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A Incansável Dança De Jane Austen

A incansável dança de Jane Austen

Este texto é uma colaboração entre Bruna Nogueira e Gabriella Carvalho;


É uma verdade universalmente conhecida que Jane Austen é uma das mais revolucionárias e queridas escritoras de seu tempo. Desde 1811, quando lançou seu primeiro livro, Razão e Sensibilidade, Jane ficou conhecida por sua habilidade de escrever personagens femininas complexas, diálogos inteligentes e irônicos e explorar os conflitos das relações de classe e gênero.

Daí em diante, numa época em que a maiorias dos livros eram escritos por homens e abordavam temas como aventura e exploração, Jane Austen se destacou ao manter suas histórias no ambiente rural e limitado que conhecia, escrevendo sobre dramas cotidianos e familiares que, apesar de simples, apresentaram para o mundo novas perspectivas de narrativas realistas. Cada personagem e cada palavra é importante para construir suas histórias, que escondem nas entrelinhas discussões sobre escravidão e feminismo.

Em 2017, a escritora será homenageada pelo Banco da Inglaterra, e terá seu rosto estampando a nota de dez libras, substituindo o naturalista Charles Darwin. A homenagem vem no 200º aniversário da morte da autora, marcado no dia 18 de julho, e a nota começará a circular em Setembro.

 

VIDA

A única imagem conhecida de Austen foi pintada por sua irmã, Cassandra

Muitos dos livros da autora refletem sua própria vida. Nascida em 1975 na Inglaterra, Jane Austen cresceu com uma família grande, numa pequena casa na zona rural do país, cercada de muito verde — cenário típico de suas obras. Jane teve seis irmãos e uma irmã mais velha chamada Cassandra, com quem teria forte laço de amizade. A única imagem que os fãs podem ver da autora foi feito por Cassandra, e hoje está exposto na Galeria Nacional de Artes de Londres.

Jane viveu em uma época que sistemas de educação ainda não haviam sido desenvolvidos e, mais importante ainda, uma época em que as mulheres não mereciam nada além de uma “escola para moças”, para aprender boas maneiras. Ainda assim, aos 17 anos, Austen escreveu seu primeiro livro: Lady Susan.

Sua vida foi inspiração para todos os seus livros e, mesmo sem nunca ter casado, suas narrativas giram em torno da temática do casamento, entretanto sempre de uma maneira peculiar. Suas personagens principais são, em sua maioria, mulheres astutas e com forte senso de humor.

O sarcasmo em seus textos é uma das grandes características da autora, assim como a sensibilidade ao retratar o amor tanto entre casais, quanto entre familiares. A ironia que utiliza para descrever as personagens de seus romances a coloca entre os clássicos, sendo amada tanto pelo público que aprecia histórias romantizadas, quanto para o público feminista que acredita na força que cada mulher carrega dentro de si.

A crítica britânica considerou-a a primeira romancista moderna da literatura inglesa. No início de 1817 a autora começou a escrever Sanditon, porém teve que abandonar a obra devido ao seu estado de saúde. No dia 18 de julho do mesmo ano, Jane Austen faleceu em Winchester, um ano antes de serem publicadas as obras Persuasão  e Abadia de Northanger. Na época não encontraram o motivo de sua morte, porém atualmente acreditam-se que ela tenha sofrido com Doença de Addison.

Com 41 anos no ano de sua morte, suas últimas palavras foram: “Não quero nada mais que a morte“. Em seu testamento, ela deixou tudo o que tinha para sua irmã Cassandra. Na época, o epitáfio, na catedral de Winchester, não mencionava que Austen foi a autora de seus conhecidos romances. Foi apenas em 1872, depois que James Edward Austen-Leigh publicou suas Memórias, que uma nova placa explicava sua condição de escritora, salientando: “Ela abriu sua boca com sabedoria e em sua língua reside a lei da bondade“.

Em Bath, o Jane Austen Centre contém diversos objetos relacionados à Austen. Sua localização fica próxima à residência dos Austen em 1805

Na British Library, em Londres, pode-se encontrar uma caderneta presenteada por seu pai, ilustrada por Cassandra, sua irmã, onde Jane escreveu suas primeiras histórias. Também se encontram ali manuscritos dos últimos capítulos de Persuasión, e um pequeno escritório em madeira.

Existem dois museus dedicados a Jane Austen. O Jane Austen Centre, em Bath, na Inglaterra, é um museu público situado em uma casa georgiana em Gay Street, a alguns metros do número 25, onde residiu Austen em 1805. O outro, Jane Austen’s House Museum, é localizado na cabana de Chawton, em Hampshire, também na Inglaterra.

 

Obras

» Lady Susan (1805)

Uma obra epistolar* curta, conta a história de uma viúva sedutora e manipuladora de, trinta e cinco anos. Sua conduta é, aparentemente, irrepreensível, como se esperaria de uma perfeita dama. Dotada de grande beleza, com modos encantadores e supostamente sensíveis, ela consegue desarmar até mesmo aqueles que estão familiarizados com boatos sobre sua má reputação. A relação com a filha, Frederica, uma jovem tímida e submissa, parece ser destituída de qualquer afeição, pois a mãe a trata como mais uma peça em seu jogo maquiavélico, planejando casá-la contra a própria vontade.

