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Os Jovens Clássicos De Hollywood

Os jovens clássicos de Hollywood

Se você é amante de cinema ou se ainda está iniciando sua aventura em colecionar frames na memória, com certeza já ouviu falar em um ou dois filmes considerados os “Jovens Clássicos de Hollywood”. Obras como Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, Trainspotting de Danny Boyle e Fargo dos irmãos Coen, são longas que, apesar de produzidos nos últimos 30 anos, já são considerados como parte fundamental da História do Cinema. E o que decide essa classificação, muitas vezes, é a opinião do crítico de cinema que, dependendo de sua popularidade, possui o poder de controlar o marketing do filme, como pode acontece com o website Rotten Tomatoes.

O método do site funciona como uma equipe que coleta opiniões online a partir de membros certificados de várias associações críticas de cinema e, para ser tornar um crítico no site, você deve reunir uma quantidade específica de likes em seus textos, fator que acontece, normalmente, aos “Top Critics”, autores que escrevem para algum meio de comunicação notável. Então, torna-se possível o cenário em que a opinião de apenas uma pessoa pode mudar a maneira que dezenas de outras que apreciam – ou não – a um filme. E fazer parte de um todo inserido no espaço-tempo atual, é fantástico.

A opinião do crítico de cinema é arriscada. Como falar que algo é bom ou ruim? Como passar sua opinião e, mais do que isso, como fazer com que as pessoas confiem em você para consumir uma obra audiovisual? A resposta é simples, mas se torna complexa à medida que é realizada: são usados critérios e argumentos, que não vem apenas da subjetividade do crítico, mas também de um estudo contínuo da arte do cinema. São análises quanto o tom do filme, a fotografia, a direção dos atores, trilha sonora, entre outros tópicos, que integram a crítica e dão ao espectador o quadro geral do filme. Claro, a interpretação quanto ao longa é pessoal, e nunca saberemos realmente a intenção do diretor em suas minucias – a menos que ele fale abertamente sobre.

Mas o que teria em comum premiados diretores como David Fincher, Bryan Singer, Tim Burton e Martin Scorsese? Todos eles, e mais outros, integraram a Mostra Jovens Clássicos de Hollywood, que aconteceu durante o mês de Junho em Belo Horizonte, no Cine Theatro Brasil Valourec, juntamente com um curso administrado pelo crítico de cinema, Pablo Vilaça. Organizada pelo professor e crítico Rafael Ciccarini, a mostra foi uma oportunidade de exibição de produções com roteiros e atuações reconhecidamente brilhantes, que lançaram uma vertente estética nova para o cenário hollywoodiano e passaram a ser seguidos por outros diretores e produtores.

Durante suas realizações, concentradas no final dos anos 1980 e durante toda a década de 90, os filmes escolhidos para a mostra retrataram temas amplamente discutidos a época. São obras que muitas vezes dependem do avanço tecnológico para contar suas histórias, como em Matrix (1999), das irmãs Wachowski, da suspensão do cumprimento de expectativa e o consagrado humor judaico, assinatura dos irmãos Coen em Fargo (1996), e o dom de saber o momento de ir em contramão da convenção como Scorsese faz com a narrativa e trilha sonora de Cassino (1995).

Além disso, no contexto histórico, observa-se que a cena hollywoodiana estava lidando não só com a virada do século, mas também com o acontecimento dos 100 anos do cinema, em 1995. As preocupações se concentravam em lamentações sobre a indústria cinematográfica estar se transformando em ações de marketing, e não mais em um espaço para experimentações ou para o cinema de autor. Com o aumento dos filmes blockbusters, protagonizado pelo diretor que, ouso dizer, lançou mais filmes do tipo, Steven Spielberg, e a generalização da frase “dos mesmos produtores de…”, ao anunciar um filme, a banalização desses se tornou alvo de críticas.

Muitos críticos, diretores, realizadores e pesquisadores de cinema consideram, até hoje, o blockbuster “cinema de massa” e outros filmes/tipos de cinema como “arte de verdade”. Porém, os filmes populares foram e são até hoje responsáveis por movimentar a indústria cinematográfica como um todo, gerando renda para que as mais variadas produções se tornem possíveis.

Funcionando como uma maquina retroalimentativa, os filmes independentes, por exemplo, causam a renovação da indústria ao mesmo tempo em que os blockbusters levam novos espectadores aos cinemas, facilitando ao público conhecer alguns filmes considerados cults. Com o avanço independente de Quentin Tarantino com seu Pulp Fiction no Festival de Cannes de 1994, a década de 90 deu grande passo para a sétima arte em Hollywood, e vem influenciando, até os dias de hoje, o cinema mundial.


Edward Mãos de Tesoura (1990), de Tim Burton

No longa do cineasta norte-americano mundialmente reconhecido por seu estilo sombrio, expressionista e gótico, com influências nas artes plásticas, Peg Boggs (Dianne Wiest) é uma vendedora da Avon que acidentalmente descobre Edward (Johnny Depp), jovem que mora sozinho em um castelo no topo de uma montanha no subúrbio. Criado por um inventor (Vincent Price, um dos nomes mais famosos do cinema de terror), que morreu antes de dar mãos ao seu ser, Edward possui apenas lâminas no lugar delas, o que o impede de se aproximar de humanos. Vítima de sua inocência, Edward é inserido na sociedade e se torna amado por uns, e perseguido e usado por outros.

