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Uma Experiência Sensorial, Reflexiva E Essencialmente Humana

Uma experiência sensorial, reflexiva e essencialmente humana

  • Filmes

Apesar de ter sido mal recebido quando lançado, em 1982, Blade Runner se tornou com o passar dos anos não só uma das ficções científicas mais importantes da história, mas também um clássico do cinema que marcou época. Mesmo que com uma produção conturbada e com diferentes versões sendo lançadas, até o consagrado “finalcut”, o longa envelheceu bem por possuir, além de todo apuro estético e sensorial, camadas de simbologias e interpretações a serem desvendadas com o tempo.

Desta forma, nada mais do que natural do que a sua continuação, Blade Runner 2049, comece a traçar um caminho parecido. Assim como o original, o longa que aborda o mundo dos humanos e replicantes não alcançou números bons de bilheteria nos EUA, principal mercado cinematográfico, com uma abertura de apenas U$32,753,122. Para fins comparativos, It: A Coisa teve uma abertura de U$123,403,419 em seu fim de semana de estreia. Contudo, bilheteria e apelo popular não são, necessariamente, sinônimos de qualidade artística e Blade Runner 2049 comprova tal premissa ao se edificar não só como um dos melhores filmes do ano, mas como um longa-metragem que deixa a impressão de que com o passar dos anos, e a cada vez que for revisto e repensado, apresentará mais nuances e qualidades.

Assim como o primogênito, 2049 não é um filme convencional. O importante aqui não é seu enredo ou a narrativa apresentadas, e sim o que todo esse texto tem para falar. Os inúmeros questionamentos possíveis de serem levantados a respeito da individualidade humana, do avanço tecnológico, da formação de personalidade e memórias, da profundidade das relações sociais, da busca por identidade e auto-conhecimento, dentre outros, são o verdadeiro guia do filme, que trabalha tais indagações com perfeição. Desta forma, somos reinseridos no mundo criado por Ridley Scott 30 anos depois dos acontecimentos do longa de 1982, acompanhando o blade runner K (Ryan Gosling), responsável por caçar e exterminar replicantes de gerações anteriores, que estão atualmente foragidos. Em uma de suas missões, o detetive se depara com um segredo misterioso capaz de colocar em cheque toda a aristocracia e a ordem social existente.

Embora seja uma excelente continuação, talvez uma das melhores já feitas na história do cinema, Blade Runner 2049 se sustenta sozinho. Parte desse exito reside no roteiro de Hampton Fancher e Michael Greenresponsável por propor questionamentos, reflexões e agregar substância ao longa, além de apresentar personagens bem construídos com arcos dramáticos interessantes, profundos e críveis. Há um trabalho incrível nas liberdades tomadas para referenciar situações vividas no primeiro longa, ao mesmo tempo que criam simbologias e analogias profundas com coisas sutis (como nomes de personagens por exemplo), e na maneira com que levam a história deixada em aberto para frente sem responder perguntas ,que funcionam melhor sem respostas. Vale ressaltar que o roteiro não é previsível e que mesmo que o importante aqui não seja investigação policial protagonizada por K, consegue apresentar uma narrativa envolvente e com boas reviravoltas.

Trazendo forma ao texto, o trabalho visual é impecável, com um design de produção encabeçado por Dennis Gassner deslumbrante e eficaz em criar cenários e paisagens futuristas marcantes, que não só respeitam e homenageiam a identidade visual criada no primeiro longa, como expandem de forma orgânica o universo criado anteriormente. São soluções visuais interessantíssimas para um filme que quer ser profundo e escolhe um ritmo lento para isso.

Essa opção por uma narrativa mais contemplativa e um ritmo desacelerado funcionam perfeitamente bem nas mãos de Dennis Villeneuve. O canadense se assume, a cada filme que faz, como um dos mais talentosos diretores da atualidade, e em 2049 demonstra domínio total sobre a produção. Desde a maneira com que enquadra seus atores à consciência que têm para usar do silêncio, do avança narrativo gradativo, da contemplação enquanto interação com os personagens, dos planos longos que captam os desolados cenários deslumbrantes, o cineasta produz um filme que utiliza da imagem como principal elemento textual.

