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“Minha Sombria Vanessa”: o terror da romantização de abusos

[tempo de leitura: 5 minutos]

“Minha Sombria Vanessa” é um livro perturbador feito para aqueles que ainda não entenderam o teor problemático de romantizar abusos.


OO livro Minha Sombria Vanessa causou certa comoção mundial em seu lançamento. Não apenas por carregar uma temática delicada como o abuso de menores, mas também por ser considerado o “Lolita da era #MeToo”. Para além do seu tema, a obra por si só já é capaz de causar grande alvoroço, afinal, trata-se de um livro tão incomodo que é impossível não se inquietar durante toda a leitura.

Em um primeiro momento conhecemos Vanessa Wye, uma mulher preocupada com uma denúncia de abuso feita no seu Facebook. Embora esta pareça uma atividade comum na atualidade, logo é possível perceber que a protagonista não carrega uma história corriqueira e, ao longo do livro, entende-se o porquê. O enredo se passa em duas épocas diferentes e torna possível conhecermos a protagonista em dois momentos de sua vida: com 15 e 32 anos.

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Capa do livro

Graças a isso, mesmo que brevemente, temos um vislumbre de como ela era uma jovem normal antes de conhecer Jacob Strane, seu abusador. O argumento principal de Minha Sombria Vanessa é baseado nesta relação de Vanessa Wye com Jacob Strane, um professor de 42 anos que abusou sexualmente e psicologicamente da personagem quando ela ainda era menor de idade e estudava em um colégio interno.

Definitivamente, Vanessa não é uma personagem fácil de acompanhar. Ao longo da leitura é necessário relembrar que ela é a vítima da situação, já que a própria personagem aparece em toda a história se recusando a ser vista desta forma. Além disso, a mulher passa grande parte do tempo sem acreditar em outras vítimas do seu abusador, deixando que Jacob Strane lhe conte detalhes sobre essas meninas, sem sentir qualquer remorso ao perceber que outras estão passando pelas mesmas situações que a deixou com marcas por toda a vida.

Isso, recorrentemente, torna Vanessa uma personagem intragável. Desenvolver empatia por ela é uma tarefa árdua, capaz de criar questionamentos em nossa cabeça sobre o desenvolvimento do feminismo moderno e até onde deve ir a sororidade.

A Minha Sombria Vanessa traz um crescente de situações que gradativamente tornam insuportável a posição de observador passivo. Strane é um manipulador nato, que faz desde o início com que Vanessa se sinta lisonjeada com a forma inapropriada que ele age. O professor manipula a menina usando os aspectos de sua personalidade infantil para fazê-la se sentir única e madura, dizendo sempre como é atraente a forma que a adolescente é ‘maleável’ à suas ações. A autora, Kate Elizabeth Russell, tem uma capacidade tão grande de criar situações realísticas, que muitas vezes é necessário fechar as páginas do livro para digerir as atitudes de suas personagens.

Embora negue o tempo todo, é possível ver ao longo do livro que Strane é, acima de tudo, um pedófilo. Não é em vão que a atração sentida pela Vanessa de 15 anos, que ainda tem características infantis e qual ele veste com pijamas de criança antes do primeiro abuso sexual, desaparece ao reencontrar com a Vanessa adulta de 21 anos. Durante toda trama temos indícios de que o homem entende sua condição como pedófilo e usa de seu papel como professor para manipular a situação – assim, outros com a mesma posição e poder, não entendem ou parecem não entender o que ele está fazendo. Enquanto dá à menina livros com temática sexual e pedofílica – incluindo Lolita de Vladimir Nabokov – e a incentiva a interpretá-los como histórias de amor “naturais”, Strane convence outros professores de que é ela quem está obcecada por ele, causando posteriormente consequências para a vida acadêmica e pessoal dentro do ambiente escolar.

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Kate Elizabeth Russell, autora do livro

A opção por narrar em primeira pessoa deixa o leitor de Minha Sombria Vanessa extremamente próximo e completamente imerso na situação. Em grande parte, essa é a razão do desconforto. Estar constantemente dentro da cabeça de Vanessa é perceber que ela tem, e teve desde o inicio, todas as informações para entender que está sendo abusada, mas ao mesmo tempo não tem a maturidade necessária para processar tudo que lhe cerca. Tudo isso, junto das descrições de abusos explícitos, tornam a história desesperadora, dando vontade de invadir as páginas e denunciar tudo que está acontecendo.

Quando a denuncia enfim acontece, o livro vira um pesadelo maior ainda. A escola de Vanessa não tem qualquer intenção de proteger a criança – e isso é de deixar qualquer um transtornado. Neste momento, também é possível entender que sua versão adulta não sente qualquer empatia por outras meninas abusadas porque ela mesma não recebeu tal sentimento quando sua história veio a público. Essa é uma abertura que todos deixam para que Strane continue a abusando e manipulando até seus 32 anos, e sendo está, de fato, a última gota d’água no nível de desconforto causado pelo livro. Saber que a Vanessa passa metade da sua vida nas garras de um abusador, sendo manipulada diariamente é aterrador.

Quando já adulta, Vanessa passa por terríveis processos para entender as marcas do abuso. Da dificuldade de manter relações pessoais até delírios paranoicos, a mulher questiona o tempo todo a validade de seus pensamentos, muitas vezes acreditando na possibilidade de Strane ter despertado nela a pedofilia. Tudo isso é escrito de maneira muito imagética, tornando as palavras em um verdadeiro filme de terror que fica reprisando na cabeça do leitor por horas e horas a fio. Este sentimento de incapacidade em se separar da história nos faz questionar como deve ser insuportável viver o tempo todo como Vanessa Wye.

Ler Minha Sombria Vanessa não é uma tarefa para qualquer um e por mais que sua personagem tenha um clímax redentor, acompanhá-la neste processo é uma verdadeira batalha. É preciso dedicar muito tempo para entender que muitos dos sentimentos que temos pela protagonista são criados pela incrível escrita de Kate Elisabeth Russel, que levou 20 anos de sua vida para desenvolver esta história e cultivar suas personagens de forma coerente e realística.

Para aqueles que são mais sensíveis, é importante lembrar que a obra é cheia de gatilhos, o assunto é extremamente delicado e muitas vezes a autora irá usar da descrição explicita dos abusos como uma forma de horrorizar e imergir o leitor na mesma situação que sua protagonista.

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Minha Sombria Vanessa é um livro pesado, forte e extremamente asqueroso, mas ao mesmo tempo é uma obra necessária, muito bem escrita e perfeita para despertar reflexões sobre como tendemos a generalizar a forma como se lida com vitimas de abuso. Se tiver estomago para isso, você definitivamente precisa ler esta obra. Afinal de contas, ela emana um alto nível reflexivo e filosófico, sendo tão bem desenvolvida que lembra que seus leitores devem sempre ter um verdadeiro asco pela ideia romantizada do livro Lolita, dando, assim, uma nova visão sobre os pensamentos da própria Dolores Haze de Nabokov.

Sem qualquer hesitação, é possível afirmar que Minha Sombria Vanessa é o lançamento do ano no mundo literário, porque, como dito anteriormente, uma vez que o livro é lido, é impossível não querer falar sobre ele.

Juliana Almeida

juliana almeida

Jornalista e aspirante a Podcaster, apaixonada pelo Audiovisual e amante das palavras. faz de tudo por uma boa conversa sobre Cultura Pop, Arte e Literatura.

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