fbpx

Um filme mutante e sem identidade

[tempo de leitura: 3 minutos]

“Os Novos Mutantes” estreia após anos no limbo cinematográfico para comprovar como a falta de identidade imposta por estúdios afeta um filme.


CChega a ser estranho abrir um documento para escrever sobre Os Novos Mutantes. Por mais que uma obra precise ser avaliada por aquilo que apresenta ao espectador, o caso deste novo longa do universo dos X-Men abre precedente para relacionar a bagunça que vemos na tela com todo o imbróglio criativo, produtivo e de distribuição que o precedeu.

O atraso no lançamento do filme, inicialmente pensado para abril de 2018 como uma exploração mais diversa e autoral do universo criado por Chris Claremont e Bob McLeod nos quadrinhos, passa pelo desmoronar do universo coeso e unificado que a FOX tentava construir para a franquia e, simultaneamente, pela compra do estúdio pela Disney.

Passados dois anos de seu lançamento, e em meio a uma retomada dos cinemas no contexto de 2020 com o COVID-19 ainda presente, Os Novos Mutantes estreia para comprovar que o filme pensado para o longínquo ano de 2018 jamais verá uma tela de cinema que caiba sua possível autoralidade.

Então, o que vemos é um longa que abarca três produções dentro de um só: o primeiro é o produto que a FOX almejava produzir antes da compra pela Disney, um que tenta, sem nenhum sucesso, se conectar ao universo dos X-Men já apresentado no cinema. O segundo – e mais interessante – é o potencial terror adolescente sobre a emancipação juvenil que, com dada liberdade criativa, chegaria pelas mãos do diretor Josh Boone. O terceiro e derradeiro causador da bagunça é o “filme de super-herói” que forçaram longa adentro, especialmente no clímax da projeção.

Dos pontos positivos de Os Novos Mutantes, o principal é o mérito de Boone nas sequências mais íntimas e aterrorizantes que mostram boas ideias, apesar de uma execução sem unidade e muito repetida para sua encenação que projeta as inseguranças, traumas e cicatrizes do passado que todos os jovens mutantes carregam na relação com seus próprios poderes. Alguns deles ainda tem vislumbres de abusos e assédios em seus backgrounds, algo que poderia adicionar um estofo dramático ainda mais interessante se a produção tivesse respaldo de um estúdio mais interessado em bancar alguma identidade.

  • Save
Da esquerda pra direita, os Novos Mutantes: Blu Hunt, Anya Taylor-Joy, Blu Hunt, Henry Zaga e Maisie Williams

O problema principal da narrativa está na estrutura que se repete e se desgasta ao blocar situações isoladas para cada personagem. Em dado momento um dos jovens se vê sozinho em uma atividade corriqueira como tomar banho ou lavar a louça, o momento ideal para um suposto encontro sobrenatural. Essa relação, mesmo que clichê no gênero de terror, poderia ser trabalhada com alguma inventividade para não criar a dinâmica repetitiva de a cada cena vivenciarmos a mesma sequência alternando entre personagens.

Se havia alguma expectativa para uma atmosfera de terror presente, Os Novos Mutantes decepciona por não trabalhar o potencial de uma atmosfera bem construída na ambientação da espécie de manicômio que os jovens mutantes estão trancafiados. Nessa dinâmica de uma película de confinamento, Boone não consegue garantir identidade para uma possível temática de devaneios, de assombração ou, porque não, de vivência juvenil coletiva na casa.

O elenco de talentosos rostos joviais conhecidos de Hollywood não consegue melhorar os dramas mal trabalhados de seus personagens justamente por soarem completamente deslocados de qualquer unidade ou projeto de arrojo maior para o longa como um todo.

  • Save

Assim, o que sobra é um filme genérico de potencial desperdiçado. Se o filme poderia trazer alguma renovação ao “gênero” de super-heróis nos cinemas ou até mesmo funcionar como um impulsionador de um reboot dos X-Men no universo compartilhado da Marvel (sob tutela da Disney), o que temos é um filme próximo ao desconforto da fase da adolescência em que passamos muito tempo em busca de nossa própria identidade. Uma pena que Os Novos Mutantes não tenha a encontrado ou sustentado a tempo.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

Back To Top
Right Menu Icon
Share via
Copy link
Powered by Social Snap