 

» Orgulho e Preconceito (1813)

Na Inglaterra do final do século XVIII, as possibilidades de ascensão social eram limitadas para uma mulher sem dote. Elizabeth Bennet, de vinte anos, uma das cinco filhas de um espirituoso, mas imprudente senhor, no entanto, é um novo tipo de heroína, que não precisará de estereótipos femininos para conquistar o nobre Fitzwilliam Darcy e defender suas posições com perfeita lucidez de uma filosofa liberal da província. Lizzy é uma espécie de Cinderela esclarecida, iluminista, protofeminista. Neste livro , Jane Austen faz também uma crítica à futilidade das mulheres na voz dessa admirável heroína — recompensada, ao final, com uma felicidade que não lhe parecia possível na classe em que nasceu.

 

» Razão e Sensibilidade (1811)

Este romance concentra sua narrativa nas idílicas tramas de amor e desilusão em que duas belas irmãs inglesas se envolvem – Elinor e Marianne Dashwood – quando chega a idade do casamento. À procura do amor verdadeiro, as filhas órfãs de uma família pertencente à pequena nobreza enfrentam o mundo repleto de interesses e intrigas da alta aristocracia. Marianne e Elinor representam polos opostos do universo ético de Austen – enquanto Marianne é romântica, musical e dada a rompantes de espontaneidade, Elinor é a encarnação da prudência e do decoro.

 

» Mansfield Park (1814)

Fanny Price mora de favor na casa dos tios ricos, para onde foi levada aos doze anos; aparente ser uma menina doce e diz “sim” a todos os caprichos de seus tios e primos. Apesar da aparência frágil, Fanny concentra em si diversos conflitos da alma humana, mostrando-se uma personagem forte e profunda que certamente cativará leitores de diversas idades e contextos sociais. Recheado de dissimulação, Mansfield Park revela a sociedade inglesa do século XIX, com seus costumes peculiares e, muitas vezes, aprisionadores.

 

» Emma (1815)

Ao comentar sobre Emma Woodhouse, Jane Austen brincou com seus leitores ao dizer que Emma é o tipo de “heroína que ninguém além dela própria iria gostar muito”. Entretanto, ela é irresistível, a única personagem dos seis livros publicados de Austen cujo próprio nome é também o título do livro. Além disso, Emma possui uma descrição diferenciada das demais heroínas criadas pela autora: é bonita, inteligente e rica. O livro é um ótimo exemplo de sagacidade e ironia, típicos da escritora Jane Austen, e é considerado por muitos como seu romance mais elaborado. A habilidade que a escritora teve ao demonstrar os diversos aspectos da natureza humana de forma bastante realista e afetuosa eleva esta obra a uma sátira brilhante.

 

» Persuasão (1818)

O enredo gira em torno de Anne Elliot, filha de Sir Walter Elliot, um vaidoso e esnobe baronete. No passado, Anne apaixonara-se por Frederick Wentworth, que, embora belo, inteligente e ambicioso, não tinha tradições ou conexões familiares importantes – e assim Anne fora persuadida pela família a romper com ele. Em 1815, momento em que se passam os eventos narrados no livro, a boa, generosa e sensível Anne Elliot continua solteira, mas agora, aos 27 anos, pensa com mais autonomia e maturidade.

Agora, também, a situação financeira de Sir Walter Elliot é desfavorável, e ele se vê obrigado a alugar a propriedade da família. Por força do destino, o novo ocupante da residência é cunhado de Wentworth. Quase oito anos após o rompimento, Anne se verá novamente convivendo com seu grande amor, agora um capitão da Marinha, e reflexões, conjunturas e arrependimentos serão inevitáveis. Anne e Frederick se redescobrem apaixonados, e renovam o compromisso de casamento. Com o mesmo texto leve e envolvente – mas irônico e perspicaz – que a caracteriza, Austen faz aqui uma crítica à vaidade típica da sociedade inglesa do início do século XIX, ao mesmo tempo em que enfoca o tema do casamento, quase onipresente em seus escritos.

 

» Abadia de Northanger (1818)

Escrito quando Jane Austen era muito jovem e publicado postumamente em 1818, ‘A Abadia de Northanger’ é uma comédia satírica que aborda questões humanas de maneira, tendo como pano de fundo a cidade de Bath. O enredo gira em torno de Catherine Morland, que deixa a tranquila e por vezes tediosa vida na zona rural da Inglaterra para passar uma temporada na agitada e sofisticada Bath do final do século XVIII. Catherine é uma jovem ingênua, cheia de energia e leitora voraz dos romances góticos. O livro faz uma espécie de paródia a esses romances, especialmente os escritos por Ann Radcliffe.