Primeira parceria entre Tim Burton e Johnny Depp, que continuaram trabalhando juntos por pelo menos mais 5 outros filmes, o longa traz a figura de um outsider, um excluído do convívio social, retratado em uma sociedade esquisita, caricata e alienada.

Se você gostou de Edward mãos de tesoura, também vai gostar de Marte ataca! (Tim Burton, 1996).

 

O Silêncio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme

Considerada uma obra de “terror” a vencer não só o prêmio principal do Oscar de Melhor Filme, mas também outras 4 categorias (Diretor, Ator, Atriz e Roteiro), o longa de Demme traz a história da agente do FBI, Clarice Starling (Jodie Foster) que é ordenada a encontrar um assassino que arranca a pele de suas vítimas. Para entender como ele pensa, ela procura o perigoso psicopata, Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), encarcerado sob a acusação de canibalismo.

O filme utiliza do recurso de roteiro de “plantar” pistas ao longo da narrativa, que levarão o espectador a recompensas em momentos específicos, além de flashbacks e forte identificação com os personagens.

 

Cassino (1995), de Martin Scorsese

Filme que tem uma sequência incrível com a música The House of the Rising Sun, interpretada pela banda The Animals, e a narrativa totalmente não convencional, é montado através de três personagens básicos: um diretor de cassino (Robert De Niro) com um passado comprometedor; uma prostituta de alta classe (Sharon Stone), que dominava a todos, menos o seu cafetão; e um gângster (Joe Pesci), que tomava conta do diretor do cassino e passa gradativamente, a seguir os passos dela, criado um painel de Las Vegas dos anos 70, quando a Máfia controlava o jogo, até o gradual surgimento das grandes corporações, que ficaram no lugar das quadrilhas e transformaram a cidade em uma Disneylandia.

Com mais de duas horas de duração, o filme é baseado no livro com mesmo nome, de Nicholas Pileggi, que também co-escreveu o roteiro para o longa. A revelação é a atriz Sharon Stone que, interpretando Ginger, ganhou um Globo de Ouro de Melhor Atriz e uma indicação para o Oscar de Melhor Atriz.

Se você gostou de Cassino, também vai gostar de Os Infiltrados (Martin Scorsese, 2006).

 

Fogo Contra Fogo (1995), de Michael Mann

Filme que reúne pela primeira vez Al Pacino e Robert De Niro, traz o cenário de Los Angeles com um assalto no qual são roubados US$ 1,6 milhão de títulos ao portador e três policiais são mortos. Com isso, um detetive da Divisão de Roubo e Homicídio (Al Pacino) assume o caso. Apesar de contar com poucas pistas, de estar lidando com ladrões profissionais, além de ter problemas em sua vida pessoal, ele tenta impedir que a quadrilha continue operando.

Muito mais que um filme de ação, o diretor traz as posições e ideias dos personagens por meio de recursos visuais, sem que eles precisem, necessariamente, dizer algo. O filme possui cenas memoráveis como as de explosão histérica de Al Pacino e os planos e contra-planos durante conversa entre ele e De Niro, além de várias cenas em que a profundidade de campo é reduzida para ressalta a solidão dos personagens.

 

Os Suspeitos (1995), de Bryan Singer

O filme neo-noir, traz em seu título (original, The Usual Suspects) uma referência à fala do personagem interpretado por Claude Rains no filme Casablanca (Michael Curtiz, 1942), frase que era utilizada durante investigação de algum crime, em que prendiam os “suspeitos usuais”, para encontrar o culpado. No filme de Singer, após uma explosão no cais, a polícia contabiliza 27 corpos e duas testemunhas: um húngaro em estado crítico e um conhecido ladrão deficiente físico, que saiu completamente ileso. Quando os dois dão seus depoimentos, fica clara a participação de Keyser Soze, húngaro misterioso e impiedoso que foi o mentor de um golpe contra um grupo de traficantes de drogas da Argentina. Mas quem seria esse homem?

O filme tem Kevin Spacey no papel do golpista Roger “Verbal” Kint, e monta sua narrativa, que aumenta a complexidade no decorrer do tempo, utilizando de flashbacks – pontuais e seletivamente escolhidos por Verbal.

Se você gostou de Os Suspeitos, também gostará de Os Suspeitos (Denis Villeneuve, 2013). P.S.: Sim, são dois filmes diferentes!

 

Trainspotting – Sem Limites (1996), de Danny Boyle

Filme britânico, baseado no livro homônimo de Irvine Welsh, conta as histórias de viciados em heroína que vivem num subúrbio de Edimburgo, na Escócia, narradas do ponto de vista de um deles, Renton (Ewan McGregor). Ele resolve interromper o vício, mas sempre acaba retornando, Spud (Ewen Bremner) tenta arrumar um emprego mas não consegue, e Sick Boy (Johny Lee Miller) é um especialista em filmes de James Bond. Além deles, também integram o mesmo grupo, mas não são viciados, Tommy (Kevin McKidd), que acaba eventualmente seguindo o mesmo caminho dos amigos, e Begbie (Robert Carlyle), intempestivo e violento.

