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“O Mínimo Para Viver” E O Debate Sobre Anorexia E Autoestima

“O Mínimo para Viver” e o debate sobre anorexia e autoestima

  • Filme

Ellen gosta de dizer que tem tudo sob controle. Mas a jovem de 20 anos, protagonista de O Mínimo para Viver (2017), tem anorexia. A doença impede que ela perceba o quanto está sendo dura consigo mesma e com seu consumo diário de calorias. Esta é a temática do longa que estreou na Netflix em julho, da diretora Marti Noxon. O filme não é fácil de se assistir, mas é necessário para desconstruir os tabus a respeitos dos transtornos alimentares.

O Mínimo para Viver é protagonizado por Lily Collins, que também está em outro lançamento da Netflix deste ano, Okja. Assim como a diretora, Lily tem um histórico de anorexia. O emagrecimento pelo qual passou para fazer o filme foi acompanhado por médicos, para evitar uma recaída na doença. Sua atuação é um dos destaques do longa, cujo foco é o aprofundamento nos íntimos da personagem.

A história lembra a estrutura de Garota, Interrompida (1999) e Um Estranho no Ninho (1975): Ellen é uma paciente em uma clínica de reabilitação para quem sofre com transtornos alimentares. Seria interessante ver mais do histórico, da personalidade e dos problemas de outros pacientes: é uma forma de mostrar como transtornos alimentares acometem pessoas dos mais diversos perfis, causando os mais variados sintomas. Entretanto, muitos dos outros pacientes não são nem mesmo nomeados, pois isso poderia fugir do propósito do filme de trazer uma visão intimista da vida de Ellen, seus hábitos e pensamentos.

 

Enfoque Responsável

Quem vive com anorexia não quer mostrar que tem problemas com sua autoimagem. Hábitos como fazer abdominais antes de dormir, mastigar a comida mas não engolir e correr para eliminar calorias costumam ser escondidos. O Mínimo para Viver conquista o espectador mostrando esses detalhes, que parecem absurdos, mas são completamente lógicos, aceitáveis e desejáveis para quem desenvolveu a doença.

Esses detalhes são também o alvo das principais críticas ao filme. Apesar de haver um aviso de cenas carregadas no início do longa, há quem defenda que a produção pode ser um enorme gatilho para pessoas que já tiveram ou ainda têm transtornos alimentares. Isso significa que o filme poderia provocar fortes respostas emocionais ao colocar essas pessoas em contato com um assunto gerador de estresse e processos emocionais complexos.

O momento de enfrentar a balança aterroriza Ellen (Lily Collins) e os outros pacientes da clínica.

É uma crítica semelhante a que foi feita à série 13 Reasons Why (2017), também da Netflix, que abordou o suicídio, o estupro e outros conteúdos emocionalmente carregados. O filme protagonizado por Lily Collins foi comparado à série adolescente nesse quesito. No entanto, eles se diferem exatamente no tratamento que dão a esse conteúdo.

Enquanto 13 Reasons romantiza o suicídio e o coloca como a única alternativa possível para os problemas vividos pela protagonista Hannah, o filme de Marti Noxon tem um enfoque mais delicado. A anorexia é abordada como uma doença, que prejudica tanto quem a tem quanto seus familiares e amigos, mas também que tem uma saída. É um enfoque mais real, preocupado em denunciar e chamar atenção para o problema. O enfoque de 13 Reasons parece estar mais voltado para a dramatização excessiva da realidade.

Em um mundo onde a resposta geral à anorexia costuma ser “é só comer”, uma produção que mostre como os transtornos alimentares fogem do controlável e do racional é muito importante. Personagens como Luke (Alex Sharp) e Megan (Leslie Bibb) são inseridas para reforçar a dimensão da anorexia como um mal que pode trazer consequências muito além do imaginado e do que se possa controlar, e que podem durar para vida inteira.

O amor está muito presente em O Mínimo para Viver, seja amor romântico, fraternal ou materno. Ele está presente nas narrativas de Luke e Megan, e também na história de Ellen, mas não é nunca colocado como a solução para a anorexia. Isso reflete a realidade, já que o amor não é capaz de ser solução para uma doença. A série 13 Reasons nunca deixou isso claro, passando uma mensagem quase oposta. Ela coloca que se Clay tivesse confessado seu amor por Hannah antes de a jovem cometer suicídio, ela ainda poderia estar viva. A série ignora que a depressão e os males psicológicos causados a quem sofre um estupro também não podem ser consertados pelo amor.

Quando o debate é sobre a mídia abordando doenças ou temas emocionalmente carregados, é importante tomar cuidado para não culpar o termômetro pela febre. O que a mídia faz é uma representação de um problema real. Não é a mídia que cria esses problemas, e nem seria ideal que ela os ignorasse. No entanto, é preciso cuidado e responsabilidade, para que essa abordagem não piore o problema, mas sim, contribua para o tratamento desse problema. O Mínimo para Viver é um filme equilibrado, já que nem satiriza e nem romantiza os transtornos alimentares.

 

Mídia e Autoestima

Lidar com o próprio corpo é uma questão cada vez mais complicada, principalmente para as mulheres. Com o aumento da quantidade de informações a que temos acesso por dia, a pressão da mídia para se atingir o corpo perfeito está em todo lugar. Segundo o “Relatório Global de Autoconfiança Feminina Dove”, uma pesquisa divulgada em 2016, 71% das mulheres e 67% das meninas entrevistadas pelo mundo todo querem que a mídia se esforce mais para retratar diferentes tipos de beleza física, com maior diversidade de idade, raça e tamanho. Autoestima se tornou um tema delicado de se discutir em meio a tantos padrões e cobranças sociais.

Ainda segundo o relatório, quando não se sentem bem com sua aparência, nove em cada 10 mulheres afirmaram que desistem de compromissos importantes ou se forçam a parar de comer. A anorexia é uma doença desencadeada por fatores biológicos, psicológicos e ambientais, que estão diretamente relacionados a essas pressões sociais, à ansiedade e ao estresse. Em um quadro como esse, os problemas de autoestima se tornaram a regra. Ter uma boa relação com seu próprio corpo se tornou a exceção.

É aí que está a importância de um filme como O Mínimo para Viver. O objetivo do longa, de debater a relação problemática que temos com nosso corpo, é bem claro. Combater a vergonha de se abordar problemas que acometem tantas pessoas é fundamental.


Marina Moregula

Estudante de Jornalismo de 20 anos. Aquariana, feminista, curiosa, distraída e apaixonada por contar histórias.

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