Fidelidade genérica

Fidelidade Genérica
[tempo de leitura: 3 minutos]

“The Old Guard” tem fidelidade na trama da HQ que adapta as telas de cinema, mas o faz por meios genéricos que esvaziam um bom potencial.


JJá é batido o debate quanto a fidelidade em adaptações de obras para outras mídias, mas The Old Guard chega na Netflix para trazer mais uma vez a conversa à tona. O filme dirigido por Gina Prince-Bythewood adapta a HQ homônima de Greg Rucka – que também assina o roteiro – com fidelidade à trama e as bases de universo que a história apresenta. O problema aqui é a grande questão do debate: o que faz uma boa adaptação? O êxito está no respeito ao enredo original? Está na transposição da essência daquela obra transformada para outra linguagem?

Por mais vago que seja a discussão – afinal, não há uma resposta universal para isso – o fato é que a graphic novel é bem resolvida na articulação de seus temas por meio da sua própria linguagem, enquanto o filme de Prince-Bythewood sofre para dar profundidade ao tema da violência porque tem dificuldade em potencializar o drama das personagens que é centralizado na protagonista.

Nesse debate sobre fidelidade, talvez The Old Guard seja mais fiel a uma produção algorítmica da Netflix do que a qualquer outra coisa. A trama do longa é praticamente inalterada em relação a HQ, apresentando um grupo de guerreiros imortais liderados por Andy (Charlize Theron) e que, ao longo da história, participaram dos mais sangrentos embates da humanidade e, atualmente, seguem como um grupo de operações militar dedicado a fazer o bem.

A mão de Greg Rucka no roteiro faz com que a trama não tenha quase nenhuma mudança e a veia algorítmica do filme – o brilho nos olhos da Netflix que enxerga a possibilidade de um filme pouco inspirado capaz de criar uma franquia – encontra na diversidade de nacionalidade, etnias e orientações sexuais a justificativa ideal para agradar um público que clama e enaltece uma obra genérica envelopada como complexa.

Afinal, se o filme toma para si a ideia do “escrever certo por linhas tortas” em como a equipe de mercenários imortais age na sua jornada no mundo, é trágico que essa banalização da violência e do sofrimento causado por ela presentes na temática tenha um tratamento tão genérico.

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Da esquerda pra direita: os personagens Nile, Nicky, Andy e Joe.

Os dramas das personagens de The Old Guard soam interessantes e tem potencial para uma articulação maior de um discurso potente sobre essa banalização e também a respeito do impacto que a vivência próxima disso causa, mas falta arrojo para diretora Gina Prince-Bythewood dar estofo a essa proposta por trás das sequências de ação.

Essas, por sua vez, são envolventes e bem coreografadas, mas sofrem com esse esvaziamento da brutalidade tão interessante que é presente nos confrontos. Quando a personagem de Theron apela e percebemos que ela adentra uma luta disposta a um banho de sangue, não há uma inquietação ou incômodo posto para que o que vai desenrolar ao nosso olhar, pelo contrário: fica um sentimento latente de entretenimento com a violência e que se torna gritantemente contraditório a todo o efeito na protagonista e nos demais personagens.

O mais interessante de todo o filme é quando a diretora se permite momentos de maior intimismo para tratar da violência como criador da apatia emocional. Andy não vê mais sentido no mundo depois de passar milênios sobrevivendo por meio da agressividade e de sofrer com a dor da separação de um amor lésbico sugerido; Booker (Mathias Schoenaerts) se ressente da angústia de ver as pessoas que amava envelhecerem e morrerem; enquanto a jovem Nile (Kiki Layne), que descobre sua imortalidade e adentra o grupo, ainda carrega uma pureza questionadora ao sentimento de apatia e inércia que tomou seus colegas.

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Já que falta força para o discurso sobre a violência e inspiração para tratar os dramas em prol de uma unidade maior, o que Gina Prince-Bythewood faz de melhor em The Old Guard é criar personagens que, uma vez incapazes de temer a morte e acomodados com suas situações, perdem o sentido da vida.

O triste é que o resultado é um filme genérico que soa mais como uma tentativa de estabelecer uma franquia ou uma continuação que agrada a um público que se deixa moldar por essas linhas tortas e algorítmicas, já tão banalizadas e repetidas quanto a vida imortal das figuras de The Old Guard.

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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