Eleito pela revista Rolling Stones como uma das 25 melhores trilhas sonoras de todos os tempos, o filme traz uma rica construção dos personagens de maneira natural e imprevisível.

Se você gostou de Trainspotting – Sem Limites, também gostará de T2 Trainspotting (Danny Boyle, 2007), continuação do longa.

 

Jackie Brown (1997), de Quentin Tarantino

No filme, ao invés de trabalhar em seu próprio universo, Tarantino adaptou o livro de Elmore Leonard (Rum Punch, 1992) que possui suas próprias peculiaridades.  A narrativa conta a história da comissária de bordo Jackie Brown (Pam Grier), que trafica dinheiro para os Estados Unidos, a mando de um vendedor de armas. Quando dois policiais oferecem um acordo para que ela entregue o bandido, ela decide dar a volta em todos os envolvidos, com um olho na liberdade e outro numa mala cheia de dinheiro.

Apesar da falta de cenas fortes e violentas, marca dos filmes de Tarantino, Jackie Brown discute a questão racial e é um fuga da zona de conforto do diretor.

Se você gostou de Jackie Brown, também gostará de A Qualquer Custo (2017, David Mackenzie)

 

Clube da Luta (1999), de David Fincher

Já que a primeira regra do Clube da Luta é não falar sobre o Clube da Luta, vou tentar ser breve. Jack (Edward Norton) é um jovem que trabalha como investigador de seguros, mora confortavelmente, mas está ficando cada vez mais insatisfeito com sua vida medíocre. Para piorar ele está enfrentando uma terrível crise de insônia, até que encontra uma cura inusitada para o sua falta de sono ao frequentar grupos de auto-ajuda. Nesses encontros ele passa a conviver com pessoas problemáticas como a viciada Marla Singer (Helena Bonham Carter) e a conhecer estranhos como Tyler Durden (Brad Pitt). Misterioso e cheio de ideias, Tyler apresenta para Jack um grupo secreto que se encontra para extravasar suas angústias e tensões através de violentos combates corporais.

Muitas vezes interpretado superficialmente como um filme revolucionário, Clube da Luta é, antes de tudo, mais um filme que, buscando criticar o “papel” do homem na sociedade, acaba o reforçando, entre a discussão de outros temas, o machismo. É um dos filmes mais debatidos de todos os tempos, seja na internet ou na mesa de bar, e foi indicado ao Oscar por Melhores Efeitos Sonoros.

Se você gostou de Clube da Luta, também gostará de Seven – Os Sete Crimes Capitais (David Fincher, 1995).

 

De Olhos Bem Fechados (1999), de Stanley Kubrick

No último filme do diretor, que faleceu na pós-produção, Bill Harford (Tom Cruise) é casado com a curadora de arte Alice (Nicole Kidman). Ambos vivem o casamento perfeito até que, logo após uma festa, Alice confessa que sentiu atração por outro homem no passado e que seria capaz de largar Bill e sua filha por ele. A confissão desnorteia o sujeito, que sai pelas ruas de Nova York assombrado com a imagem da mulher nos braços de outro. Ele acaba em meio a uma reunião secreta em uma mansão afastada.

Considerado um dos diretores mais teimosos e difíceis da história do cinema, Kubrick entrega sua última obra de modo impecável e meticuloso – como sempre. Recheado de ocultismo e mensagens subliminares, para interpretar e entender todos os significados estrategicamente colocados por Kubrick, De Olhos Bem Fechados é um daqueles filmes em que é preciso assistir mais de uma vez.

Se você gostou de De Olhos Bem Fechados, vai gostar de A Seita Misteriosa (Zal Batmanglij, 2011).

 

Matrix (1999), das Irmãs Wachowski

No primeiro filme da trilogia, Thomas Anderson (Keanu Reeves), um jovem programador de computador é atormentado por estranhos pesadelos nos quais encontra-se conectado por cabos e contra sua vontade, em um imenso sistema de computadores do futuro, gerando dúvidas sobre a realidade. Por meio do encontro com os misteriosos Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), Thomas descobre que é, assim como outras pessoas, vítima do Matrix, um sistema inteligente e artificial que manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real enquanto usa os cérebros e corpos dos indivíduos para produzir energia. Morpheus, entretanto, está convencido de que Thomas é Neo, o aguardado messias capaz de enfrentar o Matrix e conduzir as pessoas de volta à realidade e à liberdade.

Com predominância do verde, cor ligada à tecnologia e ficção científica, utilização do efeito bullet-time e coreografias ensaiadas, Matrix marca a inquietude de uma geração prestes a entrar em um novo século.


Gabi Carvalho

Tem 21 anos, é de libra com ascendente em sagitário e lua em peixes. Divide o tempo lendo críticas sobre absolutamente tudo, memes, vlogs de comprinhas e enaltecendo o feminismo. É bem eclética, lê de tudo, ama escrever e não come carne.

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