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Os detalhes e angústias de uma fuga perfeita

[tempo de leitura: 3 minutos]

“Pacto de Fuga” mostra-se um filme instigante ao narrar o plano por trás de um momento histórico do Chile – mas que, no final, podia ir além.


EEm janeiro de 1990, um grande grupo de presos políticos do Chile fizeram algo considerado quase como impossível: fugiram da Cadeia Pública de Santiago em pleno regime militar. Baseando-se nesse fato, foi produzido o filme Pacto de Fuga, dirigido por David Albala e disponível no catálogo Prime Video.

Conhecida como Operación Éxito, a fuga foi um dos maiores atos contra Augusto Pinochet. Dentre os presos, sete deles participaram de um atentado contra o ditador em 1986 e, por isso, estavam condenados à morte. A fuga foi feita através de um túnel de 80 metros, construído por 24 presos durante 18 meses, libertando 49 detentos.

Pacto de Fuga mostra o plano desde o início, quando era somente uma ideia entre os principais presos responsáveis pelo ato, León Vargas (Benjamín Vicuña),  Rafael Jiménez (Roberto Farías) e  Eusebio Arenas (Patricio Velásquez). Com uma frieza e calculismo invejáveis, o trio consegue traçar um plano impecável, com a construção de um túnel a partir da parede de uma cela e o armazenamento da terra num buraco no teto. Com muita astúcia, convencem outros colegas a participarem da execução e planejam com precisão quando cada um iria cavar e como isso seria feito sem que os guardas notassem. Para conseguirem completar o plano, contam com ajuda externa, chefiada por Paulina Baeza (Francisca Gavilán), ex-mulher de Rafael.

O filme é muito rico em detalhes e situa o espectador de a quanto tempo o grupo está desde que começaram a cavar. O cenário mostra uma prisão realista, com todo o sofrimento que os detentos passam, que vão desde a brutalidade policial, escassez de recursos, brigas internas e conflitos familiares. O ambiente é de muita tensão, principalmente pelas divergências entre os presos e anseios de cada um, que eram intensificados diante de uma possível e tão sonhada liberdade.

Contudo, ainda que o detalhamento geralmente seja uma característica positiva em longas, senti que este pecou pelo excesso em alguns momentos. Como espectadora, eu estava bem mais interessada em ver o plano de fuga do que as questões internas com os guardas e chefes dos departamentos responsáveis pelos presos.

Tendo como proposta mostrar a execução do plano, Pacto de Fuga não mostra momentos antes da prisão ou como os fugitivos lidaram com a nova vida. Antes dos créditos, sobem na tela algumas informações sobre isso, relatando que alguns foram para o exterior e outros conseguiram perdão de Patricio Aylwin, primeiro presidente democrata no Chile após a ditadura. Como os cabeças da operação eram parte da organização Frente Patriótico Manuel Rodríguez, uma grande guerrilha chinela, fiquei bem curiosa para ver como era a movimentação deles no grupo antes da prisão. Sei que o filme não promete isso, portanto não foi algo que faltou, mas acredito que seria mais interessante intercalar as cenas cavando o túnel com momentos no FPMR.

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Além de toda a tensão criada para combinar com a temática, Pacto de Fuga também consegue trazer, ao mesmo tempo, muita adrenalina e claustrofobia, que ornam perfeitamente com o cenário e proposta. A adrenalina fica por conta tanto da construção do túnel, pelo medo de serem pegos pelos guardas, quanto pelo momento da fuga e o temor do que aconteceria se desse errado. Já o sentimento claustrofóbico é direcionado tanto pelo sufoco que os presos passam no cotidiano na prisão quanto pelo arrastar dos corpos no longo e estreito túnel, que garante uma cena angustiante e uma fotografia impressionante.

Deborah Almeida

deborah almeida

mineira, jornalista e feminista. viciada em filmes adolescentes e de terror, amante de seriados e enaltecedora das divas pop. tanto 8 quanto 80, apaixonada por palavras, colecionadora de cartão postal e louca dos tsurus de origami.

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