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Revivendo Os Medos Da Infância

Revivendo os medos da infância

  • Filmes

Quando eu era mais nova, meu avô morava em um apartamento com um corredor enorme que dava para os quartos. No fim desse corredor, tinha uma pintura de três bebês – medonhos, diga-se de passagem – que sempre me dava calafrios quando eu tinha que passar por ela. Lembro de sempre olhar para meus pés enquanto atravessava o corredor e, por mais que eu tentasse manter meus olhos afastados da pintura, antes dela desaparecer do meu campo de visão, eu olhava para os três bebes, eles me olhavam, e eu corria para dentro do quarto. Depois de alguns anos, tinha esquecido completamente dessa pintura e do tanto que ela me aterrorizava. Mas foi dentro de uma sala de cinema que minha memória recordou todo um pavor de infância, e me fez ter sonhos com bebês gigantes me encarando e palhaços com balões.

Em It: A Coisa, o diretor argentino Andy Muschietti traz a adaptação de uma das histórias mais famosas do mestre do terror Stephen King. Diferentemente do extenso e genial livro, em que a trama se passa no fim dos anos 50 e 80, intercaladamente, o longa é ambientado em 1989, e apresenta a história de um grupo de crianças, que se intitulam Clube dos Perdedores, e que encontram uma semelhança em suas diferenças: todos passaram por situações de desespero e terror, em que avistaram a imagem de um palhaço.

Assim como em outros enredos de King, em It vemos novamente a fórmula de um grupo de crianças se aventurando pela pequena cidade onde moram – no caso, a assombrada Derry, no estado do Maine – e lutando contra um monstro que está sequestrando crianças. Porém, mais do que isso, a história de Bill, Richie, Eddie, Stanley, Beverly, Mike e Ben é sobre confiança, esperança, amizade e pertencimento.

Em um dia chuvoso, Bill Denbrough (Jaeden Lieberher) ajuda seu irmão mais novo, Georgie Denbrough (Jackson Robert Scott) a fazer um infalível barquinho de papel. Georgie, brincando na chuva, deixa o barquinho cair em um bueiro, e desaparece misteriosamente. Mesmo com as poucas esperanças de todos da pequena cidade de Derry, Bill segue sua teoria de que seu irmão estaria perdido no labirinto de esgotos da cidade e, com a ajuda de seu melhor amigo Richie “Trashmouth” Tozier (Finn Wolfhard), o hipocondríaco Eddie Kaspbrak (Jack Dylan Grazer), e o amigo judeu Stanley Uris (Wyatt Oleff), traça planos à procura de seu irmão desaparecido. Por acontecimentos do destino, Beverly “Bev” Marsh (Sophia Lillis), única garota do grupo, Mike Hanlon (Chosen Jacobs), que é perseguido por ser negro, e Ben Hanscom (Jeremy Ray Taylor), um garoto acima do peso, se juntam ao clube e completam o grupo dos “perdedores” que, depois de presenciarem coisas anormais, encontram em suas amizades um refúgio.

Em seu primeiro ato, o longa mostra qual seria o “medo” de todos os garotos do grupo, e apresenta cenas bem construídas, fazendo a aproximação das personagens com o espectador mais profunda. Cada um possui um medo que seria infantil e irracional para qualquer adulto, mas, que nas mãos de Muschietti e com a ótimo desempenho dos atores mirins, se torna extremamente cabível e aterrorizante. Em uma das cenas, Eddie Kaspbrak é abordado e perseguido pela figura de um leproso, e Beverly Marsh, vítima de abusos dentro de casa pelo pai, é surpresa por uma fonte de sangue que brota da pia de seu banheiro. São medos que ajudam no entendimento e veracidade de cada personagem, mas que ao mesmo tempo instauram a sensação de desconforto no espectador.

Porém, cada aparição ou materialização desses “medos” é apenas uma maneira do real vilão da história se apresentar. Impecavelmente interpretado por Bill Skarsgard, o palhaço Pennywise, “A Coisa”, é o responsável pelos desaparecimentos na cidade e pelos acontecimentos com o Clube dos Perdedores. Skarsgard entrega o personagem de maneira brilhante, trazendo trejeitos próprios e uma forma específica de falar, chegando, até, a despertar uma simpatia momentânea pelo palhaço “de olhos prateados”. A maquiagem e o figurino terminam por construir o semblante pavoroso que o palhaço tem, assegurando ainda mais credibilidade e veracidade à performance do ator. O ponto negativo, porém, está no exagero dos efeitos visuais em vários momentos em que vemos Pennywise, principalmente quando o palhaço precisa se movimentar para atacar as crianças, o que deixa 0 personagem um pouco caricato (se for possível afirmar tal coisa) e perde um pouco a aura macabra produzida pelo ator.

Bill Skarsgard em sua aterrorizante performance como o palhaço Pennywise, em “It: A Coisa”

Por trás da trama de terror, existe também uma dinâmica quase tangível entre o elenco infantil de It. Os destaques vão para Finn Wolfhard (Stranger Things), e Jack Dylan Grazer que, de forma divertida e natural, criam um jogo de diálogos e expressões faciais impossíveis de não acompanhar e se identificar. Nas cenas em que o Clube dos Perdedores está reunido, seja brincando nas bordas do rio Barrens, ou fugindo do bully Henry Bowers (Nicholas Hamilton), é importante observar que, assim como no livro, foi como estar assistindo a um grupo único. Uma junção que só funciona e se mostra inteira quando os sete garotos estavam juntos lutando contra Pennywise e suas diversas facetas.

Outro fator positivo do longa foi a mudança do ano em que a história se passa, que atualizou discussões presentes tanto no livro quanto na mini-série de Tommy Lee Wallace, It – Uma Obra-Prima do Medo (1990), que no Brasil foi lançado como filme, tangendo temas como racismo, homofobia e machismo. Com a mudança, também foi possível adicionar elementos dos anos 80 em It, como a trilha sonora recheada de canções do New Kids On The Block e The Cure, e várias referências ao longo do filme, como a cenografia dos quartos das crianças e da própria cidade de Derry (posters de Gremlins e A Hora do Pesadelo 5: O maior horror de Freddy). E, mesmo que a ambientação e todo o design estético possa lembrar muito Stranger Things, é importante lembrar que It é, antes de tudo, uma inspiração para a série.

O Clube dos Perdedores reunido em cena de “It: A Coisa”

Ultrapassando a arrecadação de grandes filmes de terror como Invocação do Mal 2 e o clássico O Exorcista, It, em menos de 15 dias em cartaz, já se tornou a maior bilheteria de todos os tempos para um filme de terror nos EUA. A principal justificativa, talvez, está na reunião dos fãs que, desde o lançamento do livro, se apaixonaram pela história de Stephen King. Mas, ainda mais que isso, pelo fato de que It: A Coisa desperta em sua narrativa os medos de infância de quem assiste.


gabi carvalho

tem 21 anos, é de libra com ascendente em sagitário e lua em peixes. divide o tempo lendo críticas sobre absolutamente tudo, memes, vlogs de comprinhas e enaltecendo o feminismo. é bem eclética, lê de tudo, ama escrever e não come carne.

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