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44ª Mostra SP / “Josep” (2020)

[tempo de leitura: 3 minutos]

Esta crítica faz parte da cobertura da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 22 de outubro e 4 de novembro em formato online.


A importância da preservação de legados individuais reside em confrontar as circunstâncias do presente. O que faz um cidadão se posicionar contra uma decisão política? O que faz um artista exprimir as sensações de indignação coletiva? É investigando precedentes da ordem vigente que o diretor Aurel conquista posição de destaque para a sua preciosa estreia em 2020.

Estreando em alguns festivais ao longo do ano, entre eles a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Josep é uma animação franco-espanhola baseada na biografia de Josep Bartolí. O ilustrador e sindicalista espanhol foi aprisionado quando tentou cruzar a fronteira com a França e chegou a passar por sete campos de concentração diferentes ao longo de dois anos antes de escapar para ir morar no México (e ter uma relação amorosa com ninguém menos que Frida Kahlo). O roteiro original de Jean-Louis Milesi é trabalhado por Aurel – que assume também a direção de arte – como uma animação de traços cartunescos, focada muito mais na sugestão do que na exposição dos eventos.

Poucos meses antes da Segunda Guerra Mundial, os espanhóis refugiados da ditadura rumam à França e são capturados pelo exército local. Confinados em um campo de concentração em condições precárias, eles sofrem na mão de agentes que não escondem sua admiração pelo totalitarismo. Um dos guardas é Serge, que se sensibiliza e passa a ajudar o personagem-título na fuga e também na luta contra os ideais autoritários que fomentam o regime espanhol.

O longa é sucinto em suas ambições narrativas. A maior parte de seu enredo é estruturada em uma série de flashbacks oriundos das memórias que Serge, agora idoso e acamado, relata para o seu neto Valentin, um aspirante a grafiteiro. As cenas que se passam nos dias atuais apresentam traços mais fluidos e definidos quando comparadas às lembranças do velho militar. Estas surgem praticamente estáticas, seguidas uma após a outra como storyboards inacabados. A funcionalidade dessa escolha técnica é garantida pelo competente trabalho sonoro, que se encarrega de antecipar e preencher o que se passa na tela. Também podemos pensar que as imagens do passado são construções imediatas feitas na cabeça de Valentin, que contorna as falas por vezes desconjuntadas de seu avô com sua própria sensibilidade artística.

Enquanto as sequências situadas no campo de concentração se desdobram, Aurel aposta numa curiosa escolha criativa: funde alguns de seus quadros com os desenhos do próprio Josep. Os traços modernistas que escancaram a insalubridade da situação vivida pelo ilustrador contribuem para gerar inquietação a quem assiste ao filme. Confiando na intertextualidade, Aurel se responsabiliza por atualizar percepções sobre obras que representavam as inseguranças políticas no período pré-guerra. Seria como se apropriar dos poemas de Drummond em “Sentimento do Mundo” ou os quadros de Cândido Portinari sobre os retirantes nordestinos numa película retratando as memórias de alguém que vivenciou a ditadura do Estado Novo por aqui.

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As elevadas ambições do realizador são contempladas pelo seu impressionante acabamento estético. A melancólica trilha de Silvia Pérez Cruz concede legitimidade no resgate de elementos da cultura espanhola. Arranjos de música flamenca surgem em alguns momentos mais sensibilizantes da obra, como aquele em que a alucinação de Frida Kahlo surge com cores fortes e penetrantes para fumar ao lado de Josep. Igualmente eficiente é a retratação dos guardas como figuras carregadas de incertezas sobre o sistema que defendem, compensadas com ameaça, humilhação e violência gratuitas.

Apresentar a figura de Josep para novos públicos em um mundo de políticas fragilizadas é o grande objetivo desse filme. Sem pretensões de reconstruir com exatidão os acontecimentos, Aurel enfatiza a força das emoções evocadas pelas narrações de um avô, repercutindo aprendizados espontâneos de amizades inesperadas. Momentos que só existem quando damos a devida atenção e que, quando menos percebemos, nos convidam a refletir se há algum papel que nos reserva no meio disso tudo.

giulio bonanno

Biólogo, educador e escritor. sempre gostou de fazer perguntas. nunca se achou bom em respondê-las.

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