O design de produção volta a complementar o trabalho do diretor ao apresentar um mundo arquitetonicamente homogeneizado e escuro, dando a impressão que os poucos sinais de vida são provenientes dos neons das enormes propagandas de empresas e corporações. Existe um respeito claro da atmosfera e do traço noir apresentado no primeiro filme, mas atualizado e revisitado, em um trabalho criativo de Villeneuve para entregar sequências visualmente marcantes e poderosas. Roger Deakins comanda a fotografia com brilhantismo e impecabilidade, mesmo quando se distancia da estética consagrada pelo filme de 82, ao introduzir uma paleta de cores mais quente e intensa para agregar a atmosfera mórbida daquele mundo traços de um ambiente árido e devastado – não só de vida física, mas de alma.

A fotografia de Roger Deakins torna os planos de Blade Runner 2049 em verdadeiras obras de artes plásticas

Tão perfeito quanto os elementos estéticos e visuais do longa é a parte sonora da produção. Jogando com silêncios pontuais, Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch terminam por tornar Blade Runner 2049 em uma experiência sensorial completa. O trabalho dos compositores na trilha sonora original emula sons e melodias da trilha composta por Vangelis para o primeiro filme, ao mesmo tempo que atualiza os sons para combinarem perfeitamente com a imagem. Seja com efeitos sonoros diegéticos ou com melodias atmosféricas, os sons tomam o espectador e o inserem em toda atmosfera do longa, ajudando na construção de um clima tenso e inquietante perfeito para as provocações existencialistas do filme.

Todas as questões existencialistas acabam recaindo sobre K e sua percepção de mundo, na suas relações pessoais, e na sua própria percepção enquanto ser. Os questionamentos e as emoções (ou a falta delas) são extremamente bem interpretadas por Gosling, no melhor papel de sua carreira. Ao mesmo tempo que tem uma performance fria, introspectiva e retraída, condizendo perfeitamente com a personalidade de seu personagem e com suas frustrações crescentes, garante seus traços de carisma inigualáveis. Ainda, vale ressaltar a atuação corporal do ator, que se posiciona e movimenta de maneira engessada e travada no início da trama, mas que com o passar do tempo vai se mostrando fisicamente mais a vontade e confortável, como se o próprio K se sentisse melhor em seu próprio corpo.

Outro destaque do elenco é Ana de Armas, que torna sua personagem uma das mais importantes de todo o filme. Sua pureza, carisma, espontaneidade são destoantes de toda a atmosfera construída, agregando um escape para o protagonista e funcionando como ferramenta catalizadora de questionamentos profundos a respeito das emoções humanas, dos relacionamentos e da artificialidade de nossa identidade. Harrison Ford, que tem seu retorno como Deckard organicamente e logicamente introduzido na narrativa, trás mais do que um mero fan service para o longa, agregando com uma interpretação que carrega a dor, o amargor e a experiência vivida pelo personagem nestes 30 anos desconhecidos para o espectador. Sylvia Hoeks é intensa em todos os momentos que está em tela, fazendo com que Luv transpasse toda dificuldade emocional e psicológica em se abster de sua programação replicante ao demonstrar sentimentos fortes e contrários as ações que seu mestre Niander Wallace, interpretado de forma hipnotizante por Jared Leto, pretende para toda raça replicante.

Neste conjunto de trabalhos impecáveis, o filme termina por ser uma experiência cinematográfica por completo. Trabalhando todos os sentidos do espectador com perfeição, o longa consegue manter a atenção na tela durante de toda a longa projeção, que parece ser mais curta justamente pelo trabalho impecável de toda equipe da produção. 35 anos após o filme de 82, Blade Runner 2049 trás continuidade ao seu antecessor, sem se preocupar em responder perguntas passadas mas sim em aprofundar seus conceitos ao levantar novos questionamentos.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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