 

Legado

No filme lançado em 2005, Keira Knightley e Matthew Macfadyen estrelaram a produção dirigida por Joe Wright

Após ter se tornado um dos maiores nomes de todos os tempos da literatura, Jane Austen continuou e continua influenciando outros artistas com suas narrativas brilhantes e personagens bem construídos. Muita gente não sabe, mas além dos filmes homônimos como Orgulho e Preconceito (2005; Joe Wright) e Emma (1996; Douglas McGrath), e da famosa série produzida pela BBC, também baseada em sua principal obra, Orgulho e Preconceito (1995), existem diversos produtos feitos para o cinema e para TV que tiveram sua base na literatura de Austen.

Uma dessas obras inspiradas é O Diário de Bridget Jones. A autora Helen Fielding criou uma série de livros, cuja personagem-título é uma mulher completamente confusa e atrapalhada. As características de Bridget fogem das que se destacavam nas personagens de Austen, entretanto é possível ver a inspiração na escritora britânica na temática de casamentos e no interesse amoroso da protagonista: um homem chamado Mark Darcy cuja personalidade segue o padrão do Sr. Darcy, de Orgulho e Preconceito. Os livros ganharam um filme no ano de 2001, com as sequências Bridget Jones no Limite da Razão (2004) e O Bebê de Bridget Jones (2016).

Quem vê Cher andando por Beverly Hills com seus conjuntinhos e poás, não imagina que o clássico adolescente As Patricinhas de Beverly Hills, de 1995, segue o plot narrativo do livro Emma. No filme, a personagem principal, Cher, é uma menina rica, popular e mimada, assim como a controversa personagem-título.

Em 2012, o autor Seth Grahame-Smith criou uma narrativa que tinha como base a obra de Austen, mas com um pequeno diferencial: zumbis. O livro Orgulho e Preconceito e Zumbis transforma Elizabeth Bennet em uma verdadeira guerreira, que luta contra os mortos-vivos. A obra fez tanto sucesso que em 2016 ganhou uma adaptação para o cinema.

No filme Sem Prada Nem Nada, de 2012, Camilla Belle e Alexa Pena Vega estrelam uma versão da colônia mexicana dos EUA de Razão e Sensibilidade. Até então muito ricas, as irmãs Nora e Mary Dominguez descobrem que perderam tudo com a morte do pai e precisam morar com a tia.

Gwyneth Paltrow foi responsável por dar vida à personagem-título de “Emma” (1996)

Outra obra que merece ser mencionada é o filme Metropolitan, 1990, que chegou a ser indicado a um Oscar por seu roteiro. Ao apresentar a trajetória de um grupo de novaiorquinos da alta sociedade, o filme segue a história de Tom, que ao se tornar amigo de um grupo de bem-nascidos não resiste em achá-los frívolos, até que começa a se interessar por Audrey. A narrativa foi inspirada no livro Mansfield Park.

Para a TV, duas séries – ambas produzidas pela fã número um das obras de Austen, a BBC – se destacam. Em 2008, John Alexander dirigiu a série Razão e Sensibilidade, com a presença de David Morrissey (Coronel Brandon), Dominic Cooper (Willoughby) e, no papel das irmãs Dashwoord, Hattie Morahan e Charity Wakefield. No ano seguinte estreou Emma, que tem Romola Garai e Johnny Lee Miller nos papéis dos protagonistas da história, e direção de Sandy Welch. Ambas produções foram minisséries com três e quatro episódios, respectivamente.

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Romance epistolar é um livro escrito que usa uma técnica literária que consiste em desenvolver a história principalmente através de cartas, embora também sejam usadas entradas de diários e notícias de jornais. O nome “epistolar” vem do latim epistoláris “relativo a carta, epístola”. O objetivo desta técnica ao ser criada era dar maior realismo a uma história. (Wikipédia)


1775 — Jane Austen nasce em Steventon, Hampshire, Inglaterra, no dia 16 de dezembro.

1790 — Escreve Amor e Amizade.

1792 — Escreve Catharine or the Bower.

1794 — Escreve Lady Susan, seu primeiro romance.

1803 — Vende seu romance Abadia de Northanger (até então intitulado Susan) por 10 libras esterlinas; o livro só foi publicado 14 anos depois.

1809 — Os Austen mudam de cidade e Jane começa a revisar Razão e Sensibilidade, posteriormente aceito por uma editora.

1813 — Orgulho e Preconceito é publicado e Austen começa a escrever Mansfield Park. O Príncipe regente solicita que Austen dedique seu próximo livro a ele.

1814Mansfield Park é publicado e todos os exemplares são vendidos em menos de seis meses; começa a escrever Emma.

1815Emma é publicado contendo uma dedicatória ao príncipe regente; ao longo do ano, Jane escreve Persuasão; neste mesmo ano, começa a sentir os sintomas de sua doença.

1817 — Começa a escrever Sanditon, mas abandona a obra por motivos de saúde; Austen falece no dia 18 de julho, aos 41 anos; no mesmo ano, seus romances Persuasion e Northanger Abbey são publicados com uma nota sobre sua morte.

1871Lady Susan é publicado.

1980 — Sir Charles Grandison é publicado.


bruna nogueira

tem 22 anos, é jornalista, feminista, e viver para ler e contar histórias. com um senso de humor negro, faz piada de tudo e não passa um dia sem escrever.

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