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Um Anúncio Sobre Redenção

Um anúncio sobre redenção

  • Filmes

Nota do Editor: este texto contém spoilers.


O cenário de Três Anúncios Para Um Crime (2017) é uma típica cidade do interior sulista dos Estados Unidos, onde todos parecem ter conhecimento sobre tudo que acontece dentro de seus limites. Desde o começo do filme, percebemos que comentários racistas e homofóbicos serão parte contundente dos diálogos, assim como palavrões e xingamentos machistas. Mas, na verdade, o que mais incomoda é a dúvida que se instala sobre o quão espessa é a linha que separa vingança do que chamamos “fazer justiça com as próprias mãos”. O responsável pelo roteiro e direção é Martin McDonagh, que apesar de ser o autor de várias peças adaptadas no cinema e por dirigir o ótimo Na Mira do Chef (2008) ainda procura seu lugar ao sol. Após levar o Prêmio do Público no Festival de Toronto, parece que sua hora de brilhar se aproxima.

Os rumores não são superestimados. A atmosfera violenta não provém apenas das frequentes cenas de brigas, ameaças e mortes, mas de uma trama muito bem elaborada onde três personagens partilham o foco enquanto somos obrigados a fragmentar nossos sentimentos. Experimentamos altas doses de amor e ódio por Mildred Hayes (Frances McDormand), Bill Willoughby (Woody Harrelson) e Jason Dixon (Sam Rockwell). E, aos poucos somos salvos da obscuridade de seus atos graças aos pontuais momentos de perdão. Mesmo quando achamos impossível superar o ocorrido, lá estão os personagens do longa para nos aliviar e provar o contrário.

Há sete meses sofrendo pela morte da filha que foi estuprada e carbonizada, Mildred não se conforma com o arquivamento do caso, pela falta de pistas e testemunhas. Ao observar três outdoors abandonados na mesma estrada em que o crime aconteceu, ela faz uma última tentativa para chamar a atenção do xerife da cidade, Bill Willoughby. Pelo nome do filme é fácil adivinhar o tamanho da repercussão que essa pequena atitude gerou. Incêndios, pessoas sendo jogadas de janelas e o aparecimento de um suspeito são algumas das consequências no desenrolar dessa trama envolvente. Você pode até tentar não se compadecer com os obstáculos que os ‘três protagonistas’ enfrentam na tentativa de serem boas pessoas, mas, com certeza, falhará de forma miserável.

Mildred Hayes é uma mulher particularmente desagradável, triste e endurecida pela vida. Observamos seu sofrimento nas mordidas nos cantos dos dedos, na delicadeza ao ajudar um simples inseto em apuros e no seu humor sufocado pela desesperança. Mildred nos conquista pela dor. Uma mulher que sofreu nas mãos do marido e não suporta ver a filha receber um destino ainda pior. Mas, acima de tudo, uma mãe devastada pela culpa. Graças à avassaladora atuação de Frances McDormand podemos sentir na pele seu desolamento e revolta. Odiamos sua impulsividade enquanto amamos sua determinação em fazer justiça.

Sem aceitar que o caso da morte de sua filha ainda esteja como “aberto”, Mildred aluga três outdoors que, juntos, formam “Estuprada enquanto morria. E ainda nenhuma prisão? Como pode, xerife Willoughby?”

Jason Dixon é um policial tão repugnante que torna-se um dos suspeitos do crime no início do filme. Racista e homofóbico, ele abusa de sua autoridade em momentos de total descontrole e raiva, protagonizando a maioria das cenas violentas. Um personagem que desejávamos ver morto durante o incêndio na delegacia, mas que depois agradecemos por estar vivo. Após sobreviver às queimaduras, Jason arrisca a própria vida para prender o assassino de Angela Hayes, quando o longa nos alegra com a chance de um final feliz. Sam Rockwell está irreconhecível e sua atuação é digna de muitos aplausos. Odiamos a intolerância do policial, mas amamos sua disposição em ajudar uma mulher que o desprezava.

Bill Willoughby é o xerife da cidade, um personagem apagado até que a luz da sua morte, ou das palavras contidas em suas cartas, o permitem roubar o filme por alguns minutos. Com suas falas acolhedoras e compreensivas, ele se mostra um homem benevolente e justo. Principalmente por uma de suas cartas ser destinada a Mildred, na qual ele lamenta não ter encontrado o assassino do caso Hayes e a perdoa de forma implícita pela exposição nos outdoors. “Com amor nós conquistamos a calma e com ela desenvolve-se a razão”, ele diz. Bom, é por isso que a despeito de odiarmos sua conivência com a má conduta de seus subordinados, amamos seu equilíbrio ao lidar com certas dificuldades.

A trilha sonora também encanta. Melodias que remetem às canções medievais são intercaladas com músicas clássicas e outras do estilo country, e tudo parece estar em perfeita sintonia, apesar da irreverência na composição. Nem todas as cenas dramáticas recebem músicas lentas e tristes. Isso traz surpreendente notoriedade, assim como as longas pausas em silêncio, como uma forma de respeito ao sofrimento de cada personagem em cena.

Enquanto o policial Dixon fica transtornado com os outdoors, o xerife Willoughby tenta manter a paz entre os dois e fazer com que Mildred retire os anúncios

Apenas corações que abarcam bondade são capazes de se redimir. Com suas lágrimas e olhares de compaixão, Mildred e Dixon demonstram arrependimento verdadeiro, livrando nossas consciências por amá-los. Porém, seria correto esquecer seus erros e apoiá-los na busca de destruir um inimigo em comum? A verdade de nada vale à justiça sem a apresentação de provas. Mas, não seria igualmente injusto deixar um estuprador à solta? Capaz de nos fazer questionar nossos princípios, Três Anúncios Para Um Crime chega ao Oscar 2018 com seis indicações e acredito que podemos guardar grandes expectativas para o dia 4 de março.

ruth berbert

estudante de Jornalismo, aspirante a atriz, mas minha vocação mesmo é ser amiga. o universo ideal certamente é o Cinema, onde se equilibra na tênue corda que a conecta aos seus sonhos.

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