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A ação e o seu potencial dramático

[tempo de leitura: 4 minutos]

“Resgate” patina ao construir um drama impactante, mas tem sucesso no dinamismo e visceralidade com que resolve tudo por meio da ação.


TTalvez se Resgate, novo filme de ação da Netflix, sustentasse até o final a noção de que “uma imagem vale mais do que mil palavras”, o impacto de sua proposta pautada na resolução dramática e narrativa por meio da ação seria maior. É curioso que o principal ponto forte do filme – justamente o potencial catártico da ação – é também o que escancara a pobreza dos diálogos e a dificuldade de propor um drama impactante.

O roteiro, escrito por Joe Russo, propõe uma encenação de ação constante como ferramenta narrativa e a direção de Sam Hargrave dá forma à uma experiência sustentada na coreografia, na movimentação corporal, na resolução física bruta e seca dos confrontos e, principalmente, dos dramas sugeridos. Não chega a ser um trabalho primoroso como o de George Miller em Mad Max: Estrada da Fúria (2015), mas o simples fato de um filme deste estilo conseguir utilizar de diversos clichês sem repeti-los didaticamente, já é uma virtude.

A trama acompanha a missão de resgate do jovem Ovi Mahajan (Rudhraksh Jaiswal), filho do maior traficante de armas da Índia, que é sequestrado pelo mais influente traficante de Bangladesh como um sinal de humilhação e disputa de poder pela região. Por um lado, Hargrave entende que a melhor forma de apresentar as habilidades do ex-militar e atual mercenário Tyler Rake (Chris Hemsworth), o escolhido para resgatar o garoto, é colocando-o para enfrentar um grupo de bandidos e matando um por um com a maior variedade de armas, golpes e improvisações de objetos como artifícios letais – uma escolha que poderia ser substituída por uma cena banal e didática de um personagem qualquer enumerando o histórico militar de Tyler, com suas condecorações e missões cumpridas.

Contudo, o incomodo com Resgate reside na necessidade de os personagens verbalizarem sentimentos e frustrações, o que recai na dificuldade do diretor em potencializar os dramas que são sugeridos. Como todo bom mercenário dos filmes de ação, Tyler carrega um trauma do passado que o assombra e o motiva a continuar no trabalho por não ter mais nada a perder em sua vida – uma característica que Hargrave opta por não desenvolver a fundo em cena, em algum momento de maior introspecção intimista do personagem, mas coloca outra pessoa para questionar o protagonista sobre sua busca incessante por uma missão que acabe o matando e resolvendo de vez sua dor interna.

Da mesma forma, em dado momento da trama o mercenário é questionado pelo jovem Ovi sobre seu passado e relata, com olhos marejados e sofridos, os motivos pelo qual sofre e enxerga na missão de proteger o garoto uma chance de resolução emocional com si mesmo. É novamente uma afirmação de algo que já é perceptível nos flashes de memória que pipocam pela trama, que criam um ruído exatamente por necessitar da verbalização para reafirmar um sentido que já está sugerido e implícito.

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Se é na inconsistência da variação entre visual e verbal que o diretor não consegue articular um drama de impacto, Hargrave tem muito sucesso ao levar as resoluções para a ação bruta. A violência visceral explicita agrega peso para a missão de Tyler, ao passo que também dá um grau de realismo aos combates. Ainda, o diretor se aproveita da experiência prévia como coordenador de dubles para coreografar sequências de lutas, tiroteios e perseguições muito bem filmadas, com uma câmera que acompanha a movimentação dos personagens com fluidez e dinamismo, junto da boa fotografia de Newton Thomas Siegel que capta tudo de forma seca e crua, além de agregar na construção de uma atmosfera de perigo pela captação de um ambiente quente e desconfortável. Dentro da proposta de valorizar a ação, a montagem de Ruthie Aslan e Peter B. Ellis não picota os embates, sendo eficiente e precisa para ajudar o diretor a orquestrar uma intensa, enervante e envolvente sequência de perseguição que se estende para emular um plano-sequência digno dos melhores filmes do gênero.

Nessa narrativa movida a tiros e frenesi, Chris Hemsworth se mostra confortável vivendo um tipo brucutu que carrega emoções pesadas e traumas profundos, com dificuldade de verbalização e facilidade de reação para a brutalidade. Nesse sentido, o ator serve perfeitamente para o estereotipo do homem que busca soluções na fisicalidade, mas na falta de uma carga dramática mais imponente ele também não recebe muito para aprofundar no personagem. Quem surpreende é Randeep Hoda, vivendo Saju, braço direito do pai de Ozi que também cruza o caminho de Tyler para resgatar o garoto. Se saindo bem quando exigido em situações de conflito, Hoda traz profundidade a um personagem que fica à deriva na narrativa com uma história paralela mal desenvolvida.

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Sobretudo, Resgate é um filme de saldo muito positivo que, mesmo com um inchaço narrativo de tramas paralelas e uma dificuldade de seu diretor em potencializar os dramas sugeridos, se sustenta na força que a ação intensa, visceral e dinâmica agrega a obra.

João Dicker

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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