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“Animals” Completa 40 Anos E Continua Influente

“Animals” completa 40 anos e continua influente

No dia 23 de janeiro de 1977, era lançado o mais novo álbum da banda de rock progressivo mais influente da história. Após os sucessos de The Dark Side of the Moon e Wish you Were Here, o Pink Floyd estava lançando mais uma vez um disco conceitual. Diferente dos anteriores, essa era uma coletânea sem um hit e possuía letras ácidas, diretas e repletas de críticas a sociedade capitalista e a líderes da terra da rainha.

Nos anos anteriores ao lançamento de Animals, o Punk Rock tinha se tornado o novo movimento musical em Londres. Bandas como Ramones, The Clash e Sex Pistols tinham ganhado tremendo espaço na cena musical com suas músicas de protestos. O novo estilo estava competindo por espaço com a “velha guarda” do Rock Progressivo, e acusava bandas como o Pink Floyd, Genesis e Yes de fazerem músicas sem apelo social. A crítica não se limitava às letras, mas também a longa duração das músicas e ao modo hippie das bandas que dominaram a década anterior.

Capa do álbum “Animals”, do Pink Floyd.

O Pink Floyd, em geral, nunca deu atenção a essas críticas ou ao novo movimento punk. Porém, o novo disco idealizado pelo baixista Roger Waters daria fim às reclamações quanto à “acriticidade” em suas letras. Baseado na ideia do livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, Waters criou um conceito novo de um mundo em que a raça humana tinha se reduzido a três espécies: cães, ovelhas e porcos. Sendo assim, o álbum possui quatro faixas, Pigs on the Wing, que abre e fecha o disco, Dogs, Pigs (Three Different Ones) e Sheep.

Após aproximadamente 40 anos, o disco voltou a se tornar referência para criticar políticos. Se na época, os alvos eram pessoas influentes na Inglaterra, atualmente o mais atingido é o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A crítica também recai sobre a ascensão da extrema direita nos últimos dois anos, discutido mais a frente. Primeiramente, é necessário conhecer o conceito do álbum e as músicas, para mais tarde falar sobre os protestos anti-Trump.

 

O Álbum

A música Dogs, antigamente chamada Gotta be Crazy, tinha sido deixada de lado no último disco da banda, mas voltou à cena, sendo incrementada e letrada para ajustar ao conceito do novo álbum. A canção de aproximadamente 17 minutos, fala sobre a ganância dos chamados businessman. A faixa tem o vocal de David Gilmour e Roger Waters que cantam as aflições vividas por dois homens de negócios que se veem sugados e dilacerados pelas pressões vividas pela solidão de uma vida rodeada de pessoas que fazem de tudo para ganhar dinheiro e poder.

Em Sheep, as ovelhas representam as pessoas que seguem o rebanho. Pessoas que são alienadas pelos políticos, meios de comunicação ou qualquer instituição que ideologicamente impõe pensamentos e regras que são seguidos cegamente. A música, assim como Dogs, já tinha sido feita para o outro álbum e também foi reinventada para se encaixar em Animals.

Pigs on the Wing foi dividida em duas partes, e serve para começar e encerrar o disco. Ela foi a última música feita para o disco, e diferentemente das outras, não possui fins críticos. O mais irônico de tudo é que a faixa é a única com letra romântica do Pink Floyd, talvez feita para amenizar o resto das composições do disco, fechando-o com uma mensagem positiva e de esperança, contra os porcos e cães que são responsáveis pelo mal no universo criado por Roger.

A música com maior teor crítico, sem dúvidas, é a terceira faixa do álbum: Pigs (Three Differents Ones). Nela, Roger Waters cospe todo o seu ódio aos porcos, que seriam líderes políticos e magnatas. Nos versos, ele critica nas entrelinhas a ex-primeira ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, mas não tem a mesma delicadeza ao se referir a Amy Whitehouse, que era uma ativista conservadora da época. A letra acusa tais pessoas de enganar terceiros por meio de falsas aparências, imagens criadas por si próprias.

Se o disco não obteve o mesmo sucesso dos dois últimos, o porco inflável voando entre as chaminés de uma antiga central de energia em Londres ficou eternizado na capa do álbum, virando marca registrada nos shows do Pink Floyd. Nos recentes shows de Roger Waters é sempre comum ver críticas às guerras, ao terror, às grandes corporações da indústria capitalista e aos políticos em geral. Em show no Brasil em 2012, o porco inflável sobrevoou a platéia com frases de protestos como: “Brasil paraíso da corrupção e impunidade” e “Não confie nos políticos”.

 

As Críticas

O porco voltou a voar no segundo semestre de 2016 quando Roger Waters dedicou a música Pigs: The Three Differents Ones para Donald Trump, até então candidato à presidência dos Estados Unidos. O ato que viraria comum nos próximos concertos do ex-baixista do Pink Floyd.

Em show emblemático no México, Waters projetou o rosto de Trump durante a música inteira com a palavra “Charade”, para dizer que o presidente dos EUA era uma farsa. Ao final da música, várias frases bizarras proferidas por Trump foram projetadas, seguido de uma frase em espanhol que se assemelha a “Trump, você é um estúpido”.

Durante show em Chicago, em 2016, Roger Waters exibe no telão a frase “Trump é um Porco”, fazendo referência à faixa “Pigs: The Three Differents Ones”, do álbum “Animals”, do Pink Floyd.

Os protestos ao atual presidente norte-americano usando o álbum Animals não ficou somente restringido ao ex-integrante do Pink Floyd. Em maio de 2017, um arquiteto criou uma obra de arte em frente ao prédio de Trump em Chicago. A obra era composta por quatro porcos dourados flutuantes, que ficaram alçados bem em frente do nome do presidente dos EUA.

Em Chicago, uma interferência arquitetônica colocou quatro porcos dourados bem em frente da Trump Tower, na altura do nome do prédio.

Animals pode não ter sido a maior obra do Pink Floyd, mas certamente merecia maior reconhecimento pelo poder das letras e por sua musicalidade. Apesar de não ter o brilho melódico dos outros álbuns da banda, ele possui grandes solos de guitarra de David Gilmour e uma vibração nas músicas diferente das outras composições “floydianas”. O certo é que, pela temática, esse talvez seja o disco do Pink Floyd com maior poder de se ressignificar através do tempo. E enquanto vivermos em uma sociedade comandada por cães e porcos, lá estará o álbum Animals.


Gabriel Gomide

Futuro jornalista que teve a Música presente desde seus primeiros dias, aprendeu a apreciar o Cinema e é fissurado com Futebol.

blog pessoal: Leitura do Jogo

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