só e eu adoro”

O último álbum da gaúcha, Elis, foi lançado em dezembro de 1980 pela gravadora Odeon. No repertório estão composições de Gilberto Gil, Beto Guedes, Ronaldo Bastos, Guilherme Arantes e outros artistas. Foram vendidas 50 mil cópias desse disco enquanto Elis ainda estava viva e mais 19 mil uma semana após sua morte.

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Em 19 de janeiro de 1982, aos 36 anos, Elis Regina faleceu. O laudo médico consta que foi uma overdose pela mistura de álcool e cocaína, mas isso ainda é questionado. O produtor Nelson Motta afirmou que ela foi vítima de uma parada cardíaca, visto que  “se a mistura de álcool e cocaína matasse, 80% dos artistas da MPB estariam mortos. Por isso digo que foi acidente. Alguma coisa, que só Deus sabe, deu errado ali.”

Seu corpo foi levado pelo corpo de bombeiros até o Cemitério do Morumbi, em São Paulo. No cortejo havia cerca de 15 mil pessoas.

 

LEGADO

Mesmo 39 anos após sua morte, Elis Regina ainda é considerada, por muitos, como a maior cantora brasileira de todos os tempos. Dizem que ainda não surgiu outra igual a ela, e será que algum dia isso acontecerá? Difícil chegar aos pés da Pimentinha.

Segundo o cantor e produtor Bob Tostes, “ela conseguia ser doce, agressiva, introspectiva, colocar a emoção que quisesse e que fosse preciso em cada interpretação. A emoção aflorava a ponto de ela chorar”.

Sua versatilidade também era impressionante. Conseguia cantar samba, bossa nova, jazz, rock e MPB, extrapolava sua língua materna e arriscava no inglês, espanhol e francês. Muito além da voz, Elis trazia gestos e interpretações que carregavam as canções de sentimentos. Por mais que tenha composto apenas uma música, Triste Amor Que Vai Morrer (1965), com o jornalista Walter Silva, várias de suas interpretações são conhecidas como “música da Elis”, como Águas de Março, Como Nossos Pais, Upa Neguinho, Madalena e O bêbado e a equilibrista.

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Andreia Horta como Elis Regina na cinebiografia

“Respeitem a maior cantora de todos os tempos”, afirmou Caetano Veloso. Foi a musa inspiradora de Milton Nascimento. Após cantar Se eu quiser falar com Deus em um show, Gilberto Gil questionou “Como é que eu vou cantar essa música agora?”. Em 1979, foi aclamada pela crítica europeia após o Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, e definida como a “nova Ella Ftizgerald”. Sua popularidade no exterior chegou até a cantora islandesa Björk, que fez a canção Isobel em sua homenagem, em 1995. “É difícil explicar. Existem várias outras cantoras que gosto, mas há alguma coisa em Elis com a qual eu me identifico. Então escrevi uma canção, Isobel, sobre ela. Na verdade, é mais uma fantasia, porque sei pouco a respeito dela”, disse Björk.

Corajosa e determinada, Elis Regina foi a primeira pessoa a inscrever a própria voz na Ordem dos Músicos do Brasil como se fosse um instrumento. Criou a Associação de Músicos e Intérpretes (ASSIM) para lutar pelos direitos autorais dos músicos brasileiros. Vendeu quatro milhões de discos em 18 anos de carreira. Conseguiu ajudar a tirar Rita Lee, sua grande amiga, da prisão em 1976. Na ocasião, um carcereiro disse: ”Oh, Ovelha Negra, tem uma cantora famosa aí que está rodando a baiana”. Na época, Rita estava grávida de seu primeiro filho, Beto de Carvalho, e por isso Elis exigiu que mandassem um médico ou ela chamaria a imprensa. “Ninguém mexia com a Elis. Ela era do Olimpo, contou.

Em 2005, foi inaugurado um espaço na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, em sua homenagem. O Acervo Elis tem fotos, artigos, objetos e discos da cantora. A Escola de Samba Vai-Vai também fez um tributo com o enredo Simplesmente Elis – A Fábula de Uma Voz na Transversal do Tempo, em 2015. No ano seguinte, a gaúcha ganhou um filme, Elis, e foi interpretada por Andreia Horta.

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Respondendo à minha própria pergunta: não, não é possível existir outra Elis Regina. Acredito que os fatos citados acima sejam uma boa justificativa para isso, mas, caso você ainda não tenha entendido a grandeza dela, sugiro que assista à uma de suas performances. Qualquer uma. Garanto que a magia Elis irá te conquistar.

deborah almeida

mineira, jornalista e feminista. viciada em filmes adolescentes e de terror, amante de seriados e enaltecedora das divas pop. tanto 8 quanto 80, apaixonada por palavras, colecionadora de cartão postal e louca dos tsurus de origami.

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